05/03/2019

Combates medievais

O principado do Mónaco recebeu, em meados do passado mês de Fevereiro, o primeiro torneio europeu de luta medieval.

Trata-se, efectivamente, de um "desporto de combate" inspirado nas batalhas que tiveram lugar nos séculos XII e XIII em solo europeu.

Nascido na Rússia, este tipo de luta rapidamente ganhou adeptos e praticantes um pouco por todo o mundo - atraídos, também, certamente, pelo trabalho de equipa que exige: na Ucrânia, na Polónia, em França, na República Checa, na Alemanha, na Bélgica, no Reino Unido, em Espanha e em Portugal e até mesmo no Japão.

Não sendo um combate até à morte, quase tudo é permitido. Desde machados e armaduras passando por espadas e escudos (instrumentos 'vistoriados' por árbitros cuja missão é assegurar que as 'regras' são cumpridas).

Ora, confesso que não tenho qualquer vontade em participar nestes combates nem tão-pouco percebo quais as razões que estiveram na base para recrear a violência e a brutalidade das batalhas do tempo medieval e os fins a atingir.

Se, especulo apenas, um dos objectivos em mente tivesse sido como que avivar (ou despertar) o interesse por uma parte do passado da Europa, penso que, enfim, teria sido muitíssimo mais interessante 'explorar ' outras dimensões da vida medieval, por assim dizer, promovendo, por exemplo, concursos tendo por base a Literatura, a Música ou o Teatro.

Enfim, como que 'invocar' costumes da vivência quotidiana dos povos na Idade Média que, recordo, iam muito para além, por assim dizer, da mera violência dos combates e torneios...

04/03/2019

Morte e descida da temperatura

O jornal Quaternary Science Reviews publicou na passada sexta-feira (no dia 1 de Março,  portanto) um estudo - "Earth system impacts of the European arrival and Great Dying in the Americas after 1492" - afirmando que os 'conquistadores' europeus mataram tantos autóctones na América durante o século XVI que 'isso' pode ter acabado por arrefecer o planeta Terra durante a Pequena Idade do Gelo (de 1300 a 1870, sensivelmente).

Como?

Cerca de 60 milhões de pessoas habitavam o continente americano (no Norte, no Centro e no Sul) antes da chegada dos europeus, em 1492 - comparando, por exemplo, com as 70 a 80 milhões de almas que viviam na Europa nessa época (numa área que, na verdade, totalizava menos de metade da terra americana). Ora, no início do século XVII, desses 60 milhões já só restavam cerca de 6 milhões visto que noventa por cento desses habitantes iniciais havia perecido em consequência do extermínio (1), da escravatura e das doenças... Tendo em conta que uma parte substancial dessas pessoas se dedicava à agricultura e tendo também em consideração que com a morte dessas pessoas as tarefas agrícolas até então feitas morreram igualmente, a vegetação tornou a crescer livremente e a não permitir, claro, a concentração de gases capazes de gerar efeito de estufa (como o Co2,  por exemplo).

Não sugerindo este estudo que matar deliberadamente pessoas seja o método mais eficaz para arrefecer e, portanto, não deixar aumentar a temperatura do ar do planeta - e não o sugerindo eu tão-pouco... -, e numa época da vida da Terra marcada por acontecimentos de origem vulcânica, as conclusões deste estudo não deixam, em minha opinião, de fazer algum 'sentido'.




(1) - O religioso espanhol Bartolomeu de las Casas escreveu, de facto, (em "História das Índias") o seguinte: "Em quarenta anos morreram, por causa da tirania espanhola, mais de doze milhões de seres vivos, homens, mulheres e crianças. Há sobretudo duas formas que essas gentes que se dizem cristãs usaram para apagar da Terra essas infelizes nações: a primeira foram as guerras cruéis (...), a segunda foi uma opressão, uma servidão tão dura e tão horrível como nunca os próprios animais tinham suportado. A razão pela qual os Cristãos destruíram um tão grande número de seres humanos foi unicamente o desejo insaciável de ouro".

02/03/2019

"Ninguém se preocupa com o que é medíocre"

Contou o 'grande' filósofo e escritor francês Voltaire numa das suas obras o seguinte diálogo a propósito da proibição, por Luís XV, da Enciclopédia:


" - Ignoramos quase todas as coisas deste mundo. Não sei de que é feito o pó que tenho na face, nem como são fabricadas as meias de seda que tenho calçadas, disse Madame de Pompadour.

- É pena que Sua Majestade tenha proibido o nosso Dicionário Enciclopédico. Ele traz a resposta para tudo, respondeu o duque de la Vallière.

Então, o rei mandou trazer um exemplar da Enciclopédia.

- Ah! Que belo livro! Então vós proibistes esta obra com tantas informações úteis, para serdes o único sábio de todo o vosso reino, perguntou Madame de Pompadour.

- Mas a verdade é que eu nem sei por que razão me disseram tanto mal deste livro, respondeu Luís XV.

- Não vedes, Senhor, que é porque ele é bom. Ninguém se preocupa com o que é medíocre, disse o duque de Nivernais".


01/03/2019

Eu não!

Uma igreja na capital irlandesa, Dublin, foi 'palco', há poucos dias, de um triste acontecimento: a profanação de vários túmulos.

Se não foi, infelizmente, caso único na "civilizada" Europa, quem quer que tenha perpetrado tal crime não se limitou a invadir o espaço físico de repouso eterno de quem viveu há muitos séculos (como um combatente do tempo das Cruzadas ou uma freira, por exemplo) já que desmembrou alguns dos restos mortais aí acondicionados.

Talvez os "visados" possam, de algum modo, perdoar estas atitudes selvagens porque eu não.

28/02/2019

O valor do Património

Tive a oportunidade de poder assistir, há algum tempo, a um colóquio dedicado à ‘temática’ do Património.

Vi, então, um esquema que, agora, reproduzo já que me parece poder suscitar algumas reflexões:


“Património cultural
Valor consensual da sociedade ocidental
Consensualismo em torno do património cultural: a partir de 1840 na sociedade ocidental




Conceito de património cultural
Período
Autenticidade dos objectos Valor cultural Concepção da história e do Tempo
Sociedade ocidental
SIM
Idade contemporânea: Século XIX até aos nossos dias
SIM
SIM
SIM - linear
Sociedades tradicionais
NÃO
Sociedades pré-histórias;
Idade Média;
Renascimento (historicismo);
Ancien Régime (séculos XVI – XVIII);
Sociedades tradicionais
NÃO
NÃO
NÃO - cíclica

27/02/2019

Dois homens do mundo

 Ibn Battuta nasceu em Marrocos em Fevereiro de 1304.


António Vieira, ao invés, nasceu noutro local – em Portugal – e noutra data – em Fevereiro de 1608.


Assim, ambos nasceram com um 'intervalo' de pouco mais de três séculos.


O primeiro abandonou o lar natal ainda jovem para iniciar uma jornada que, durante cerca de trinta anos, o levou a visitar muitas terras (sobretudo de fé muçulmana) e, depois, a falar sobre essas vivências.


O outro teve um percurso de vida diferente: como se refere numa estátua erigida, em Lisboa, em sua memória, foi "jesuíta, pregador, sacerdote, político, diplomata, defensor dos índios e dos direitos humanos, lutador contra a Inquisição".

De facto, assinalaram-se já os quatrocentos e onze anos do nascimento do padre António Vieira.

Como refere um dos "Cadernos de Literatura":


"Em 1614, parte com os pais para o Brasil, fixando-se na Baía. Ingressa na Companhia de Jesus, em 1623. Em 1641, integra a embaixada de regozijo pela aclamação de D. João IV; granjeia grande prestígio como orador, em Lisboa. Nomeado para várias missões diplomáticas, convence as comunidades dos judeus residentes no estrangeiro a investirem capitais na criação da Companhia para o Comércio para o Brasil, a troco da isenção do confisco inquisitorial. Em 1652, regressa às missões do Maranhão. Prega o Sermão de Santo António, em 1654. Volta a Lisboa, onde prega o Sermão da Sexagésima, em 1655. Regressa ao Brasil, munido da lei que beneficiava a influência dos Jesuítas sobre os índios, mas uma revolta dos "moradores" do Maranhão contra os Jesuítas obriga-o a partir de novo para Lisboa em 1661. Alvo de várias perseguições durante o governo de Castelo-Melhor, é desterrado no Porto e, em 1667, é condenado pelo Tribunal do Santo Ofício ao internamento numa casa jesuíta, "privado para sempre de voz activa e passiva e do poder de pregar". No ano seguinte, na sequência da deposição de D. Afonso VI e da expulsão de Castelo-Melhor, é amnistiado e, em 1669, parte para Roma, onde obtém grande sucesso como orador. Aí combate o Tribunal do Santo Ofício, defende os cristãos-novos e luta a favor das missões no Brasil. Em 1674, a Cúria romana determina a suspensão dos autos-de-fé em Portugal, que dura até 1681. Por ordem de D. Pedro, o príncipe-regente, volta a Lisboa, em 1675. Sai o 1.º volume dos Sermões, em 1679. Tendo perdido parte das questões por que lutara em Roma, regressa definitivamente ao Brasil, em 1681. Na Baía, reescreve e organiza a edição completa dos seus sermões, servindo-se de confusos apontamentos que tinha. Morre com 89 anos, depois de rever o 13.º volume dos Sermões. Obras principais: Sermões, 15 vols. (1679-1748); História do Futuro (1718); Cartas, 3 vols. (1735 e 1746)".

Ora, seguramente que António Vieira conseguiu, com este ‘percurso’, honrar o lema dos católicos Jesuítas – "Ad Majorem Dei gloriam" ("Para Maior glória de Deus", em português).


No entanto, também o muçulmano terá conseguido glorificar o seu Deus.

Ora, creio que o mundo, tantos anos depois da presença terrestre destes dois homens, muito beneficiaria se muitos dos seus líderes (na política, na finança ou na diplomacia, por exemplo) tivessem uma fracção do seu espírito livre e humanista.

26/02/2019

O azulejo em Portugal

João Miguel dos Santos Simões, um dos "maiores" especialistas de sempre da azulejaria em Portugal declarou, em 1972, o seguinte:


"O azulejo faz parte do povo português. De facto, desde a pia baptismal da igreja - passando pela Escola e pela Cidade (e, no fundo, pela própria vida) -, os portugueses habituaram-se a ver o azulejo como parte integrante da 'paisagem' o que explica que o conheçam tão mal e, até, que o desprezem.".


Ora, parece-me que o facto de o azulejo fazer parte, desde há séculos, da existência de um povo (neste caso, o português) seria, pelo contrário, 'condição' suficiente para que o estimasse e protegesse...