07/10/2019

Monarquia e República em Portugal

Assinalou-se no passado sábado mais um aniversário da implantação do sistema republicano em Portugal. 

São já cento e nove anos de República (‘contra’ setecentos e sessenta e sete de Monarquia).

Ora, considero-me republicano pelo simples facto de ter sempre vivido sob a égide da República Portuguesa e ser este, pois, o único regime que "realmente" conheço.

Mas também não me identifico com muitos dos valores monárquicos que sustentam a defesa deste regime e o consequente ‘regresso’.

Ou seja, reconheço à Monarquia e à República em Portugal (por tudo quanto tenho lido e visto, respectivamente) méritos e defeitos. 

A verdade, todavia, é que não consigo deixar de associar a esta transição, política e não só, claro, o facto de ser sempre necessário que algo mude para que (quase) tudo fique na mesma…

04/10/2019

Defender e respeitar

Depois de, há pouquíssimos dias, me ter deparado, novamente, com o quadro pintado pelo norte-americano Grant Wood "American Gothic" não mais consegui deixar de me lembrar do livro "Direito a ofender" - escrito pelo jornalista e escritor britânico Mick Hume - nem de uma frase escrita pelo filósofo austríaco Karl Popper no seu livro "A Sociedade Aberta e os seus inimigos".

Ora, as ideias fundamentais de "Direito a ofender" são a de liberdade para se poder dizer o que se quer e a de tolerância para se aceitar essa mesma liberdade.

Trata-se, no fundo, de se ‘exercer’ aquilo que já no século XVIII havia sido dito pelo filósofo francês do Iluminismo – Voltaire: "discordo do que dizes mas defenderei até à morte o direito de o dizeres".

A frase de Karl Popper: "Temos pois de proclamar, em nome da tolerância, o direito de não sermos tolerantes com os intolerantes".

Parece-me, enfim, que a muitas 'autoridades' - morais e legais - de todo o mundo falta (ainda?) muito ‘caminho’ para poderem estar verdadeiramente 'aptas’ a defenderem e a respeitarem a liberdade e a tolerância.

03/10/2019

Heidegger e o Homem

Nascido a 26 de Setembro de 1889 na Alemanha, Martin Heidegger tornar-se-ia um dos ‘maiores’ expoentes da ‘corrente’ filosófica existencialista.


Assim, afirmou, por exemplo, que "Todo o Homem nasce como muitos mas morre como um ser único".


02/10/2019

Essencial e superficial

Continuo com uma 'mão' a Oriente...

Lembro-me de, há já alguns anos, ter lido no então jornal OJE um texto assinado pela jornalista Rebecca Abecassis com o título "Os países do norte não são todos iguais" em que, fazendo uma espécie de viagem por alguns países e povos do Norte da Europa, distinguiu, no meio da heterogeneidade, duas áreas aí commumente encaradas como fundamentais para se atingir um bom nível de desenvolvimento económico, social e cultural: a arquitectura e a gastronomia (ou culinária).

Mas também me lembro de ter lido, no jornal SOL, um texto preparado pela/o jornalista L. A. de Sá a propósito dos dez anos da transferência oficial de soberania de Macau de Portugal para a China com o título "Dez anos é muito tempo".

Neste se deu conta de que, no ‘balanço’ de uma década de Administração chinesa em Macau, o canal público de televisão da China, a CCTV, havia sublinhado que a matriz portuguesa ‘dominava’ em formas culturais qualificadas como superficiais como a arquitectura e a gastronomia (ou culinária).

Ou seja: enquanto que diversas ‘expressões’ culturais eram (e são?) consideradas, por alguns, como formas pouco dignas e, em certa medida, insignificantes nos contextos económico, social e cultural de uma dada sociedade (e respectivas comunidades), essas mesmas ‘expressões’ culturais eram (e são?) objecto de muita atenção, por outros, como meios para tentar atingir uma maior – e melhor – qualidade de vida.

Em várias dimensões.   

Ora, concordo absolutamente com a visão nórdica...

01/10/2019

"Made in China"

A República Popular da China (RPC) assinala hoje sete décadas de existência.

Ora, não creio ser uma novidade para quem quer que viva em Portugal (e não só, claro) dizer-se que uma percentagem muito significativa dos produtos à venda nas lojas são fabricados na RPC.

Mas nem sempre assim foi.

Parece-me, pois, ser oportuno lembrar um excerto de um trabalho escrito pelo jornalista e autor galês Ernest Edwin Williams no final do século XIX intitulado "Made in Germany":
 "Olha à tua volta, amigo leitor: verás que o tecido de algumas peças do teu vestuário foi com certeza tecido na Alemanha. E, mais provavelmente ainda, que algumas roupas da tua mulher são de importação alemã (…). Em cada recanto da tua casa encontrarás a marca fatídica, desde o piano do escritório até às chávenas da cozinha (…). Apanha do chão o papel de embalagem de um pacote de livros: também ele foi feito na Alemanha. Lança-o ao fogo e repara que o atiçador que tens na mão foi forjado na Alemanha. Ao levantares-te, derrubas um vaso que se encontrava junto à chaminé e, ao apanhar os cacos, lês no pedaço que constituía o fundo: Made in Germany".

30/09/2019

O Tratado de Salvaterra de Magos

A Câmara Municipal de Salvaterra de Magos organizou desde o passado dia 13 de Setembro até ontem (dia 29) mais uma edição das "Jornadas de Cultura".

Ora, estas Jornadas tinham o objectivo de a todos dar a conhecer o ‘percurso’ histórico e, se se quiser, identitário, do concelho ribatejano através da dinamização de algumas actividades de ‘feição’ cultural.

Desconheço, no entanto, se alguma dessas actividades recordou o Tratado de Salvaterra de Magos.

Assim, limito-me a citar a própria página na "Internet" da edilidade a propósito desse mesmo Tratado:


"Ainda no período medieval, no reinado de D. Fernando, regista-se em Salvaterra de Magos um acontecimento que irá marcar o Reino de Portugal - o Tratado de Salvaterra de Magos.
Este Tratado ocorreu nesta vila, a 2 de Abril de 1383, onde ficou acordado que a D. Beatriz (filha de D. Fernando I) casaria com o D. João I de Castela. Com a morte de D. Fernando I, Portugal mergulha numa crise de sucessão, na qual o D. João I de Castela queria usurpar o trono português.
Este acontecimentos ficaram marcados na crise de 1383-85, com a Batalha de Aljubarrota, em que Portugal em menor número de tropas mas com o apoio dos ingleses desenvolve uma estratégia que acaba por derrotar os Castelhanos. Desta crise sai como vencedor o Mestre de Avis - D. João I".

28/09/2019

A Comunidade, a Sociedade e nós (3.ª parte)

(continuação)

Mais recentemente, o historiador francês Georges Duby afirmou, num artigo que foi publicado, em 1993, pelo jornal Expresso com o título "Voltar às verdadeiras questões", que "as sociedades medievais tinham uma característica (...) que era o sentimento de comunidade, de solidariedade". 

Observou que, de facto, essas sociedades da época medieval eram "verdadeiras comunidades, familiares, de aldeia, de vila, onde funcionava um sistema de entreajuda, de apoio, simultaneamente moral e material".

Por seu lado, o escritor e professor português Eduardo Prado Coelho – num excelente artigo de opinião publicado também no jornal Expresso mas em 1989) e a que deu o título de "O delírio nacionalista" –, referia-se e resumia, por assim dizer, toda esta problemática: "toda a questão está em determinar onde começa o círculo do nós: pode ser «nós, os Silvas» contra «eles, os Esteves», pode ser «nós, os do Lumiar» contra «eles, os dos outros bairros» (...) pode ser «nós, os portugueses» contra «eles, os espanhóis»".
Esta questão, quanto a mim, é e será importantíssima se se pensar, por exemplo, no ‘clima’ de ódio e de intolerância que continua a povoar muitas mentes por esse mundo fora…