19/02/2020

Descubra as diferenças

Talvez não seja assim tão difícil qualificar a artista peruana Daniela Ortiz com uma das palavras que compõem o lema do seu país: "Firme y feliz por la Unión" ("Firme e feliz pela União", em português).

A palavra firme, claro.

Ora, a exposição "O ABC da Europa Racista" que esteve patente, já em 2019, na Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, em Almada, foi assim descrita por uma espécie de folheto explicativo:


"A obra de Daniela Ortiz (Perú, 1985) debruça-se sobre a continuada presença na estrutura da sociedade contemporânea (especialmente na europeia) de um sistema colonialista sobre as políticas racistas e de controlo migratório no espaço europeu.
Ortiz apresenta-se como uma voz radical que critica abertamente a dimensão histórica e contemporânea do racismo e do colonialismo, e que usa o espaço do museu como lugar para desvendar, tornar visível e condenar um sistema que perpetua estas duas realidades".

18/02/2020

O destruidor fiel

O lema do estado alemão da Baviera antes do termo da I Guerra Mundial era "In Treue fest" (ou, em português, "Firme na Lealdade").

Embora não tenha a (absoluta) certeza se era este ou não o lema na Alemanha na "segunda metade" do século XVI, o livro que o historiador Joel Harrington na Universidade de Vanderbilt (no estado norte-americano Tennessee) publicou há cerca de seis anos sobre a vida de um carrasco de profissão, Frantz Schmidt, oriundo desse estado germânico, não hesitou em classificá-lo de fiel: "The Faithful Executioner: Life and Death, Honor and Shame in the Turbulent Sixteenth Century" (livro não traduzido em português).

Ora, a exposição "Instrumentos Europeus de Tortura e Pena Capital – Desde a Idade Média até ao Século XIX" que o Palácio das Galveias, em Lisboa, acolheu no fim da década de 1990 permitiu aos visitantes perceberem melhor uma dimensão dessa firmeza e dessa lealdade e terá também permitido, sobretudo, colocarem uma só questão a si próprios: como é que o espírito humano pode inventar instrumentos para, fisicamente, torturar o Outro e, espiritualmente, destrui-lo inteiramente?

De facto, como escreveu o astrofísico canadiano Hubert Reeves no seu "Malicorne": "No pequeno Homo Sapiens tudo é excessivo. Nele, intimamente misturados, estão o sublime e o horrível. Há nele, em potência, Wolfgang Amadeus Mozart e Adolf Hitler".

15/02/2020

A educação

"Educação é aquilo que a maior parte das pessoas recebe, muitas transmitem e poucas possuem".



Karl Kraus (1874-1936), escritor austríaco

14/02/2020

Liberdade, justiça e a escravatura

O lema actual da República do Gana é "Freedom and Justice" ("Liberdade e Justiça", em português).

Ora, não foi em liberdade e, muito menos, com justiça que um par de seres humanos se uniu matrimonialmente em A-dos-Cunhados há já alguns séculos.

Leia-se, de facto, o respectivo assento que então foi registado na igreja local:


"Aos dezasete dias do mes de Maio de mil e setecentos e quarenta e dois annos nesta Igr.ª de Nossa S.ra da Lus do lugar Dos Cunhados Tr.º da villa de Torres Vedras [A-dos-Cunhados, localidade pertencente ao concelho de Torres Vedras, distrito de Lisboa]: Em minha prezença, e das testemunhas abaixo assignadas se cazarão por palavras de prezente in facie Ecclesia = Joseph dos Santos homen preto n.al da Costa da Mina filho de pais gentios baptizado nesta Freg.ª aonde se dezobrigou: e Maria dos Anjos molher preta n.al de Angola filha de pais gentios baptizada na mesma cid.e; e se dezobrigou nesta Igr.ª ambos escravos de xxx xxxx do Cazal da Serpigeira desta Freg.ª e m.os em caza dot.º seu S.or: os quais admitti a çelebrarem o dito sacram.to do matrimonio, por ordem, que fica em meu poder, do D.or xxx xxx xxxx providor dos cazamtos: guardando, em tudo o mais aforma do Sagrado Concilio Tridentino, e Constituiçois deste Arcebispado: testemunhas, que prezentes estavão xxx xxxx Senhor dos ditos cazados e xxxx xx xxxx filho de xxxx xx xxxxx ambos desta Freg.ª de que fis este assento que assignei dia, mês e era ut s.ª


O Cura xxxx xxxx
[e respectivas testemunhas]"


Na verdade, a Costa da Mina é hoje ‘casa’ de uma das mais antigas fortificações com origem europeia no continente africano já que foi construída pelos portugueses em 1482: como refere, de resto, a página da UNESCO, "a parte velha da cidade de Elmina é, provavelmente, o exacto ponto onde foi estabelecido o primeiro ponto de contacto entre Europeus e Africanos [ao Sul do deserto Saara]".

No entanto, rapidamente esse contacto enveredou pelo caminho da transacção comercial.

Em que os ‘objectos’ comprados e vendidos eram pessoas.

Assim, segundo algumas estimativas, entre dez e vinte e oito milhões de africanos foram transportados através do oceano Atlântico entre os séculos XV e XIX para a América (do Sul, Central e do Norte).

13/02/2020

O teatro das operações

Sendo que o lema dos bombeiros de todo o mundo é, na tradução em língua portuguesa, "Vida por vida", é certamente provável que algumas pessoas não percebam por que é que se convencionou chamar, em Portugal, teatro de operações a uma área que, não raras vezes, vive um conjunto de acontecimentos catastróficos para o património material existente e para as pessoas que, por qualquer razão, aí se encontram.

Ou seja, chama-se teatro – um lugar de vida – a uma zona onde pode morrer gente.

Ora, os antropólogos, por exemplo, estão no terreno sempre que se encontram a trabalhar fora de portas, por assim dizer.

12/02/2020

A Liga Hanseática

A Europa do Norte foi uma das regiões do continente que, entre os séculos XI e XIV, um maior dinamismo económico conheceram podendo destacar-se a Flandres (hoje, na Bélgica) e o Norte da Alemanha.

Ora, os mercadores alemães dominavam, pela via marítima, o comércio no mar do Norte e no mar Báltico: levavam vinho e sal de França e tecidos da Flandres e traziam, dos países do Norte e do Leste, trigo, peixe seco, peles e metais. E, ao ‘descerem’ os rios da Rússia, entraram em contacto com países do Oriente.

Assim, as cidades do Norte da Alemanha acabaram por formar, em meados do século XIV, uma associação para a defesa dos seus objectivos comerciais.

Eis a origem da Liga Hanseática – cujo lema foi "Navigare necesse est, vivere non necesse" (ou, em português, "Navegar é preciso mas viver não") – que chegou a agrupar mais de setenta cidades, nem todas alemãs.

Houve, no entanto, um momento em que a Liga reforçou a sua identidade germânica forçando, pois, a saída das cidades que o não eram.

Mas a Idade Moderna acabou por trazer – fruto dos chamados Descobrimentos por Portugal e Espanha – a deslocação do fulcro mercantil para novas áreas na América e na Ásia e uma vez que a Liga não foi capaz de se adaptar a essa nova realidade, acabou por deixar de navegar e, claro, de viver.

11/02/2020

A primeira Cruzada

O Papa Urbano II exortou, no Concílio de Clermont (realizado em 1095), todos os cristãos a juntarem-se à Primeira Cruzada com o objectivo de reconquistar a cidade de Jerusalém aos muçulmanos.

Ora, a Ordem do Santo Sepulcro, nascida no seio da fé católica, foi uma das primeiras a responder à chamada tendo adoptado o lema "Deus vult" ("Deus assim o quer", em português).

Mas, anos depois, foi também o objectivo de servir a vontade de Deus – bem como o desejo não menos ardente de recolher os respectivos despojos – que ‘guiou’ os Cruzados para a ‘libertação’ da cidade de Lisboa da presença muçulmana antes de se dirigirem para o Próximo Oriente.