Costuma dizer-se que algumas actividades são tão antigas quanto o Homem.
Ora, a espionagem é uma delas.
É claro que também ela tem, como o Homem, vindo a tornar-se mais complexa nas suas características exteriores embora o 'intuito' tenha sido sempre o mesmo: obter informações de forma mais ou menos legal.
Se, durante muito tempo, foi essencial recorrer-se a pessoas para espiar outras pessoas e organizações, uma das 'tendências ' que se tem vindo a verificar é uma "tecnologificação" da espionagem acompanhando, naturalmente, a dependência, crescente, da Electrónica nas várias dimensões da existência humana (na Comunicação, por exemplo).
Recordo, de facto, o sistema "ECHELON".
Implementado pelos governos dos Estados Unidos da América, do Canadá, do Reino Unido, da Austrália e da Nova Zelândia no início da década de 1970 para monitorizar as manobras militares e os contactos diplomáticos da então União Soviética (e seus aliados), o sistema ECHELON foi-se tornando, sobretudo depois do fim desta, num meio para alcançar o controlo massivo das comunicações desde logo privadas registadas em todo o mundo.
Post scriptum: foi revelado há não muitos anos que as GAFA - as letras iniciais das empresas Google (a mesma que 'acolhe' o domínio blogspot...), Apple, Facebook e Amazon - estavam ao serviço do governo norte-americano no sentido de espiar todas as comunicações electrónicas feitas no planeta. Pergunto, de resto, o seguinte: se se tomar tudo isto em consideração não se poderão qualificar como hipócritas as acusações de que a empresa chinesa de telecomunicações Huawei pretende instalar uma espécie de rede de espionagem electrónica?
06/05/2019
Contributos para uma história da espionagem
04/05/2019
Shakespeare e Saramago
O pai daquele que viria a
tornar-se num dos mais populares poetas ingleses – William
Shakespeare – obteve, no final do século XVI, autorização para
usar um brasão.
Tal
significava, desde logo, uma ascensão social: passava-se a ser uma
família nobre.
Assim,
era-se autorizado a exibir o brasão à entrada da casa onde se vivia
e a gravá-lo na respectiva mobília.
Ora,
o lema da família Shakespeare foi "Non Sans Droit" ("Não Sem
Direito", em português).
William
Shakespeare nasceu em Abril de 1564 e faleceu em Abril de 1616 e
todos os anos a pequena cidade britânica de Stratford-upon-Avon
recebe não apenas o Festival Literário mas também milhões de
turistas que querem calcorrear as ruas e os locais que um dos mais
famosos (se não mesmo o mais famoso...) escritores de língua
inglesa terá percorrido.
Já
em Portugal, por exemplo, concluiu-se já que "Mafra continua sem
atrair turismo literário por manter fora da visita ao palácio e à
vila a abordagem a José Saramago e à sua obra, 20 anos depois da
atribuição do Nobel da Literatura".
03/05/2019
"Os portugueses vistos..."
Ainda
ontem aqui citei duas personalidades que, por razões certamente
diferentes e separadas por alguns anos de distância, confluíram no
‘diagnóstico’: a ‘imagem’ de Portugal era, então, muito
‘pobre’ e difusa na Ásia.
Mas
seria muitíssimo interessante para mim perceber, hoje, em 2019, que
estereótipos e generalizações existem
sobre os portugueses por esse mundo fora.
Lembro,
de qualquer modo – e apesar de ser evidente que
as ‘visões’ a seguir
transcritas estavam, como não poderia, talvez, deixar de ser , imbuídas de um conjunto de estereótipos e generalizações criados
e ampliados pelo facto de aqueles portugueses serem dominadores e
conquistadores – um
excerto de um compêndio
escolar de História que
utilizei quando era estudante do ensino secundário:
“Os
Portugueses vistos…
...pelos
Africanos
Um
dia sobre o mar surgiu um grande barco. Tinha asas brancas e
brilhantes como facas ao sol. Homens brancos saíram da água dizendo
palavras que ninguém compreendia. Os nossos antepassados tomaram
medo e pensaram que eram «vumbi», almas do outro mundo. Conseguiram
fazê-los regressar ao mar disparando nuvens de flechas. Mas os
«vumbi» começaram a cuspir fogo com um barulho de trovão…
Tradução
oral africana, in F. Braudel, Civilização Material…, III.
...pelos
Chineses
Pode
dizer-se que o objectivo primeiro da vinda dos Fu-lang-chi [os
Portugueses] para a China foi o comércio (…).
As
gentes Fu-lang-chi são altas e têm grandes narizes. Os olhos são
como os do gato e a forma da boca como a da águia. O pêlo
cresce-lhes até nas costas das mãos e as suas barbas são
vermelhas. Amam o comércio e, apoiados no seu poder militar, têm o
hábito de invadir e oprimir os países mais pequenos. Vão a
qualquer sítio onde haja lucro (…) Usam roupas limpas e
bonitas...Sempre que surge uma disputa, apontam para o céu e juram
dizer a verdade.
História
dos Ming (adaptado).
...e
pelos Japoneses
Estes
homens [os Portugueses] são comerciantes (…). Bebem em copo sem o
oferecerem aos outros. Comem com os dedos (1) e não com pauzinhos
como nós (…). São gente que passa a vida viajando de aqui para
além, sem morada certa, e trocam os produtos que possuem pelos que
não têm, mas no fundo não são má gente.
Crónica
Teppo-Ki (adaptado).
(1)
No século XVI, os Europeus ainda só raramente usavam o garfo.”.
02/05/2019
Uma nova era
O
Japão iniciou ontem uma nova 'etapa' da sua história com a era
Reiwa do centésimo vigésimo
sexto (126) imperador do país, Naruhito.
Espero,
sinceramente, que esta nova era no País do Sol Nascente traga
também, no que a Portugal diz respeito, um novo impulso às relações
culturais até pelo facto do próprio Naruhito ser historiador .
Lembro,
de facto, algumas linhas que o escritor e investigador Joaquim
Magalhães de Castro - creio que 'baseado', precisamente, no Oriente - escreveu no livro "Oriente Distante" (publicado em 2012):
"Quatrocentos e cinquenta anos após a chegada ao Japão da
nossa Nau do Trato, o karafune (barco negro), o que é que se
sabia dos usos e costumes desse povo à beira-mar esquecido que, um
dia, lhes trouxe o teppu, vulgo, espingarda, que, segundo
alguns historiadores, teria contribuído decisivamente para o
estabelecimento do Japão como estado moderno? Nada. Ou quase nada.
Se fizéssemos a pergunta a um japonês comum, a resposta era um
inevitável castera. Ou seja, castela, o abastardamento
do pão-de-ló aqui introduzido pelos marinheiros quinhentistas, e
que depressa se transformaria no doce favorito dos japoneses. Para
além disso, talvez os nomes Rosa Mota, Amália Rodrigues ou de
qualquer ocasional jogador de futebol acendessem uma luzinha na mente
dos cidadãos mais inclinados para o que chegava de fora desse país
asiático, que, embora se fartasse de construir pontes de cultura com
o resto do mundo, permanecia teimosamente uma ilha, acima de tudo. E
pronto. Arquivados ficariam no esquecimento séculos de contactos
entre os namban jin e os autóctones das ilhas do Sol
Nascente.".
Post
scriptum: D. Duarte Pio, pretendente ao trono português – citado
pelo jornal Diário de Notícias
no segundo dia de Dezembro de 1986 –, revelou, na cerimónia
comemorativa do Dia da Restauração da Independência que havia tido
lugar no dia anterior numa das salas do lisboeta Castelo de São
Jorge que, no decurso da sua recente visita ao Extremo Oriente,
havia sentido existirem ainda, para com Portugal, sentimentos de
prestígio e reconhecimento na região apesar da "actual
quase ausência de expressão cultural e económica portuguesa nessas
paragens".
30/04/2019
O 'peso' da História e o dos 'heróis'
Um
artigo de opinião com o título "Hong Kong, like India,
needs to remember the truth about british colonialism" que
a edição "online" do jornal South China Morning
Post publicou há alguns anos afirmou, por exemplo, existirem "em
Moscovo, dois memoriais, construídos pelo Estado, em honra
dos milhões de vítimas de Stalin, incluindo um "museu do
Gulag". No entanto, em Washington como em Londres, não existem
quaisquer monumentos dedicados aos horrores da escravatura e às
crueldades do colonialismo.".
Ora, penso que lembrar o conteúdo deste artigo de opinião é duplamente oportuno.
Por isto:
a)
o domínio político da Índia pelo Reino Unido durou de 1757 até
1947. Ora, em 13 de Abril de 1919 – e numa altura em que Winston
Churchill ocupava o cargo de secretário de Estado da guerra –, um
chefe militar britânico ordenou aos militares que comandava que
disparassem sobre uma multidão que se encontrava reunida
pacificamente assassinando, desse modo, centenas de pessoas. No
entanto, tal chefe militar acabou mesmo por receber, anos depois,
honras de Estado no seu funeral ‘apagando-se’ assim as suas
responsabilidades - e as da própria potência colonizadora e seus
agentes políticos - naquele que é ainda hoje lembrado como o
"massacre de Amritsar";
b)
E já em 1943, em plena II Guerra Mundial, o estado de Bengala viu
morrer cerca de três milhões de pessoas. Assassinadas pois, já que
morreram de fome quando, segundo um estudo publicado no jornal
Geophysical Research Letters em Fevereiro passado, a
comida disponível na Índia foi 'exportada' para a metrópole
colonizadora para auxiliar nos esforços de combate à tirania do
Eixo... Ora, que ´titulo’ se atribui a alguém que mata pessoas?
Assassino e,
eventualmente, genocida, certo? (lembro também
que Winston Churchill foi o primeiro-ministro do Reino Unido entre
1940 e 1945).
Recordo,
apenas, que nunca as autoridades britânicas pediram formalmente
desculpa pelo sucedido em 1919 (e suponho que também nunca o tenham
feito em relação ao genocídio de 1943).
Post scriptum: afirmo também, uma vez mais, a necessidade de que em Portugal, para honrar uma dimensão negativa da sua História - e honrar igualmente a memória dos muitos milhões de seres humanos que colonizou e escravizou -, embora de forma muito tardia, claro, se edifiquem núcleos museológicos e educativos e que, sobretudo, tal se 'fale' seriamente na Escola.
29/04/2019
Macau e o desprezo de Portugal
Ainda
não há muito tempo me referi ao facto de um determinado manual
escolar actualmente "em vigor" em Portugal não ser
cientificamente rigoroso no que à Inquisição se referia.
Não
querendo, efectivamente, generalizar essa ‘insuficiência’ aos
manuais escolares ‘dedicados’ à História ou sequer aos manuais
escolares de apoio a outras disciplinas, pretendo invocar o que
parece ter sido um perfeito exemplo dessa ‘insuficiência’ que
‘recebi’, enquanto estudante do então ensino preparatório
(no 6.º ano de escolaridade, se não estou em erro), em relação a
Macau.
Ora,
o manual escolar que me serviu de apoio no início da década de 1990
na disciplina de História ‘forneceu’ um mapa em que se indicavam
os principais locais de fixação e de comércio dos portu-
![]() | |
| Veja-se, por exemplo, a localização geográfica de Macau... |
-gueses na
costa oriental africana e no Oriente (na Ásia, pois) à data da morte do rei D.
Manuel I, em 1521. Penso, até, que a falta de rigor com que
assinalou a localização geográfica de Macau poderá ter
contribuído para a crítica que, em 2004, o então subdirector dos
Serviços de Turismo daquele território chinês teceu: Portugal
nunca teve a exacta noção do que era Macau.
Creio,
de resto, que só este desconhecimento podia – e pode – explicar
o facto de em Portugal alguns invocarem palavras como compreensão
e entendimento para descreverem a relação secular entre
portugueses e chineses em Macau: a verdade é que, em quase cinco
séculos de presença portuguesa em Macau, portugueses – e
chineses, claro – raramente se ‘cruzaram’ com os modos de ser e
estar do Outro uma vez que, salvo raríssimas excepções, nem
sequer tinham aprendido a cumprimentar-se nas suas línguas
‘maternas’.
27/04/2019
O latim
Livros
vendidos em Portugal: se em 2009 foram cerca de quinze milhões, em
2018 foram menos de doze milhões.
Ora,
não é nem o exacto momento nem o ‘fórum’ mais adequado para se
poderem ensaiar possíveis teorias explicativas dessa redução.
Receio,
no entanto, que também a recém-chegada às livrarias "Nova
Gramática do Latim" – de Frederico Lourenço – venha a sofrer
esta conjuntura negativa.
Será,
neste caso, uma desolação visto que o referido trabalho (levado a
cabo por um autor que, recordo, foi o responsável por uma "nova
tradução da Bíblia, na sua forma mais completa - a partir da
Bíblia Grega, ou seja, contendo o Novo Testamento e todos os livros
do Antigo Testamento". Ou
seja, "a Bíblia mais
completa que jamais existiu em português")
é a primeira gramática de
latim publicada em Portugal desde 1974 e visto ser o
latim o
‘progenitor’ do português
que é, nem mais nem menos, a terceira língua europeia mais falada
no mundo (com mais de duzentos milhões de falantes).
Um
livro que não hesito, desde já, em qualificar como fascinante
e que, espero, não deixarei de folhear...
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