O
embaixador Marcello Duarte Mathias referiu-se, numa entrevista que,
há já alguns anos, concedeu a
um jornalista do jornal Diário
de Notícias,
a um dos grandes romances de José Maria Eça de Queiroz: "Os
Maias".
Afirmou,
então, que bastava ler "Os Maias" para se perceber ‘o’
Portugal do século XIX podendo dispensar-se, assim, a consulta de
quadros estatísticos ou a leitura de obras escritas por economistas
ou por historiadores.
Mas
é, no entanto, outra obra sua – "As Farpas" –, escrita em
1871, que agora cito:
"Estamos
perdidos há muito tempo... O país perdeu a inteligência e a
consciência moral. Os costumes morais estão dissolvidos, as
consciências em debandada. Os carácteres corrompidos. A prática da
vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio
que não seja desmentido. Não há instituição que não seja
escarnecida. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se
progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na
miséria. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. O
Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado
como um inimigo. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as
consciências. Diz-que por toda parte que o País está perdido!".
***
Ora,
não quero deixar de citar igualmente o poeta Abílio de Guerra
Junqueiro.
Mais
especificamente, um excerto do poema "A Pátria" (escrito em
1896):
"Um
povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e
sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos
de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de
dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz
de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se
lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo,
enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite
da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma
nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma
burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não
descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem
carácter, havendo homens que, honrados na vida intima, descambam na
vida publica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga
e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao
roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a
indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente
inverosímeis no Limoeiro.
Um
poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de
quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela
abdicação unânime do país, e exercido ao acaso da herança, pelo
primeiro que sai dum ventre, como da roda duma lotaria.
A
justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de
fazer dela saca-rolhas; dois partidos sem ideias, sem planos, sem
convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico
e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um
ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amolgando
e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar".
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