08/03/2019

O Cabo Espichel

Muito antes de Portugal ter definidas politicamente as suas fronteiras continentais (e, claro, também muito antes de estar situado numa unidade territorial e administrativa – o concelho – com o nome Sesimbra), já os perigos e as virtudes do que se viria a designar de Cabo Espichel eram por muitos conhecidos.


De facto, o "Cabo Espichel foi um ponto de perigo das rotas marítimas da antiguidade, sendo assinalado em roteiros do século VI a.C e IV d.C como "Akra Barbarion" e "lugum Cempsicum". No século XVIII é construído um farol que facilitava a navegação junto ao cabo, e que ainda está em serviço. A localização estratégica do promontório do Espichel levou à construção do forte de Nossa Senhora do Cabo, terminado em 1672, mas que em meados do século XIX é abandonado, entrando em ruína".


Ora, à excepção da igreja de Nossa Senhora do Cabo (construída entre 1701 e 1707) e da Ermida da Memória (cuja data de construção remonta ao século XV), em ruínas (ou quase) encontram-se hoje as restantes edificações no Cabo Espichel: a Casa da Ópera (construída em 1770) e a Casa da Água (também erigida em 1770) bem como o Aqueduto.


Que imensa tristeza sinto.

07/03/2019

A mudança da hora

Foi o próprio Benjamin Franklin – um dos ‘pais’ fundadores dos Estados Unidos da América – quem, na segunda metade do século XVIII, propôs a mudança da hora.

Isto é, mexer-se nos ponteiros dos relógios duas vezes em cada ano: antes do Inverno e antes do Verão.

O objectivo era economizar energia (trazida, à época, por velas).

Se, no entanto, tal poupança era, em si mesma, completamente legitima, não foi senão muito recentemente que esta mudança horária conseguiu ser consensual pois, por exemplo, foi apenas nos últimos anos do século XX que tal medida passou a ser unânime na Europa.

Mas não por muito tempo já que o país do mundo com maior dimensão territorial, a Rússia, abandonou, em 2011, a mudança horária argumentando que a mesma, através da ausência de luz solar em determinados períodos do dia, havia, entretanto, sido a causadora de milhares de mortes anualmente (através de acidentes rodoviários, problemas de saúde e suicídios, sobretudo).

Quais as cenas dos próximos capítulos?

06/03/2019

"Se ele entrar, eu saio"

O futebol adquire, muitas vezes, a capacidade de alcançar outras dimensões que em muito transcendem a desportiva.

De facto, Mohamed Salah, jogador egípcio de uma das mais importantes equipas do principal escalão do campeonato inglês de futebol - a do Liverpool -, terá ameaçado abandonar o clube caso este viesse a assinar contrato com um jogador de nacionalidade israelita.

Efectivamente, creio ser claríssima a oposição política e ideológica (e étnica?) de um jogador árabe a um colega judeu.

Receio que o exemplo de intolerância mostrado por este 'caso' específico possa, também ele, "saltar" a fronteira desportiva e acicatar, ainda mais, um conflito que já dura há décadas (ou há centenas de anos?) e sem fim à vista.

05/03/2019

Combates medievais

O principado do Mónaco recebeu, em meados do passado mês de Fevereiro, o primeiro torneio europeu de luta medieval.

Trata-se, efectivamente, de um "desporto de combate" inspirado nas batalhas que tiveram lugar nos séculos XII e XIII em solo europeu.

Nascido na Rússia, este tipo de luta rapidamente ganhou adeptos e praticantes um pouco por todo o mundo - atraídos, também, certamente, pelo trabalho de equipa que exige: na Ucrânia, na Polónia, em França, na República Checa, na Alemanha, na Bélgica, no Reino Unido, em Espanha e em Portugal e até mesmo no Japão.

Não sendo um combate até à morte, quase tudo é permitido. Desde machados e armaduras passando por espadas e escudos (instrumentos 'vistoriados' por árbitros cuja missão é assegurar que as 'regras' são cumpridas).

Ora, confesso que não tenho qualquer vontade em participar nestes combates nem tão-pouco percebo quais as razões que estiveram na base para recrear a violência e a brutalidade das batalhas do tempo medieval e os fins a atingir.

Se, especulo apenas, um dos objectivos em mente tivesse sido como que avivar (ou despertar) o interesse por uma parte do passado da Europa, penso que, enfim, teria sido muitíssimo mais interessante 'explorar ' outras dimensões da vida medieval, por assim dizer, promovendo, por exemplo, concursos tendo por base a Literatura, a Música ou o Teatro.

Enfim, como que 'invocar' costumes da vivência quotidiana dos povos na Idade Média que, recordo, iam muito para além, por assim dizer, da mera violência dos combates e torneios...

04/03/2019

Morte e descida da temperatura

O jornal Quaternary Science Reviews publicou na passada sexta-feira (no dia 1 de Março,  portanto) um estudo - "Earth system impacts of the European arrival and Great Dying in the Americas after 1492" - afirmando que os 'conquistadores' europeus mataram tantos autóctones na América durante o século XVI que 'isso' pode ter acabado por arrefecer o planeta Terra durante a Pequena Idade do Gelo (de 1300 a 1870, sensivelmente).

Como?

Cerca de 60 milhões de pessoas habitavam o continente americano (no Norte, no Centro e no Sul) antes da chegada dos europeus, em 1492 - comparando, por exemplo, com as 70 a 80 milhões de almas que viviam na Europa nessa época (numa área que, na verdade, totalizava menos de metade da terra americana). Ora, no início do século XVII, desses 60 milhões já só restavam cerca de 6 milhões visto que noventa por cento desses habitantes iniciais havia perecido em consequência do extermínio (1), da escravatura e das doenças... Tendo em conta que uma parte substancial dessas pessoas se dedicava à agricultura e tendo também em consideração que com a morte dessas pessoas as tarefas agrícolas até então feitas morreram igualmente, a vegetação tornou a crescer livremente e a não permitir, claro, a concentração de gases capazes de gerar efeito de estufa (como o Co2,  por exemplo).

Não sugerindo este estudo que matar deliberadamente pessoas seja o método mais eficaz para arrefecer e, portanto, não deixar aumentar a temperatura do ar do planeta - e não o sugerindo eu tão-pouco... -, e numa época da vida da Terra marcada por acontecimentos de origem vulcânica, as conclusões deste estudo não deixam, em minha opinião, de fazer algum 'sentido'.




(1) - O religioso espanhol Bartolomeu de las Casas escreveu, de facto, (em "História das Índias") o seguinte: "Em quarenta anos morreram, por causa da tirania espanhola, mais de doze milhões de seres vivos, homens, mulheres e crianças. Há sobretudo duas formas que essas gentes que se dizem cristãs usaram para apagar da Terra essas infelizes nações: a primeira foram as guerras cruéis (...), a segunda foi uma opressão, uma servidão tão dura e tão horrível como nunca os próprios animais tinham suportado. A razão pela qual os Cristãos destruíram um tão grande número de seres humanos foi unicamente o desejo insaciável de ouro".

02/03/2019

"Ninguém se preocupa com o que é medíocre"

Contou o 'grande' filósofo e escritor francês Voltaire numa das suas obras o seguinte diálogo a propósito da proibição, por Luís XV, da Enciclopédia:


" - Ignoramos quase todas as coisas deste mundo. Não sei de que é feito o pó que tenho na face, nem como são fabricadas as meias de seda que tenho calçadas, disse Madame de Pompadour.

- É pena que Sua Majestade tenha proibido o nosso Dicionário Enciclopédico. Ele traz a resposta para tudo, respondeu o duque de la Vallière.

Então, o rei mandou trazer um exemplar da Enciclopédia.

- Ah! Que belo livro! Então vós proibistes esta obra com tantas informações úteis, para serdes o único sábio de todo o vosso reino, perguntou Madame de Pompadour.

- Mas a verdade é que eu nem sei por que razão me disseram tanto mal deste livro, respondeu Luís XV.

- Não vedes, Senhor, que é porque ele é bom. Ninguém se preocupa com o que é medíocre, disse o duque de Nivernais".


01/03/2019

Eu não!

Uma igreja na capital irlandesa, Dublin, foi 'palco', há poucos dias, de um triste acontecimento: a profanação de vários túmulos.

Se não foi, infelizmente, caso único na "civilizada" Europa, quem quer que tenha perpetrado tal crime não se limitou a invadir o espaço físico de repouso eterno de quem viveu há muitos séculos (como um combatente do tempo das Cruzadas ou uma freira, por exemplo) já que desmembrou alguns dos restos mortais aí acondicionados.

Talvez os "visados" possam, de algum modo, perdoar estas atitudes selvagens porque eu não.