03/09/2019

A Coreia do Sul e o reverso da medalha

Foi há praticamente dois anos que o embaixador da Coreia do Sul em Portugal – Chul Min Park – deu uma palestra nas instalações do Museu do Oriente, em Lisboa.

Lembro-me de nela ter falado, por exemplo, da primazia, no país asiático, do "nós" sobre o "eu" (e seus ‘derivados’ como "nosso" ou "meu", claro).

"O nosso mundo", "o nosso país", "a nossa casa", "a\o nossa\o filha\o", "o nosso marido", "a nossa mulher"

Ora, tendo sido criado numa cultura ocidental, se se quiser chamar-lhe assim, em que o individualismo foi – e é – a referência primordial, é-me algo difícil compreender os fundamentos que levaram à "instalação" desse modo de ser e de estar na vida que privilegia o igualitarismo e o sentido de comunidade (que passa, também, pela linguagem adoptada).

Uma espécie de colectivismo cultural, pois.

Uma solução para contrariar essa incompreensão?

Tentar, em primeiro lugar, "libertar-se" das barreiras impostas pela Cultura travando um diálogo com autores de outros tempos, de outros lugares e de outros domínios disciplinares.




Post scriptum: No entanto, o texto (ou melhor, o artigo) que o jornal South China Morning Post publicou, "online", há poucos anos também – "Is South Korea ready to take on racism? First, it must admit it exists" – revelou dois aspectos que me pareceram ser essenciais para melhor se perceber esse colectivismo cultural: o primeiro foi o facto de a Coreia do Sul ser um dos países etnicamente mais homogéneos do mundo e o segundo o ‘resultado’ de um estudo levado a efeito em 2015 por um instituto sul-coreano que descobriu que 94.5% dos cidadãos estrangeiros residentes (suponho que residentes) em Seul tinha já sido "alvo" de algum tipo de discriminação (racial, por exemplo). Ora, suponho que também a cultura de um povo possa, como tudo na vida, ter o "reverso da medalha", certo?

02/09/2019

A II Guerra Mundial

Começou, às primeiras horas do dia 1 de Setembro de 1939, a ser escrito aquele que se viria a tornar um dos capítulos mais sombrios da história da humanidade.
Há oito décadas, pois.

Falo da II Guerra Mundial.
Um conflito que teve como ‘protagonistas’ principais Adolf Hitler, Josef Stalin, Franklin Delano Roosevelt, Winston Churchill, Benito Mussolini ou o imperador japonês Hirohito e outros, tantos outros, nos ‘bastidores’ (mas cuja acção foi tanto ou mais importante do que a dos ‘protagonistas’ principais…) como Reinhard Heydrich, Adolf Eichmann, Vyacheslav Molotov, Julius Robert Oppenheimer, Alan Turing, o general Hideki Tojo.
Apesar de ter tido todos os "ingredientes" que, na generalidade, se associaram a outros conflitos armados já ocorridos, a II Guerra Mundial – que durou de 1 de Setembro de 1939 a 14 de Agosto de 1945 – foi ‘palco’ de alguns ‘actos inovadores’: o planeamento metódico do extermínio de um povo – o judeu* – que culminou no Holocausto e o lançamento de duas bombas atómicas.
A II Guerra Mundial foi a causa para a perda de cinquenta milhões de vidas humanas mas foi, também, o acontecimento que a todos demonstrou aquilo que o Homem é capaz de fazer ao seu semelhante.


* Este plano de destruição teve, na sua base, a chamada Conferência de Wannsee (realizada a 20 de Janeiro de 1942) em que se procurou afirmar, ideologicamente, a legitimidade da Solução Final e coordenar a logística para a levar a efeito.

31/08/2019

O altruísmo da "raça superior"

Escreveram Francesco Alberoni e Salvatore Veca em "O Altruísmo e a Moral" (primeiramente editado pela Bertrand Editora em 1988) que "Em nenhuma sociedade, até agora, foi elogiada a mentira, o abuso, a violência, a crueldade, a opressão dos débeis, a arrogância, a inveja, a avareza, a mesquinhez de alma e condenada a amizade, a generosidade, o altruísmo".

Ora, um dos postulados que mais ‘sucesso’ obteve junto da sociedade alemã que Adolf Hitler e os seus lacaios governaram foi, precisamente, o da raça superior.

Talvez o maior sinal do Mal que o regime nacional socialista construiu foi o ter dito aos alemães o que eles queriam ouvir: que eram "grandes", importantes e, portanto, Senhores pertencentes à Raça Superior.

É claro que aqueles eram, pois então, mentirosos, violentos, arrogantes, mesquinhos, cruéis e não generosos e altruístas…

Creio que os milhões de vítimas dos nazis são disto o ‘melhor’ testemunho.

30/08/2019

O maior rio da Europa

"Qual é o maior rio da Europa?".

Foi esta a pergunta que um dos animadores da estação pública de rádio (Antena 1) colocou, há já alguns anos, aos ouvintes. 

E fê-lo no ‘separador’ cultural "jogo do sabichão" (na edição da tarde).


Momentos depois de colocar a questão deu a resposta.


"É o rio Voga!", anunciou triunfante.


Não uma mas duas vezes, portanto.


Ou seja, repetiu o erro.


Assim, creio que se poderá descartar a hipótese de o locutor se ter enganado. 


Ora, estou absolutamente convencido de que, caso não tivesse ficado triste e desapontado com alguém que, pelas funções ocupadas, julgava ser possuidor de uma cultura geral acima da média, como se costuma dizer, teria rido.

29/08/2019

Tão 'perto' e tão 'longe'

Segundo um texto que li há alguns anos, um estudo havia ‘descoberto’ que a maioria dos utilizadores de telemóveis "inteligentes" (os chamados "smartphones") residentes nos países considerados ricos em termos económicos interagia com esses mesmos aparelhos cerca de 2600 vezes em cada dia.
Concluí, assim, que essa maioria ‘mexia’ nos seus telefones portáteis 108 vezes por hora e quase duas vezes a cada segundo que passa.

Não pensei estar entre esta maioria de cidadãos mas, admitindo eu a validade científica de tal descoberta, o estudo provava, desde logo, o quão dependentes os habitantes dos países mais ricos estavam da tecnologia e, seguramente, viciados por ela.

Mas também provava uma outra ‘coisa’.

Por sinal, bem mais paradoxal e sinistra.

A de que, num momento histórico em que me parece que nunca existiram tantas oportunidades de contacto com o Outro – a época da chamada globalização – vivíamos (e vivemos) tão sós.

Ora, talvez a solidão seja mesmo o preço a pagar por tanto (ilusório...) conforto.

28/08/2019

"A mediocracia"

"O desporto de hoje já não se encontra verdadeiramente nos estádios, nem o dinheiro nos bancos, nem a religião nas igrejas. A política já não se faz no parlamento. E a justiça já não se encontra nos tribunais.
Toda esta confusão tem uma origem comum: a erupção de um novo poder que se insinua em todos os aspectos da nossa vida social. Este poder novo tem um nome: é o sistema mediático, um conjunto de fios de cobre, de computadores, de câmaras, de circuitos e de sondagens de opinião através dos quais a informação passa e volta a passar à velocidade da luz…
Os poderes já não estão onde a lei e o tempo os tinham instalado. E assim forma-se uma nova arte de governar, de executar, de julgar, de gerir. E também de existir.".

Fonte: François-Henri de Virieu, "La Médiocratie" (1990)

27/08/2019

A Conferência de Berlim

Pude ler, na pequena ‘nota’ de introdução ao documento "Migration: boosting development in Africa to create alternatives" que o Parlamento Europeu preparou, o seguinte:

"Crescimento económico e evitar que as pessoas tenham que abandonar a sua terra são alguns dos desafios que os países africanos enfrentam. Uma nova estratégia União Europeia-África proposta pelos Estados-membros estabelece de que forma é que o desenvolvimento pode fazer a diferença".

E, também, que "Desde que a crise migratória surgiu, os países europeus têm vindo a prestar mais atenção ao que tem vindo a acontecer em seu redor, particularmente em África".

Mas só agora se percebeu que apenas o facto de os países proporcionarem boas ‘condições de vida’ pode evitar a fuga das suas populações em busca de uma vida, noutro país, que lhes permita alcançar mais e melhores condições económicas, por exemplo?

E que só a chamada crise migratória levou a que a Europa se interessasse mais com o que se estava a passar ao seu lado, por assim dizer?

E pude também ler, entretanto, um artigo que David Pilling assinou na edição digital do jornal britânico Financial Times cujo título era "Africa is not immune from secessionist sentiment".

"Os Estados africanos modernos foram criados na Conferência de Berlim de 1884-1885 por potências coloniais com poucos conhecimentos acerca das realidades étnicas, políticas e geográficas" em presença, concluiu.

Ora, parece-me que os ‘resultados’ de tal estratégia (ou falta dela) têm estado à vista de todos...