(continuação)
Entre
aqueles para quem a aldeia significava a comunidade e a cidade
significava, ao invés, a sociedade esteve o também
sociólogo, mas de nacionalidade francesa, Émile Durkheim.
Este
cientista social trouxe, ainda no final do século XIX, alguma luz a
estas questões quando reflectiu sobre as características sociais
subjacentes à acção, necessariamente dinâmica, deste fenómeno
particular de industrialização e identificou dois tipos de
solidariedade social: a solidariedade mecânica, de cariz pré –
moderno, que, defendeu, se caracterizava por um predomínio e pela
sobreposição da consciência colectiva face à consciência do
indivíduo e por relações afectivas mais profundas entre os
elementos, representava a vida em e na comunidade (desta
concepção particular poderá deduzir-se facilmente que, para o
autor, a comunidade e as suas características eram melhor
patenteadas pela realidade social rural...) e a solidariedade
orgânica, com uma génese moderna que, inversamente, se encontrava
mais abrangentemente representada nos meios urbanos e industriais
(percepcionados como constituindo, pois, a sociedade) e se
caracterizava mentalmente pela sobreposição da consciência
individual à consciência colectiva e por relações pessoais mais
distantes e menos profundas sentimentalmente.
Assim,
nos agrupamentos humanos ‘arcaicos’ em que a solidariedade era de
base mecânica e a diferenciação das fronteiras entre deveres e
direitos era quase inexistente, o sistema social vigente "aguentava-se" devido à própria homogeneidade das regras e dos
valores que constituíam a chamada consciência colectiva.
De
forma interessada, também o sociólogo e professor alemão Georg
Simmel deu conta na sua obra "The Metropolies and Mental Life" da transformação dos
valores subjacentes à vida social dos indivíduos numa época (fim
do século XIX e início do XX) profundamente marcada pela crescente
industrialização e urbanização de diversas regiões não apenas
em contexto europeu mas igualmente nos Estados Unidos da América.
Através
da personagem por si criada, Hans, Simmel revelou o encontro
com a modernidade através da experiência quotidiana daquele
camponês.
Efectivamente,
encontrando-se inicialmente inserido numa rede de relações pessoais
primárias, de parentesco e de interconhecimento (a família extensa
e os vizinhos), Hans deparou-se, através da migração para
uma grande cidade, com um mundo novo e começou, desde logo, a
aperceber-se das diferenças de valores e de sentimentos (e não só)
entre os dois ambientes físicos: afastado da intimidade relacional
que o havia envolvido toda a vida na aldeia, passou a enfrentar um
mundo que descreveria, certamente, como calculista e impessoal onde o
sentimento de anonimato, criado e reforçado pelo excesso de
estímulos no contexto das interacções sociais, surgia como que na
forma de uma resposta social mais defensiva, por assim dizer, por
parte dos indivíduos.
Para
o académico germânico, todavia, aquelas transformações não
encerravam somente aspectos ou situações menos positivos e, até,
nefastos: o indivíduo (encarnado, pois, por Hans), uma vez
fora dos contornos sociais e psicológicos característicos das suas
origens rurais, poderia, na grande cidade, escolher os amigos que
quisesse, o trabalho ou a profissão que preferisse (com maiores ou
com menores restrições...), sem estar permanentemente condicionado
por impeditivos ou condicionantes de ordem moral e cultural do
agrupamento tradicional de que provinha.
Para
o seu contemporâneo e igualmente sociólogo alemão Max Weber, o
sentimento do nós era a característica essencial da
comunidade.
Poderíamos
assim, observou-o, chamar comunidade a uma relação social
quando e na medida em que o comportamento na acção social se
inspirasse num sentimento subjectivo – afectivo ou tradicional –
dos participantes num todo.
É,
pois, o sentimento que poderei designar de integração e de inclusão
sociais.
Já
o sociólogo e docente polaco Florian Znaniecki, que escreveu "The
Polish Peasant in Europe and America", referiu, na década de
1940, que, tendo subjacentes os aspectos do controlo social mas não
o identificando com qualquer entidade ou estrutura física específica
(aldeia, por exemplo) ou sequer profissional (um banqueiro e os seus
clientes como exemplo), um indivíduo poderia tender a conformar-se
com as exigências do seu círculo ou tentar, então, inovar e
tornar-se, assim, independente dessas exigências.
Poder-se-ia,
no entanto, afirmar que a contínua chegada à cidade de elementos
muito diferentes, ‘formatados’ em usos e em costumes diversos,
impediria a generalização de um clima social estável capaz de
assegurar uma certa uniformidade no comportamento dos seus
habitantes.
Ora,
sendo a cidade uma espécie de mosaico interligado de grupos
primários e associações de interesses, Znaniecki introduziu, uma
vez mais, a "consciência de que existe uma variedade de
agrupamentos dentro da sociedade, em lugar de apenas um grande
grupo".
Usando
a expressão "círculo social" para se referir ao grupo
numericamente (sobretudo) limitado com o qual o papel social de um
indivíduo é mais imediatamente associado, apontou Znaniecki para o
facto de que tais grupos se submeteriam a certos valores que
concorriam e possibilitavam para e as suas interacções num
determinado contexto social.
Assim,
concluiu, as causas particulares e os fins, sem os quais não existe,
naturalmente, associação, são como que o corpo (a matéria) do
processo social.
(continua)