"Não
basta ao homem desafiar os mares e ir descobrindo o mundo. As
certezas da Idade Média já não o satisfazem. Põe questões,
interroga-se a si próprio. E sente, de novo, a alegria de ser homem:
seguro da beleza do seu corpo e da força das suas capacidades. Na
Antiguidade Clássica procura modelos, inspiração e apoios. Com
essa antiga sabedoria renasce um homem novo que nada parece poder
deter. Os próprios valores religiosos tradicionais são objecto do
seu olhar crítico, do seu desejo de reforma".
Recordo
que são estas as exactas palavras que um manual escolar em
‘circulação’ no início da década de 1990 utilizou para
descrever o chamado Renascimento europeu que teve lugar nos
séculos XV e XVI.
Ora,
o lema "Ad fontes" (ou, em português, "Ir ao encontro
dos clássicos") era o que norteava o humanismo do Renascimento
europeu e Erasmo de Roterdão foi um dos seus maiores vultos.
No
entanto, este humanismo renascentista tinha um inimigo poderosíssimo:
uma das medidas tomadas pelo Concílio de Trento – que se iniciou
em 1545 mas que apenas terminou em 1563 – foi a publicação do
Índex.
Assim,
a circulação e a leitura de obras de muitos pensadores e homens
intelectualmente esclarecidos que pretendiam a erradicação da
intolerância e da ignorância foram, pura e simplesmente, proibidas.
Autores
como os franceses Voltaire e Rousseau viram títulos seus serem
incluídos no Índex bem como o próprio Erasmo – ser amigo do
português então considerado herege Damião de Góis terá
contribuído para essa censura.