Ibn Battuta nasceu em Marrocos
em Fevereiro de 1304.
António
Vieira, ao invés, nasceu noutro local – em Portugal – e noutra
data – em Fevereiro de 1608.
Assim,
ambos nasceram com um 'intervalo' de pouco mais de três séculos.
O
primeiro abandonou o lar natal ainda jovem para iniciar uma jornada
que, durante cerca de trinta anos, o levou a visitar muitas terras
(sobretudo de fé muçulmana) e, depois, a falar sobre essas
vivências.
O outro teve um percurso de vida
diferente: como se refere numa estátua erigida, em Lisboa, em sua
memória, foi "jesuíta, pregador, sacerdote, político, diplomata,
defensor dos índios e dos direitos humanos, lutador contra a
Inquisição".
De
facto, assinalaram-se já os quatrocentos e onze anos do nascimento
do padre António Vieira.
Como
refere um dos "Cadernos de Literatura":
"Em 1614, parte com os pais
para o Brasil, fixando-se na Baía. Ingressa na Companhia de Jesus,
em 1623. Em 1641, integra a embaixada de regozijo pela aclamação de
D. João IV; granjeia grande prestígio como orador, em Lisboa.
Nomeado para várias missões diplomáticas, convence as comunidades
dos judeus residentes no estrangeiro a investirem capitais na criação
da Companhia para o Comércio para o Brasil, a troco da isenção do
confisco inquisitorial. Em 1652, regressa às missões do Maranhão.
Prega o Sermão de Santo António, em 1654. Volta a Lisboa, onde
prega o Sermão da Sexagésima, em 1655. Regressa ao Brasil, munido
da lei que beneficiava a influência dos Jesuítas sobre os índios,
mas uma revolta dos "moradores" do Maranhão contra os Jesuítas
obriga-o a partir de novo para Lisboa em 1661. Alvo de várias
perseguições durante o governo de Castelo-Melhor, é desterrado no
Porto e, em 1667, é condenado pelo Tribunal do Santo Ofício ao
internamento numa casa jesuíta, "privado para sempre de voz activa
e passiva e do poder de pregar". No ano seguinte, na sequência da
deposição de D. Afonso VI e da expulsão de Castelo-Melhor, é
amnistiado e, em 1669, parte para Roma, onde obtém grande sucesso
como orador. Aí combate o Tribunal do Santo Ofício, defende os
cristãos-novos e luta a favor das missões no Brasil. Em 1674, a
Cúria romana determina a suspensão dos autos-de-fé em Portugal,
que dura até 1681. Por ordem de D. Pedro, o príncipe-regente, volta
a Lisboa, em 1675. Sai o 1.º volume dos Sermões, em 1679. Tendo
perdido parte das questões por que lutara em Roma, regressa
definitivamente ao Brasil, em 1681. Na Baía, reescreve e organiza a
edição completa dos seus sermões, servindo-se de confusos
apontamentos que tinha. Morre com 89 anos, depois de rever o 13.º
volume dos Sermões. Obras principais: Sermões, 15 vols.
(1679-1748); História do Futuro (1718); Cartas, 3 vols. (1735 e
1746)".
Ora,
seguramente que António Vieira conseguiu, com este ‘percurso’,
honrar o lema dos católicos Jesuítas – "Ad Majorem Dei gloriam"
("Para Maior glória de Deus", em português).
No
entanto, também o muçulmano terá conseguido glorificar o seu Deus.
Ora,
creio que o mundo, tantos anos depois da presença terrestre destes
dois homens, muito beneficiaria se muitos dos seus líderes (na
política, na finança ou na diplomacia, por exemplo) tivessem uma
fracção do seu espírito livre e humanista.
Sem comentários:
Enviar um comentário