30/05/2019

Joana d'Arc e Antónia Rodrigues

Com cerca de dezoito anos de idade, Joana d’Arc foi executada em 30 de Maio de 1431 em Rouen (na região francesa da Normandia).

A vida – e a morte – de Joana não podem, na verdade, ser ‘separadas’ do contexto geopolítico da época: combatente, pela França, no sentido de expulsar os soldados ingleses na Guerra dos Cem Anos, foi presa e, depois, sentenciada na base de inúmeras acusações convenientemente construídas pela Igreja Católica (através, por exemplo, do próprio bispo de Beauvais).

Ora, a sentença que a condenou à morrer na fogueira acabou por ser, mais de vinte anos depois da sua morte, anulada pelo representante do Estado francês – Carlos VII – com o apoio da referida Igreja Católica e mesmo canonizada em 1920 (ou seja, por quem quase quinhentos anos antes a havia condenado).

E foi também o rei Carlos VII quem – cerca do ano 1429 – atribuiu o brasão à família dessa jovem.

E o respectivo lema: "Consilio firmatei Dei" (ou, em português, "Iremos permanecer Fiéis").

Mas quem também permaneceu fiel – sobretudo a si mesma – foi uma outra figura que, noutra latitude, teve igualmente um outro destino apesar de, claro, estar igualmente sujeita ao ‘jogo’ geopolítico (e religioso).

Efectivamente, Antónia Rodrigues (que terá nascido por volta de 1580) decidiu, em certo momento da sua vida, disfarçar-se de homem e, assim, embarcar com militares portugueses para o Norte de África para combater os então designados infiéis (muçulmanos). Depois de revelada a sua verdadeira identidade – feminina –, foi recompensada por Filipe II (III em Espanha) com uma tença por actos heróicos a favor de Portugal.

Assim, se, hoje, talvez não seja injusto recordar que Joana d’Arc representa, enfim, a resistência e a valentia francesas, também não será injusto desejar que Antónia Rodrigues pudesse ser lembrada como um símbolo da luta feminista quando ainda se não falava de feminismo.





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A única imagem que existe da guerreira francesa do século XV é um desenho da autoria de um funcionário do Supremo Tribunal de Paris com data de Maio de 1429.

29/05/2019

Rússia, um gigante na Eurásia

Assinala-se hoje o 5.º aniversário da constituição da União Económica Euro-Asiática.

Efectivamente, esta organização conta, cinco anos passados desde a sua fundação, com precisamente cinco Estados-membros: Rússia, Arménia, Bielorrússia, Cazaquistão e Quirguistão.

Todos países integrantes da então União Soviética.

A Rússia, principal ‘herdeira’ desta, continua a ser, actualmente, o país com a maior dimensão territorial do mundo – com mais de dezassete milhões de quilómetros quadrados (mais de cento e oitenta vezes maior do que o território português se se não considerar a extensão da sua plataforma continental…): por exemplo, a costa russa banhada pelo Ártico* estende-se por cerca de vinte e quatro mil quilómetros desde Murmansk (perto da Noruega) até Petropavlovsk-Kamchatsky (perto do Japão).

De facto, o presidente do conselho de supervisão do Instituto Demográfico, Migrações e Desenvolvimento Regional da Rússia (então Yury Krupnov) veio também propor, entretanto, a adopção de uma série de medidas no sentido de ‘aproximar’ o seu país do que muitos têm vindo a apelidar há anos de "verdadeiro centro geopolítico do mundo" – o Extremo Oriente: propunha, desde logo, a mudança territorial da capital russa – Moscovo – para uma localização mais ‘consentânea’ com o referido centro geopolítico. Ou seja, (muito) mais para Leste do que aquela de hoje**.

Se, na verdade, a Rússia é o ‘maior’ país do mundo, "congrega" não mais do que cerca de cento e quarenta e dois milhões de habitantes sendo que, de entre estes, mais ou menos vinte e oito milhões (vinte por cento do total) vivem em Moscovo e nas áreas circundantes…

Ora, mesmo que esta e outras mudanças não venham a ter lugar, penso ser necessário nunca perder de vista a noção de equilíbrio entre as ‘vertentes’ geopolítica e económica da União Económica Euro-Asiática e o que o presidente russo Vladimir Putin enunciou no discurso que fez na última reunião do "Projecto Uma Faixa, Um Caminho" que teve lugar na capital chinesa entre os dias 25 e 27 de Abril último: "a preservação da cultura e da identidade espiritual" das nações envolvidas.





* Cerca de um quinto do território continental da Rússia ‘integra’ a região ártica. Ora, um estudo divulgado pelo gabinete geológico norte-americano em 2008 estimou que o Ártico albergava cerca de 13% das reservas mundiais de petróleo e cerca de 30% das reservas mundiais de gás natural (para além de ouro, de urânio, de diamantes e de outros metais e elementos preciosos e raros e de peixe). Não é certamente por acaso que a Rússia tenha posto recentemente ao serviço da sua frota o terceiro navio quebra-gelo - o Ural - nem que detenha cerca de 96% de todos os recursos naturais de que o seu ‘tecido’ industrial e humano necessita. E também não me custaria nada acreditar que, sendo o ‘maior’ país do mundo, a Rússia reunisse alguns dos mais de cento e dezassete milhões de lagos que ‘polvilham’ a superfície do planeta Terra (e que cobrem, lembro, cerca de quatro por cento dos ‘terrenos úteis’)...

**  O czar Pedro, o Grande tinha já estabelecido a cidade 'ocidental' de São Petersburgo como a nova capital da Rússia em Maio de 1703.




***




Disputa-se hoje o jogo final da edição 2018/2019 da Liga Europa.

Sem um dos jogadores ‘fundamentais’ para uma das equipas envolvidas: Henrikh Mkhitaryan (pelo Arsenal).

O jogador, nascido na Arménia, recusa-se a participar no referido encontro uma vez que este se ‘desenrola’ no Azerbaijão, país com o qual a Arménia tem um diferendo (que já causou milhares de mortos) a propósito da região de Nagorno-Karabakh que, recordo, "foi atribuída pela URSS ao Azerbaijão mas os habitantes, pouco mais de 130 mil, não abdicam da sua identidade arménia, posta em causa quando uma declaração unilateral, embora sem reconhecimento internacional, transformou o enclave num estado independente".

Ora, tudo isto me leva a concluir que também esta situação mostra exemplarmente como um evento desportivo consegue alcançar uma dimensão que em muito transcende a mera reunião para competição de resultados e classificações.

28/05/2019

De perpétua memória?

Diz um dicionário da História de Portugal o seguinte a propósito do navegador João Rodrigues Cabrilho: 

"Dos poucos dados biográficos que foi possível apurar sobre João Rodrigues Cabrilho, antes da viagem marítima que lhe perpetuaria a memória, apenas se sabe que era de nacionalidade portuguesa".

Ora, apesar de ter participado "na conquista e pacificação da Guatemala" e comandado a armada responsável por efectuar a "primeira viagem de exploração da costa da Califórnia", tenho dúvidas que esta lhe tenha, efectivamente, perpetuado a memória pois eu, pelo menos, nunca dele tinha ‘ouvido’ falar até me deparar com uma imponente estátua que existe em Montalegre.

De facto, tal estátua refere que:


"Navegador do Séc. XVI
que ao serviço dos Reis de Espanha
descobriu a costa da Califórnia
Natural de Lapela – Cabril – Montalegre
e figura notável da História do Mundo"


Novamente admito que até ler esta indicação não sabia que tinha vivido um "João Rodrigues Cabrilho".

Mas seria o único português a ignorá-lo?

27/05/2019

O Duque de Palmela

O Marquês de La Fayette, um dos heróis da Revolução Americana, morreu em Maio de 1834.

Foi um ‘campeão’ da Liberdade e ainda hoje a sua figura e atitude é respeitada por causa disso mesmo.

Ora, foi precisamente em Maio mas do ano 1781 que nasceu, em Itália, Pedro de Sousa Holstein. Veio a tornar-se no primeiro Duque de Palmela e a ele muito se deve pelo triunfo das ideias liberais em Portugal.

Também eu continuo, por isso mesmo, a respeitar a sua figura.

25/05/2019

A Cidade: ontem, hoje e amanhã

A capital de Cuba, Havana, celebra em 2019 quinhentos anos de existência.

Folhear o livro "As Grandes Cidades da História" fez-me querer continuar em contexto urbano embora sem mais me referir a esta cidade e a este 'aniversário'.

Foi na área do Crescente Fértil, no Próximo Oriente, que há cerca de doze mil anos, 'acompanhando' uma nova fase climática da Terra - a pós-glaciar -, grupos humanos se começaram a fixar (ou a sedentarizar) e a viver da caça e da recolecção, 'antepassados' da agricultura e da pastorícia modernas.

Ora, a esta evolução económica da vivência humana correspondeu uma progressiva transformação e complexificaçāo da dimensão social da mesma: o Homem passou então a viver junto da terra em que cultivava e caçava.

Estavam, pois, criadas as bases para a Revolução Urbana.

É para mim, por isso mesmo, pouco relevante saber qual foi exactamente a primeira cidade a surgir: se Ur ou Uruk (no actual Iraque), se Çatal Huyuk ou Göbekli Tepe (na actual Turquia) ou se Jericó (na Palestina).

O livro - coordenado pelo historiador (recentemente falecido) britânico John Julius Norwich, faz, na verdade, uma espécie de viagem por um conjunto de cidades que, subjectivamente, claro, foram importantes para a história da humanidade e por outras que o são.

De facto, muito gostaria que este périplo urbano pudesse, também, suscitar a elaboração de reflexões em torno da Cidade do presente - e do futuro: o excesso populacional e a pressão sobre os recursos naturais disponíveis, por exemplo.


24/05/2019

A importância de recuperar a memória

O Cineteatro Mouzinho da Silveira – localizado em Castelo de Vide, no distrito de Portalegre – acolheu nos dias 17, 18 e 19 do corrente mês uma conferência internacional subordinada ao tema, por assim dizer, “Valorizar e Recuperar a Herança Perdida”.

Ora, admito que cheguei mesmo a pensar que só muito dificilmente uma conferência sobre a identidade judaica de (e em…) Portugal poderia realizar-se noutro local que não naquela região do país.

Pensei mal, evidentemente.

Porque, efectivamente, decorre hoje e amanhã na Universidade de Évora uma "evocação dos 450 anos da morte de Garcia de Orta (1568-2018)".

Recordo que Garcia de Orta nasceu precisamente em Castelo de Vide. Judeu, tornar-se-ia médico e botânico tendo morrido na Índia (em Goa).

Ora, numa altura em que em muitas zonas do continente europeu (e também em Portugal) se discute com base em notícias falsas e de forma "populista" a identidade, julgo não ser tarde para, pouquíssimos dias depois do Dia da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento, e recordando uma frase proferida por Garcia de Orta – "A verdade tem pés, e anda e nunca morre" –, se recuperar a memória já que esta, como 'representante' única do passado, 'representa' igualmente a única verdade.

Uma memória ‘composta’, também, de intolerância, de ódio e de barbárie. Social, económica, étnica e religiosa.

E perguntar: é esse o ‘caminho’ que queremos trilhar novamente?

23/05/2019

Alemanha, Namíbia e Portugal

Ter lido que as autoridades alemãs iriam devolver às da Namíbia o padrão aí colocado pelo navegador português Diogo Cão há mais de quinhentos anos levou-me, desde logo, a concordar com um diplomata daquele país africano quando afirmou não apenas que "O regresso da Cruz [o referido padrão] original é um passo importante para nos reconciliarmos com o nosso passado colonial e o rastro de humilhação e injustiças sistemáticas que deixou" mas também que apenas "o confronto e a aceitação deste passado doloroso libertará os namibianos para consciente e confiantemente poderem confrontar o futuro".

Mas também me levou a reflectir no seguinte: quando, em Vila Real, não há muitos anos, li esta inscrição


SEGVNDO A TRADIÇÃO
NESTA CASA NASCEV
DIOGO CÃO ESCVÐ
IRO DA CASA Ð D. JOÃO II QVE Ð
1482 A 1486 ÐSCOBRIV E EXPLO
ROV A COSTA OCIDENTAL Ð AFRICA
ÐEÐ O RIO ZAIRE À SERRA PARDA

não me recordei – imediatamente, pelo menos –, do facto de Diogo Cão ter, em 1479 (ou em 1480, não tenho a certeza), aprisionado, no Golfo da Guiné, um pirata/corsário francês e o ter trazido para Portugal.

Recordei-me, na verdade, das aulas de História que tive na escola.

E no muito que nelas me falaram dos Descobrimentos (ou ‘Achamentos’…) portugueses e de alguns dos seus ‘actores’ principais.

Ora, Diogo Cão foi um deles.

Percebi, entretanto, que, em Vila Real, apesar de aí ter, provavelmente, nascido Diogo Cão, não existia qualquer núcleo museológico que o homenageasse e, assim, dignificasse a sua figura e a sua acção como navegador ao serviço da Coroa portuguesa.

Triste, porque sinceramente acho que quer a memória de Diogo Cão, quer Vila Real, quer o próprio país o mereciam.