Ao
saber, há poucos dias, que as autoridades portuguesas e as
espanholas haviam apresentado o programa para celebrar os 500 anos da
primeira circum-navegação ao planeta Terra (de que fazia parte uma
viagem idêntica feita pelos navios-escola Sagres, português,
e Elcano, espanhol) quase que se poderia não lembrar a
polémica desencadeada em torno da viagem de Fernão de Magalhães.
Polémica
porque as autoridades espanholas decidiram ignorar o contributo do
navegador português na realização de tal empreendimento e, pelo
contrário, enaltecer e “aumentar” a participação de um
navegador espanhol: creio, de facto, que foi uma espécie de
nacionalismo (xenófobo,
claro) que levou a que as autoridades espanholas tenham
decidido subvalorizar o papel de Magalhães na idealização, na
preparação e na realização – em parte – da primeira
circum-navegação feita ao globo terrestre – que, recordo,
decorreu de 1519 a 1522 – preferindo “destacar” o papel do
navegador espanhol Juan Sebastián Elcano…
Porque,
na verdade, as palavras que melhor descrevem, em minha opinião, o
contexto político, económico e cultural que envolveu a preparação
desta viagem foram escritas pelo historiador português José Manuel
Garcia: “A economia e a política espanholas proporcionaram a
viagem mas com ciência portuguesa”.
Ou
seja, Magalhães, desgostoso com o monarca português da época, D.
Manuel I, propôs à Coroa espanhola de Carlos I efectuar tal viagem.
Este aceitou e deu ao navegador português todo o apoio logístico e
económico necessário. A morte do português, ocorrida durante a
viagem, permitiu ao navegador espanhol Elcano completá-la.
Mas
se repudio, de facto, as atitudes espanholas, também não
subscrevo algumas posições defendidas por portugueses: por exemplo,
o professor Joaquim Veríssimo Serrão escreveu, na sua “História
de Portugal” (volume III…) que “Mas a viagem de Magalhães
acabou por oferecer à Espanha um triunfo histórico que só a
Portugal devia em justiça ter cabido.”.
Concluo
declarando que fico, enfim, satisfeito por uma parte da História do
mundo não ter sido, como alguns (muitos?) desejavam, revista nem
alterada e só espero, sinceramente, que tais tentativas de o fazer
não venham a ‘beliscar’ a candidatura à UNESCO da Rota de
Magalhães.