27/01/2020

Holocaustos à direita e à esquerda


Assinalam-se no dia de hoje 75 anos da libertação do campo de concentração e extermínio de Auschwitz (o tal que tinha inscrita no portão de acesso a ‘divisa’ cínica "Arbeit Macht Frei" ["o trabalho liberta"].

Optou-se, por isso, há alguns anos, de o passar a recordar como o Dia Internacional da Memória do Holocausto.

Recorde-se que ao assassinato metódico de milhões de judeus (sobretudo judeus mas não só) europeus pelos adeptos do nacional-socialismo alemão optou por atribuir-se o nome de Holocausto – ou de Shoah.

De facto, este mecanismo de extermínio ‘serviu-se’, em grande medida, do caos provocado pela Segunda Guerra mundial o que, aliás, provaria, mais tarde, que tudo foi executado com extremo pormenor e calculismo: não foi, certamente, por acaso que o historiador britânico Nicholas Stargardt disse já que "desde 1942 que a Shoah era conhecida dos Alemães".

Isto é, da esmagadora maioria do povo germânico.

Efectivamente, uma das coisas que sempre me impressionou nesta barbárie tem a ver com a dicotomia executantes-executados: como é que pessoas que participavam, activa ou passivamente, nessas atrocidades conseguiam, depois, no seu íntimo, ir à igreja e dialogar com Deus, cuidar do seu jardim ou tomar parte em actos familiares e sociais.

Outra das coisas que me tem vindo a causar ‘impressão’ é a atitude de alguns judeus para com os seus vizinhos árabes na Palestina: se reconheço que o Holocausto foi sempre – e sempre será – uma espécie de salvo-conduto para reivindicações internacionais com repercussão interna, evidentemente – "Nós somos os herdeiros dos Judeus que sofreram o Holocausto e, por isso, temos todo o direito a ..." – também reconheço que nem sempre (quase nunca?) a máxima "não faças aos outros o mesmo que não gostarias que te fizessem" tem sido adoptada.

Gostaria, igualmente, de dedicar algumas linhas – poucas, infelizmente – a Holodomor, o quase desconhecido holocausto dos ucranianos que teve lugar há 88 anos.

Foi, assim, em 1932.

A Ucrânia integrava a União Soviética onde era Josef Stalin quem mais ordenava.

Ora, perante uma ordem de colectivização, muitos camponeses ucranianos recusaram integrar as respectivas cooperativas agrícolas (os chamados "kolkhozes") e entregar as suas colheitas.

O resultado?

O confisco da produção de muitos agricultores e, logo, a fome e a doença e milhões de mortos.

Nem só os nazis foram carrascos, portanto.

Numa época em que em muitos governos europeus pululam ideologias baseadas no ódio, na intolerância e na xenofobia parece-me ser premente não se esquecer isso.


"Holodomor", o holocausto dos ucranianos.



25/01/2020

Um dos mais quentes...

Segundo o sítio do Instituto Português do Mar e da Atmosfera: "De acordo com Organização Meteorológica Mundial o ano de 2019 foi o segundo ano mais quente considerando os registos históricos desde 1850, logo a seguir ao ano de 2016. A temperatura do ar média global anual para 2019 foi 1.1 °C acima da média, considerando o período 1850-1900, que representa as condições pré-industriais".

24/01/2020

Clenardo, a Flandres e Portugal

Nascido na Flandres em 1493, Nicolas Cleynaerts (ou Nicolau Clenardo, na sua versão latina) tornar-se-ia num humanista e num pedagogo.



Em suma, um homem do Renascimento.


Ora, foi precisamente nesta condição que foi escolhido para perceptor do Cardeal D. Henrique (tio-avô do rei D. Sebastião).


Mas foi também nesta condição que escreveu algumas missivas.


De facto, uma delas foi a "Carta a Látomo".




"Em Lisboa, a Rua Nova dos Mercadores constitui um quadro vivo da Lisboa manuelina, com os comerciantes de ouro de Sofala, (…) de sedas de Cochim, (…) do gengibre e da pimenta de Malaca, da canela de Ceilão, do marfim da Guiné, (…) das madeiras do Brasil (…). Especulavam nela os oportunistas do negócio de Castela, os mercadores genoveses, biscainhos, sevilhanos, ingleses, flamengos, árabes, que inundavam de produtos europeus o mercado lisboeta e procuravam nele as especiarias raras para derramar por esse mundo de Cristo. A Rua Nova dava a impressão não só de Lisboa, mas da opulência do País inteiro. Não há terra onde as coisas sejam tão caras. Se algures a agricultura foi tida em desprezo é em Portugal. Se há algum povo dado à preguiça sem ser o português, então não sei onde ele exista. Se uma grande quantidade de estrangeiros não exercessem cá as artes mecânicas, creio bem que mal teríamos sapateiros ou barbeiros".




Embora afastado da terra onde havia nascido, talvez Cleynaerts nunca se tenha conseguido também afastar das palavras (e do espírito) do lema que, anos depois, seria assumido pela Flandres: "Wat we zelf doen, doen we beter" ("Fazemos melhor aquilo que nós próprios fazemos", em português).

23/01/2020

A idosa China

2019 foi o ano em que a República Popular da China assinalou sete décadas da sua existência política.

Mas foi também o ano em que aí nasceram, segundo dados compilados pelo gabinete de estatística do país, pouco mais de quatorze milhões e meio de indivíduos – a taxa de nascimentos mais baixa desde a data da sua fundação, 1949 (e se se exceptuar o ano 1961).

Pode, pois, ser a ocasião perfeita para, desde logo, relembrar a espécie de conclusão esboçada pelo artigo "The far-reaching consequences of China’s greying population" (publicado em 2015 pela World review): a de que a China poderia tornar-se "velha" antes mesmo de se tornar "rica"...

22/01/2020

A ASEAN e o fim da terra

O lema da Associação de Países do Sudeste Asiático (ASEAN) é "One Vision, One Identity, One Community" (ou, em português, "Uma Visão, Uma Identidade, Uma Comunidade").

Esta associação conta actualmente com dez Estados-membros: Malásia, Indonésia, Filipinas, Laos, Brunei Darussalam, Vietname, Tailândia, Camboja, Singapura e Birmânia.

Ora, a Coreia do Sul, embora não integre o contingente dos países membros da ASEAN, é um importantíssimo parceiro desta associação, quer no que respeita ao ‘volume’ das trocas comerciais, quer no que se refere ao montante dos investimentos que tem vindo a realizar no seu seio, até porque é a quarta maior economia asiática.

Terá sido, efectivamente, um primeiro contacto caracterizado por "Uma Visão, Uma Identidade, Uma Comunidade" o que definiu o encontro do português João Mendes – o primeiro europeu a pisar solo coreano –, em 15 de Junho de 1504.

E também terá ouvido a palavra "Tomal": significando fim da terra, assentava como uma luva à Coreia (e igualmente a Portugal, claro).

21/01/2020

A Grécia e a metrópole


O território de Atenas ocupou toda a península da Ática.


Ou seja, cerca de 2650 quilómetros quadrados.


Tal dimensão tornou-a na maior das Cidades-Estados da Grécia.


Mas a sua grandeza não foi apenas territorial.


De facto, Atenas conseguiu tornar-se na mais importante das "pólis" gregas porque a sua organização política – e social – foi 'seguida' por muitos outros Estados: muitos dos próprios Atenienses teriam consciência da influência que a 'sua' Cidade exercia sobre outras Cidades do 'mundo' grego: Péricles, um dos 'grandes' políticos de Atenas, chegou a afirmar num dos seus discursos ser “a nossa Cidade a escola da Grécia”.


A Atenas dos séculos V e IV a.C. logrou também tornar-se no maior centro de Cultura (na Europa, claro).


Não terá sido, de resto, mera 'obra' do acaso que Keramikos, em Atenas precisamente, tenha sido já considerada a mais extensa necrópole da Antiguidade grega já que terá sido 'utilizada' entre 3000 anos a.C. e o sexto século depois do (suposto) nascimento de Jesus Cristo.


Ora, se é um facto que nunca a colonização grega chegou ao território que hoje se designa Portugal, o mesmo não se poderá dizer de algumas palavras.


Como a palavra metrópole, por exemplo.

Sendo o lema que a Grécia viria a escolher muitos séculos depois do apogeu de Atenas "Ελευθερία ή θάνατος" ("Liberdade ou Morte", em português), foi com toda a liberdade que esta palavra – formada, por sua vez, pelas palavras mêter=mãe + pólis=cidade – acompanhou Portugal em grande parte da sua História.




20/01/2020

Eça de Queiróz, os portugueses e Portugal

Na missiva que escreveu, a partir de Inglaterra (de Bristol, mais concretamente), a Fialho de Almeida em Agosto de 1888, observou José Maria Eça de Queiróz o seguinte:


"Assim diz V. que os meus personagens são copiados uns dos outros. Mas, querido amigo, uma obra que pretende ser a reprodução duma sociedade uniforme, nivelada, chata, sem relevo, e sem saliências (como a nossa incontestavelmente é) – como queria V., a menos que eu falseasse a pintura, que os meus tipos tivessem o destaque, a dissemelhança, a forte e crespa individualidade, a possante e destacante pessoalidade, que podem ter, e têm, os tipos duma vigorosa civilização como a de Paris ou de Londres? V. distingue os homens de Lisboa uns dos outros? V., nos rapazes do Chiado, acha outras diferenças que não sejam o nome e o feitio do nariz? Em Portugal há só um homem que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir: sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto – sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. E é o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos".