21/10/2019

Imigrantes e refugiados

Não tendo a absoluta certeza da diferença existente entre um imigrante (ou emigrante sendo que ambas as figuras jurídicas, imigrantes e emigrantes são migrantes) e um refugiado, limitei-me a procurar saber junto de quem, certamente, saberia. 

De facto, o sítio na "Internet" da sede brasileira da Agência da Organização das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) foi-me muito útil: "Os refugiados são pessoas que escaparam de conflitos armados ou perseguições. Com frequência, sua situação é tão perigosa e intolerável que devem cruzar fronteiras internacionais para buscar segurança nos países mais próximos, e então se tornarem um 'refugiado' reconhecido internacionalmente, com o acesso à assistência dos Estados, do ACNUR e de outras organizações. São reconhecidos como tal, precisamente porque é muito perigoso para eles voltar ao seu país e necessitam de um asilo em algum outro lugar. Para estas pessoas, a negação de um asilo pode ter consequências vitais" enquanto que "Os migrantes escolhem se deslocar não por causa de uma ameaça direta de perseguição ou morte, mas principalmente para melhorar sua vida em busca de trabalho ou educação, por reunião familiar ou por outras razões. À diferença dos refugiados, que não podem voltar ao seu país, os migrantes continuam recebendo a proteção do seu governo".

19/10/2019

Refugiados professores

Aqui descrevi há dias a situação por que passa o Brasil como sendo de "instabilidade política e social".

Creio que o "diagnóstico" apresentado não foi demasiadamente arriscado, nem pessimista, já que não são poucas as vozes a alertarem que o momento actual da vida brasileira é, na verdade, um perigo para o próprio regime democrático do país.

Ora, apesar dos mais de sete mil quilómetros que me separam – enquanto cidadão a viver em Portugal – do Brasil, creio que o país ainda é – apesar de todas as dificuldades que lembrei já – uma espécie de abrigo e de refúgio para cidadãos de países vizinhos também pouco 'afortunados' (para não dizer mais…): vi, não há muito tempo, imagens televisivas documentando a 'invasão' de pessoas oriundas da Venezuela.

Pois bem, li, há também não muito tempo, o seguinte:


"Que tal aprender um novo idioma com um refugiado? Estão abertas as inscrições para os cursos regulares de inglês, francês e espanhol do 2º semestre no ***** *****. As aulas começam no dia 11 de agosto. Aqui, refugiados no Brasil são capacitados para darem aulas de idiomas em que são fluentes. (...) Muito mais do que o ensino de línguas, o objetivo dos cursos é permitir a imersão dos alunos na cultura dos professores e viabilizar a integração social e a geração de renda [rendimento] para os refugiados que encontram abrigo no Brasil".


Refugiados a ensinar?

É uma excelente ideia!

Creio, até, que para além desse 'mero' acto de ensinar ser dirigido (segundo percebi) para cidadãos 'normais' e 'comuns' poderia ser um exemplo para pessoal político de todo o mundo: como cheguei a ler nas páginas de um jornal português, o então (e actual) presidente norte-americano Donald Trump, no seu encontro com a então primeira-ministra britânica Theresa May, referiu que a imigração é "má" e "triste" para a Europa pelo facto de "alterar a sua cultura" (e por contribuir, disse, para o 'crescimento' da ameaça terrorista).

18/10/2019

A personalidade de um país


Ouvi há alguns meses o primeiro-ministro, num debate sobre "o estado da nação", dizer, numa sua intervenção, que os números não enganavam.

Achei, e acho, ser um pensamento acertadissimo.

O que engana – ou melhor, pode enganar – é a utilização (manipulação) dos números pelos seres humanos…

Tal é, julgo eu, facilmente constatado quando vemos as fichas técnicas (ou metodológicas) de alguns 'estudos' de opinião.

Ora, o que eu humildemente critico é o facto de se fazerem generalizações a partir de algumas – às vezes poucas – características essencialmente individuais.

Ou seja, "vê-se o todo a partir de uma parte".

Parte que às vezes, insisto, não é propriamente grande…

Refiro-me, pois, em particular, a 'estudos' sobre os tipos de personalidade de um país: um dos mais 'completos' foi publicado em 2005 por Robert McCrae (que se apoiou, por assim dizer, no trabalho de setenta e nove colaboradores de todo o mundo e em dados obtidos a partir de respostas de mais de doze mil estudantes universitários em cinquenta e uma "culturas").

O seu título?

"Personality profiles of cultures: aggregate personality traits".

Assim, a "pontuação" mais elevada para a Extroversão foi a registada pelos estudantes brasileiros, pelos suíços (de língua francesa) e pelos malteses enquanto a "pontuação" mais baixa para aquele 'critério' foi obtida pelos estudantes nigerianos, pelos marroquinos e pelos indonésios.

Já a "pontuação" obtida para a Abertura à experiência foi mais elevada junto dos estudantes suíços (de língua alemã), pelos dinamarqueses e pelos alemães.

A "pontuação" mais reduzida foi, por seu lado, obtida pelos estudantes chineses (de Hong Kong), pelos norte-irlandeses e pelos do Kuwait.

Recorde-se que este 'estudo' incidiu igualmente na Neurose, na Consciência e na Agradabilidade.

Na verdade, as supostas conclusões ensaiadas por estes chamados estudos psicológicos têm pouco (ou nada…) de científico.

Lembro, de facto, um texto que me parece ser precisamente um 'testemunho' exacto da credibilidade científica desses 'estudos'.

Escreveu o jornal Público há já alguns anos o seguinte: "Elena Ferrante, pseudónimo de uma das mais influentes escritoras da actualidade, que mantém a sua identidade desconhecida, vai escrever todas as semanas uma coluna para a edição do fim-de-semana do jornal britânico The Guardian".

Ora, é precisamente sobre um texto assinado por Elena Ferrante – "'Yes, I’m Italian – but I’m not loud, I don’t gesticulate and I’m not good with pizza'" – digitalmente publicado no início do ano 2018 no sítio do jornal The Guardian que quero agora 'debruçar-me'.

De facto, referiu Elena que "Amo o meu país mas não tenho qualquer espírito patriota nem orgulho nacional. E mais: praticamente não como pizza e como muito pouco spaghetti, não falo alto e não gesticulo, detesto todas as organizações mafiosas e não digo "Mamma mia!". Os 'traços' nacionais são meras simplificações que deveriam ser contestadas. Ser italiana, para mim, começa e acaba no facto de que me exprimo (na escrita e na fala) na língua italiana".

Concordo em absoluto com aquilo que Elena Ferrante escreveu embora tenha muitas dúvidas acerca do facto de que alguém se considere 'filho' de um determinado país apenas por se expressar na  língua oficial desse mesmo país.

A personalidade de cada pessoa nada tem a ver com o país onde nasce e os estereótipos nacionais tão em voga nalguns 'estudos' não passam disso mesmo, estereótipos.

Ora, a história demonstrou já imensas vezes o quão estereótipos e generalizações podem ser usados para esconder a realidade.

17/10/2019

O Brasil de Jorge Amado

Lembro-me de a economia do Brasil ter ‘ultrapassado’, há alguns anos, a do Reino Unido tornando-se, assim, a quinta (se não me engano…) maior do mundo.

Não sei se, entretanto, a economia do colosso sul-americano voltou a "perder terreno".

É bem possível que isso se tenha vindo a verificar dada a instabilidade política e social vivida no Brasil.

Mas, como tudo na vida, é importante relativizar.

Cito, por isso mesmo, uma frase outrora dita por aquele que considero ter sido um dos maiores ‘vultos’ da Língua Portuguesa: Jorge Amado.

"Eu sou muito otimista, muito. O Brasil é um país com uma força enorme. Nós somos um continente, meu amor. Nós não somos um paísinho, nós somos um continente, com um povo extraordinário".

16/10/2019

Outra vez Camões

Assume-se, frequentemente, que o poeta Luís Vaz de Camões escreveu parte das oito mil, oitocentas e dezasseis estrofes da ‘enorme’ epopeia "Os Lusíadas" em Macau – o que é, de resto, assinalado anualmente por membros da comunidade portuguesa que aí reside com uma romagem ao jardim e à "gruta de Camões".

Não sei se isso corresponde à verdade ou se é, apenas, um mito.

O que, de facto, sei é que existe em Constância (a antiga Punhete) uma estátua daquele que acho ter sido um dos mais importantes poetas portugueses que, até hoje, viveu (e um dos ‘símbolos’ da portugalidade, claro...) acompanhada de alguns dos seus escritos.


"Oh! Pomar venturoso!
De teu fermoso peso
Se mostra o monte ledo
E o caudaloso Zêzere te
estranha
Porque olhas com desprezo
Seu cristal puro e quedo

(Da canção XII)


Corre suave e brando
Com tuas claras águas
Saídas de meus olhos doce
Tejo

(Écloga II)


Ouvi soar nos vales algum
dia
E respondia o eco o nome
em vão
Num coração – Belisa!

(Écloga III)"


Frontispício da primeira edição de "Os Lusíadas" (de 1572).
  

15/10/2019

A Organização dos Estados Americanos

A Organização dos Estados Americanos é o mais antigo organismo regional de todo o mundo (recordo que foi fundado em 1948) agregando os trinta e cinco Estados independentes do continente americano (lembro: Antígua e Barbuda, Argentina, Bahamas, Barbados, Belize, Bolívia, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Dominica, El Salvador, Equador, Estados Unidos da América, Grenada, Guatemala, Guiana Francesa, Haiti, Honduras, Jamaica, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Saint Kitts and Nevis, Saint Lucia, Saint Vincent and Grenadines, Suriname, Trinidad and Tobago, Uruguai e Venezuela) e afirma-se como um dos principais – senão o principal – fórum governamental político, jurídico e social do Hemisfério Americano, por assim dizer.

Sempre que o caminho escolhido por alguns países não seja o do mais ‘simples’ e ‘directo’ unilateralismo, evidentemente...
Para além do mais, esta Organização concedeu já o estatuto de observador permanente a sessenta e nove Estados e à própria União Europeia.

14/10/2019

Estudar a escravatura

Uma das ideias-chave da entrevista que a historiadora marroquina Fatima Harrak concedeu ao jornal Público num dos derradeiros dias do passado mês de Setembro foi a de que deveria estudar-se mais a escravatura.

Ora, concordo, efectivamente, com a importância de se estudar e melhor tentar compreender o movimento esclavagista mundial até porque tais palavras foram 'produzidas' tendo como pano de fundo, por assim dizer, o núcleo museológico que, ao que tudo indica, será construído em Lisboa sobre os Descobrimentos que os portugueses – ou melhor, parte deles – fizeram em determinado período da História de Portugal.

De facto, o nome que irá ser atribuído a tal museu tem suscitado discussões mais ou menos 'acaloradas' – e, também, mais ou menos democráticas… – consoante 'onde' os interlocutores se situem: de um lado têm estado os que consideram que Portugal 'utilizou' os Descobrimentos não apenas para chegar a muitas terras e a povos até então desconhecidos para muitos mas também para 'descobrir' formas de explorar, física e espiritualmente, muitos dos seres humanos 'descobertos' – a escravatura –, e do outro lado têm estado aqueles para quem os 'esquemas' da escravatura postos em prática por esses portugueses 'descobridores' foi não mais do que um mero detalhe comum a muitos outros "povos descobridores" dessa época como o espanhol, o inglês, o holandês ou o francês.

Posto isto, enquanto que reconheço que Portugal foi, no contexto dos chamados descobrimentos, responsável por 'ampliar' – e não por criar – o comércio escravo como o transporte de milhões de pessoas de África para a América ou a vinda de milhares de africanos para serem explorados pelos seus senhores em Portugal, defendo que esse museu poderia ser designado por "Museu dos Descobrimentos portugueses".

Mas 'isto' não é mais do que história e um nome de um museu.

Tenho, assim, que relativizar…

O que, efectivamente, me preocupa muito mais é que em pleno século XXI se continuem a verificar situações que configuram escravatura: de acordo com um documento elaborado em conjunto com a Organização Internacional do Trabalho, a Walk Free Foundation revelou, através do "Global Slavery Index", de 2018, existirem então mais de 40 milhões de escravos em todo o mundo e, mais detalhadamente, 403 mil nos Estados Unidos da América ou 136 mil no Reino Unido, por exemplo...