28/02/2020

A união do sangue

Escreveu a professora Maria Cristina Cunha no seu "Estudos sobre a Ordem de Avis (séc. XII – XV)" o seguinte:


"As ordens militares nascidas na civilização ocidental medieval são, antes de mais, uma resposta encontrada pela Igreja e pela sociedade do século XII para o(s) problema(s) levantado(s) pela guerra contra o Infiel".


Mas não foi já na época medieval que foi fundada a Ordem de São Januário (nem o motivo foi a luta contra o ‘Infiel’): foi no século XVIII que esta ordem de cavalaria nasceu tendo como lema "In Sanguine Foedus" ("No Sangue, a União", em português). No Reino das Duas Sicílias, extinto pouco antes da formação do Reino da Itália, em 1861.

Ora, cerca de dois séculos depois da constituição da Ordem de São Januário, uma irmã de D. Maria da Glória – que viria a ser a rainha D. Maria II em Portugal –, a infanta D. Januária Maria, contraiu casamento com o filho do rei do Reino das Duas Sicílias.
 
 
 
post scriptum: aproveito para lembrar que Sicília era, então, parte do continente (e do Estado) italiano mas era também governada isoladamente. Ou seja, uma região – a Sicília – com duas identidades políticas: uma colectiva e outra individual, por assim dizer. Daí a designação "Reino das Duas Sicílias".

27/02/2020

A Legião Estrangeira

"Mercenários".

Uma simples palavra parece chegar para descrever quem integra a Legião Estrangeira de França, força militar criada na primeira metade do século XIX para defender os interesses do país no Hemisfério Sul (em África e na América do Sul, por exemplo).

Mas, mercenários ou não, certo é que existem portugueses nas suas fileiras – serão cerca de cem – entre os pouco mais de oito mil que integram a força.

Ao fazerem-no vincularam-se a uma espécie de código de honra próprio: o lema da Legião Estrangeira de França é "Legio patria nostra" ("A Legião é a nossa pátria").

26/02/2020

O Mar, Portugal e o Mundo

A última Exposição Internacional do século XX realizou-se em 1998 (de 22 de Maio a 30 de Setembro, recorde-se) na cidade de Lisboa: a Expo’98.

Ora, se, por um lado, foi através da realização da Expo’98 que Portugal procurou lembrar a importância histórica dos chamados Descobrimentos – o então presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, chegou mesmo a frisar que "Portugal fez do mar a via para se encontrar consigo, com os outros, com o Mundo" –, também foi através dela que, baseando-se no lema "Os Oceanos, um Património para o Futuro", queria projectar uma mensagem a todos aqueles que a visitassem – e foram cerca de dez milhões: a responsabilização de todos e de cada um na urgência da protecção de um património que ocupa cerca de 70% da superfície do planeta Terra.

24/02/2020

"A Minha Honra é a Lealdade"

Nunca Portugal teve, ao longo dos seus quase nove séculos de História, um só povo e um só líder embora tivesse conseguido formar – e manter – um império.

Ao contrário da Alemanha nacional-socialista: durante os seus doze anos de ‘vigência’ (de 1933 a 1945), o seu lema foi "Ein Volk, Ein Reich, Ein Führer" ("Um Povo, Um Império, Um Líder", em português).

Ora, em determinado momento da sua governação, a taxa de aprovação/satisfação pelos eleitores alemães chegou a ser extremamente elevada.

É claro que a melhoria da capacidade económica e da ‘desenvoltura’ social da generalidade da sociedade alemã influenciou grandemente uma vastíssima percentagem do povo germânico a aprovar o seu líder mas talvez tão (ou mesmo mais) importante do que a dita elevação económica e social da Alemanha tenha sido o facto de Adolf Hitler – e seus algozes – terem ‘dito’ a cada um desses alemães que pertencia a uma suposta raça superior.

Efectivamente, Hitler e o nacional-socialismo mais não fizeram do que dizer (porque talvez não existam grandes dúvidas de que o ‘sentimento’ de suposta superioridade étnica e racial já existia) aquilo que a maior parte dos alemães queria ouvir: que eram "grandes" e "importantes".

O que depois se veio a passar já todos (feliz e infelizmente) conhecemos.

De facto, foi esse mesmo discurso que foi cativando a força militar que começou por constituir a guarda pessoal de Adolf Hitler mas que se tornou num dos principais ‘braços’ do regime nacional-socialista e da sua brutalidade: a Schutzstaffeln (ou SS).

Que tinha como lema "Meine Ehre heißt Treue" ("A Minha Honra é a Lealdade", em português).

O seu dirigente máximo desde o início de 1929, o Reichsführer – SS Heinrich Himmler, empenhou-se em radicalizar a organização pelo que esta cometeu as maiores atrocidades a coberto da guerra (a II Guerra Mundial).

Na verdade, tal envolvimento poderá ser facilmente compreendido se se lerem as palavras de um discurso que Himmler pronunciou no dia 4 de Outubro de 1943 em Poznan, na Polónia, perante algumas centenas de oficiais da dita SS.

Através desse discurso procurou lembrar à sua audiência a lealdade que esperava no extermínio dos Judeus (o Holocausto) que estava a ser levado a efeito pelo regime alemão.

Assim, afirmou, por exemplo, o seguinte: "A maioria de vós sabe o que é estar junto a 100, a 500 ou mesmo a 1000 corpos. Ora, sabê-lo e ter conseguido permanecer decentes tornou-nos duros".

Precisamente, também o filósofo Claude Polin, no seu "O totalitarismo", reflectiu sobre esta questão da punição pela guerra: "Em todas as guerras existe um inimigo, mas que só o é condicionalmente, e a prova disso é que apenas se pretende que ele desista da luta. Se pretendermos tornar a luta em algo de absoluto, é preciso que o inimigo também o seja".

Ou seja, o Outro e quem será o Outro, já agora? – é, não raras vezes, "um inimigo que não sabe que o é, mas que continua a ser um inimigo sem o saber e sem querer, faça o que fizer".

Himmler, no entanto, é que parece não ter sido honrado, nem leal, quando, pressentindo o fim da guerra (e a derrota alemã), se apressou a tentar encetar negociações com os Aliados ‘ocidentais’ sem o conhecimento de Hitler.

Ao contrário do que se passou com o português Aristides de Sousa Mendes: o cônsul de Portugal em Bordéus optou por ser leal a si próprio pelo que, depois de ter salvo do Holocausto nazi milhares de pessoas, regressou a Portugal pagando com a aposentação compulsiva a sua insubordinação à neutralidade do Estado.

E ao contrário do cidadão português que foi morto a tiro na cidade de Paris em 1944 às mãos de soldados alemães…

22/02/2020

O Homem ou a vã ambição

"A inclinação mais natural, mais viva, e que mais fortes e profundas raízes tem lançado na natureza humana é o desejo ou apetite da glória".




António Vieira (1608-1697), padre e escritor português

21/02/2020

Paris e André de Gouveia

Saber ler e escrever era, na chamada Idade Média europeia, privilégio de poucos: o único grupo social com acesso à Cultura era o clero.

No entanto, a partir do século XII, e a pouco e pouco, as coisas foram mudando: a crescente complexificação da actividade social, económica e cultural das cidades implicava a necessidade de saber cada vez mais.

Assim surgiram as Universidades.

A primeira surgiu em Itália mas depressa se espalharam por praticamente todos os países da Europa.

A de Paris, por exemplo.

Que cresceu, naturalmente.

De facto, se a França é o país mais visitado do mundo, a Universidade de Paris acolhe hoje cerca de cento e vinte mil estudantes: não terá sido por mero acaso que o lema daquela tenha sido, até há não muitos anos, "Hic et Ubique Terrarum" (ou, em português, "Aqui e em Todo O Lado Na Terra").

Hoje, o lema já não é o mesmo mas o conceito é: "Hic et Ubique Mundi" ("Aqui e em Todo O Lado No Universo", em português).

Ora, foi de Portugal, precisamente, que, no século XVI, o então estudante André de Gouveia se dirigiu para Paris para aí prosseguir os seus estudos.

Para se tornar, anos depois, no reitor da Universidade de Paris.

Mas, cinco séculos passados, não é apenas o seu nome que a Casa de Portugal que se situa no "campus" da Cidade Universitária Internacional de Paris evoca – Casa de Portugal André de Gouveia.

É, também, o seu exemplo.

20/02/2020

A liberdade dos Açores

Actualmente, a Região Autónoma dos Açores é uma das sete regiões ultraperiféricas da União Europeia.
Ora, uma das razões por que uma região é considerada ultraperiférica tem a ver com a sua dependência económica de uma pequena quantidade de produtos.
A região – que se localiza a cerca de 1600 quilómetros do continente português** e tem como lema "Antes morrer livres que em paz sujeitos" –, livre e em paz, mas pobre, estará cada vez mais nas mãos do Turismo para que se possa desenvolver económica, social e culturalmente.



** E a cerca de 2454 quilómetros do continente americano (do Canadá).