06/07/2019

O mundo em Lisboa

Recordo uma das coisas que diz o narrador do filme de Ivo Ferreira, "O Estrangeiro""Para ele, todo o mundo é o pequeno ponto onde vivemos. Cabe quase na palma de uma mão".

Ora, quem quer que actualmente circule por Lisboa conseguirá, muito facilmente, ouvir linguajares originários de muitos pontos do globo.

Mas existem outras dimensões deste cosmopolitismo (muito) anteriores à ‘vaga’ turística.

Na toponímia, por exemplo.

Podem, assim, encontrar-se, por exemplo, a Praça de Espanha, a Avenida do Brasil, a Rua de Angola, a Avenida dos Estados Unidos da América, a Rua da Guiné, a Avenida Rio de Janeiro, a Rua Cidade de Cádiz, a Rua Cidade do Lobito, a Avenida da Índia, a Rua Cidade de Rabat, a Rua de São Paulo (e a Praça de São Paulo), a Rua de Moçambique, a Rua Cidade de Cardiff, a Rua da Venezuela, a Praça de Damão, a Avenida de Paris, a Rua Cidade de Gabela, a Rua República da Bolívia, a Rua de Manhiça, a Praça de Malaca, a Avenida do México, a Rua Cidade de Manchester, a Rua Cidade de Bolama, a Rua da Ilha de São Tomé, a Praça de Goa, a Avenida do Uruguai, a Rua Cidade de Benguela, a Praça de Londres, a Avenida de Pádua, a Rua Cidade da Beira, a Praça de Dio [ou Diu], a Avenida de Ceuta, a Rua Washington, a Rua de Macau, a Rua de Marracuene, a Rua Cidade de Bafatá, a Praça de Bilene, a Avenida de Madrid, a Rua do Zaire, a Rua Cidade de Liverpool, a Avenida Cidade de Luanda, a Rua Cidade de Bissau, a Avenida de Berlim, a Rua Vila de Bassorã, a Rua de Timor, a Avenida de Roma, a Rua do Dondo, a Rua de Buenos Aires, a Rua de Cabo Verde, a Rua da Ilha do Príncipe, a Avenida Brasília, a Rua Cidade da Praia, a Rua de Chibuto, a Rua Cidade de Nampula, a Rua Cidade de Quelimane, a Rua Cidade de Tete ou a Avenida das Nações Unidas

05/07/2019

Os portugueses de Malaca

Recordo-me de, há alguns anos, ter visto, na plataforma YouTube, um determinado episódio (não me lembro de qual) de um documentário que havia já passado num canal televisivo do Brasil.
"Além Mar" era o seu ‘nome’.

Nesse episódio que vi, uma das pessoas – o escritor e jornalista português Miguel Sousa Tavares –, fez a seguinte declaração: "Nós devemos perguntar por que é que povos – alguns deles na Ásia, em Malaca e tudo – que já não vêem portugueses há 300 ou há 400 anos (…), guardaram uma imagem tão forte e ainda estão apegados a algumas coisas que têm que ver com o mundo português"…

De facto, Malaca localiza-se na região do sudeste da Ásia e faz parte de um país, a Malásia.

Quando, em 1511, o comandante português Afonso de Albuquerque e os seus homens conquistaram "a opulenta Malaca" (como a apelidaria, mais tarde, Luís Vaz de Camões) estavam, muito provavelmente, bem longe de imaginar que, passados quinhentos anos, ainda ali pudessem viver pessoas que tinham orgulho no nome de Portugal e honrassem, sempre que lhes era possível, os seus antepassados portugueses e as suas tradições, os seus costumes religiosos e a sua língua porque não queriam que, simplesmente, desaparecessem na chamada espuma dos dias.

Ora, os portugueses que primeiro se fixaram em Malaca eram, naturalmente, em pequeno número e iam servir na fortaleza entretanto mandada construir por Afonso de Albuquerque e na armada portuguesa durante um determinado período de tempo findo o qual partiam para outra qualquer parte do então império português.

Todavia, ao longo do século XVI, pouco a pouco, alguns daqueles foram-se fixando em Malaca após casarem com mulheres locais (depois de convertidas ao cristianismo...).

Eis as origens dos luso-descendentes de Malaca.

Mas, logo em 1641, cerca de cento e trinta anos após terem entrado em Malaca como conquistadores, os portugueses foram expulsos pelos holandeses.

A ocupação holandesa foi severa para com os vestígios da presença portuguesa: as igrejas foram destruídas ou transformadas em dependências militares, a velha torre de menagem (a fortaleza já referida), actualmente apelidada de "A Famosa", foi transformada em armazém e o culto católico foi proibido.

Impuseram-se, desse modo, sérias restrições à identidade dessas pessoas.

É, no entanto, importante recordar que os holandeses decidiram também fazer de Batávia (a actual Jacarta, capital da Indonésia) o ‘centro’ da sua vasta rede comercial na região do sudeste asiático deixando, assim, para Malaca o papel de protecção à navegação no estreito com o mesmo nome.

Votados, por isso, a um certo desprezo social, os descendentes dos portugueses não desistiram, porém, da tarefa de preservar a sua cultura e, enfim, a sua identidade.

Compreenderam que a sua luta só poderia ser bem sucedida se fundissem a sua cultura com outras culturas autóctones (incorporando alguns elementos, por exemplo) e contribuíssem, desse modo, para um enriquecimento da sua própria identidade.

No entanto, em 1795, na Europa, as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram a Holanda e a Inglaterra, receosa de que os franceses se apropriassem de possessões holandesas na Ásia – entre as quais Malaca e Batávia –, assumiram, eles próprios, o controlo directo de várias dessas terras.

Entretanto, terminadas as chamadas guerras napoleónicas, os holandeses regressaram a Batávia em 1816 e a Malaca em 1818.

Ainda assim, poucos anos após o seu regresso, em 1824, a Holanda e a Inglaterra firmaram um tratado essencialmente destinado a evitar a expansão de outras potências europeias – a França, particularmente – na região do sudeste da Ásia.

Uma das consequências imediatas desse tratado foi a retirada definitiva dos holandeses de Malaca. 

Terminou assim, na vida de Malaca, mais um ciclo.

Deste modo, como sempre acontece na vida, logo outro se iniciou.
 
Importará dizer, em relação aos luso-descendentes – os portugueses de Malaca – que a administração inglesa também os não favoreceu em relação a outros povos da península malaia.

Circulava, de resto, entre as gentes cristãs, por exemplo, a firme convicção de que só se se falasse a língua inglesa se teria alguma hipótese de "entrar" no mundo anglo-malaio da administração colonial.

Na verdade, a língua portuguesa não foi oficialmente ensinada desde o fim da ocupação portuguesa de Malaca. O papiá cristang (como é também conhecido este crioulo, uma mistura de português e de malaio) foi apreendido pelas crianças através dos seus pais que, por sua vez, o passaram aos filhos e assim sucessivamente: o político e autor malaio Bernard Santa Maria – ele próprio um luso-descendente – ilustrou bem, numa frase apenas, a intolerância com que os católicos portugueses de Malaca foram tratados, quer pelos holandeses, quer pelos ingleses: "Não fomos às escolas holandesas porque eram calvinistas, nem às inglesas porque eram metodistas, e por isso não tivemos educação até hoje".

Foi, no entanto, durante a administração inglesa que foi construído o bairro português em Malaca: de facto, por volta de 1930, os padres católicos da cidade convenceram as autoridades a edificar, nos arredores da cidade, junto ao mar, um espaço e respectivas infra-estruturas que pudessem congregar uma etnia um tanto ou quanto dispersa pela península malaia facilitando, assim, a preservação da cultura e, até, a integridade étnica dos luso-descendentes.

E foi só a partir da década de 1950 que, com o apoio dos padres católicos da missão portuguesa, foram criados alguns grupos folclóricos (como o "the portuguese culture group") com canções e com danças próprias ao estilo do verificado em Portugal (ou seja, ‘copiadas’) e incentivadas outras tradições (essas sim, locais e muito antigas) como as "mata-cantiga" (cantigas ao desafio).

Como tem, também, vindo a acontecer em muitas outras partes do mundo, tais tradições têm merecido cada vez mais atenção por parte das autoridades locais devido ao papel desempenhado no turismo local.
 
Por exemplo, o jornalista português Joaquim Vieira, numa peça escrita, há já alguns anos, sobre o bairro e as suas gentes, escreveu: "sendo o turismo uma das prioridades e Malaca a principal atracção turística da Malásia, os portugueses [de Malaca, claro está] – uma espécie em vias de extinção – transformaram-se numa atracção de jardim zoológico. O governo construiu no bairro português uma "praça portuguesa" com "restaurantes portugueses" anunciando "comida portuguesa" e onde se realizam espectáculos de "folclore português". O local é ponto de passagem obrigatória dos visitantes que passam por Malaca, embora a probabilidade de haver alguma coisa de português em tudo isto seja tão grande como a de encontrar um esquimó no Equador".

Em 1984, o papiá cristang foi declarado, pela própria UNESCO, como estando em risco de extinção.

João Pedro de Campos Guimarães e José Maria Cabral Ferreira escreveram no seu livro "Bairro Português de Malaca" o seguinte: "Uma língua contém e define um modo de ser e de ver o mundo. Enquanto dura, um certo tipo de personalidade existe: com o seu desaparecimento é um certo homem que morre. A língua tem relação intrínseca com todos os elementos que integram e dão rosto a uma cultura; ela é um dos pilares sobre que assenta a pertença de um grupo: se falo tal língua, encontro-me com os que a falam, distingo-me e distancio-me dos que não falam".

Assim, não terá sido grande a surpresa o facto de que, por volta de 2003, nenhuma criança residente no bairro conseguisse falar correntemente papiá cristang (recordo que o Bairro Português de Malaca tem, hoje, 11.2 hectares e cerca de 1200 pessoas a lá viver).

Ou seja, o que pretendo, finalmente, notar é que existe, ainda hoje, uma comunidade que se reclama ‘herdeira’ da cultura portuguesa – malaio-portuguesa – mas não uma comunidade malaio-holandesa ou uma malaio-inglesa ainda que a presença de holandeses e ingleses tenha durado cerca de cento e sessenta anos cada. Uma comunidade em que, por exemplo, citando o já referido episódio do documentário brasileiro "Além Mar", "o culto dos santos católicos manteve-se vivo por todos esses séculos mesmo cercado pelo islamismo da Malásia" ou, como sublinhou um artigo assinado pelo escritor e viajante Gonçalo Cadilhe em fins de Março de 2011, "Em Malaca, cruzamento de povos dos mares, uma pequena comunidade católica resiste à uniformização religiosa e cultural imposta pela maioria muçulmana que governa a Malásia".

Creio, por isso, estar mais do que na altura, por assim dizer, de, em Malaca como em muitas outras latitudes (algumas das quais já aqui aludidas), as autoridades portuguesas, sem se deixarem perturbar e condicionar por qualquer sentimento saudosista, neo-imperialista ou neo-colonialista que queira e possa revelar-se, possam compreender o sentido genuíno de uma frase proferida pelo Professor Agostinho da Silva – "E hoje o que Portugal poderia fazer o favor de perceber é que um dos corpos que ele é está aqui entre o Minho e o Algarve! Outro corpo que ele é está, por exemplo, no Brasil. O outro corpo que ele é, está, vamos pôr, em Moçambique. E talvez outro corpo que ele é está em Malaca, ou em Macau ou em Timor!" e o de uma outra registada pelo jurista e político Guilherme d’Oliveira Martins (então o presidente do Centro Nacional de Cultura) num artigo publicado em Novembro de 2011 – "sentimos que a comunidade que deixámos no longínquo século XVII precisa mais do nosso conhecimento e do nosso apoio. É isso que todos nos pedem e não podemos deixar de corresponder" e agir.

Espero que a recente visita do secretário de Estado das Comunidades a Malaca vá neste sentido.



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De facto, tendo conseguido sobreviver ao Tempo e à segregação, activa e passiva, das administrações holandesa, inglesa e malaia, é possível que algumas das cerca de 1200 pessoas que hoje vivem no Bairro Português de Malaca integrem o exército da Malásia.

Que tem como lema "Gagah Setia" ("Forte e Leal", em português).

Ora, também os portugueses de Malaca têm sido sempre fortes e leais.




04/07/2019

Os Estados Unidos da América

Os Estados Unidos da América celebram, hoje, o 243.º aniversário da sua formação como país soberano e independente.

Soberania e independência que têm sido definidas – e ‘alimentadas’ –, sobretudo, pelo poder da geopolítica.

Por exemplo, uma investigadora do Observatório Político declarou, numa entrevista televisiva, que "a Rússia é a única potência mundial que tem, verdadeiramente, algum interesse geoestratégico e político na Síria. Os Estados Unidos não têm".

Ora, apesar de eu não ser um especialista nestas matérias, discordei imediatamente do que tinha acabado de ouvir: sendo os Estados Unidos da América a única actual grande potência política e militar à escala planetária não é simplesmente possível que não tenha uma "orientação" estratégica numa zona do globo que, historicamente, tem sido palco de conflitos e disputas também pelo controlo dos recursos energéticos. E, ainda mais, porque é, precisamente, nessa região que se situa, por assim dizer, um dos maiores aliados dos Estados Unidos da América e um dos que recebe, anualmente, mais fundos e material militar, sobretudo (e que até tem disputas territoriais com a Síria): Israel.


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O artigo "Will we have a 2nd Civil War? You tell me." que a revista norte-americana Foreign Policy publicou, "online", em Março de 2017 foi escrito tendo por base a questão "Quais serão as probabilidades de uma guerra civil eclodir neste país [Estados Unidos da América] nos próximos 10 a 15 anos?" e algumas das suas hipóteses de resposta.

O seu autor perguntou, assim, a um grupo constituído por pensadores da segurança nacional quais seriam as suas.

O consenso, sublinhou, ‘andaria’ por volta dos 35%.

E solicitou, ainda, a colaboração dos leitores.

Ora, perguntando-me, desde logo, se uma das pessoas que ajudou a fundar a Foreign Policy – Samuel P. Huntington (autor, por exemplo, de "O choque das civilizações") –, subscreveria as acusações, entretanto surgidas, do carácter pouco científico de tal inquérito, quero dizer que faz, para mim, todo o sentido que se coloque a hipótese de, em pleno século XXI, os Estados Unidos da América serem ‘palco’ de uma guerra civil.

Quando disse "faz todo o sentido" estava, também, a lembrar-me do que se passou nesse mesmo ano em Charlottesville (estado da Virgínia): a violência que surgiu quando grupos apoiantes do racismo, da intolerância e do ódio (neonazis, "skinheads" e membros do grupo Ku Klux Klan) se manifestaram... 

Mas não só. 

O também norte-americano Public Religion Research Institute publicou, depois do artigo que citei, um estudo – "America’s Changing Religious Identity" – que concluiu o seguinte: "Actualmente, apenas 43% dos norte-americanos afirmam ser brancos e cristãos e, desses, apenas 30% dizem ser protestantes. Em 1976, cerca de 8 em cada 10 norte-americanos (81%) assumiam ser brancos e cristãos sendo que, desses, mais de metade (55%) era protestante".
Não é, certamente, por acaso que o segundo idioma mais utilizado em quase todos os estados da América do Norte é o espanhol (castelhano…)*.
Ou seja, os ‘famosos’ WASP’s ("White Anglo-Saxon Protestant") – os cidadãos brancos, de origem anglo-saxónica e praticantes da religião protestante – estão em declínio.
Ora, talvez este declínio ajude a explicar a animosidade ‘racial’ que hoje se vive nos Estados Unidos da América e a hipótese de o país vir a sofrer uma segunda guerra civil...

*Assim, no estado North Dakota a segunda língua mais falada é a alemã, no Louisiana é a francesa, no Maine, no New Hampshire e no Vermont é, também, a francesa, no Hawai são o Ilocano, o Tagalog e o japonês e no Alaska é o Yup’ik.
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Talvez influenciados por estarem a brindar com vinho da Madeira, o lema adoptado pelos pais fundadores dos Estados Unidos da América foi "E Pluribus Unum" (ou, em português, "Entre Muitos, Um") – à semelhança do escolhido, em Portugal, pelo clube Sport Lisboa e Benfica mais de uma centena de anos mais tarde – para aludir à ‘herança’ cultural e étnica do país e a uma tolerância que, de resto, em muito poucas ocasiões se verificaria.

Ora, em meados da década de 1950, os Estados Unidos – então em confronto ideológico (e não só) com a Comunista União Soviética – decidiram, num gesto desafiador, inscrever o lema "In God We Trust" ("Confiamos Em Deus", em português) nalgumas notas e moedas em circulação corrente: perante um país com um regime político comunista (e claro, anticapitalista) e ateu, o que poderia ser melhor do que exaltar uma entidade divina no sistema monetário, fulcro do Capitalismo?

Mas, embora a União Soviética possa ter já desaparecido, tal lema tem-se mantido e irá continuar a existir: o Supremo Tribunal norte-americano anunciou já, em Junho de 2019, que considerava improcedente uma queixa apresentada que pretendia a retirada pura e simples do referido "In God We Trust" por, argumentou-se, chocar contra os direitos religiosos de quem se identificava como ateu.


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O lema que o estado norte-americano New Hampshire decidiu adoptar em 1945 (e que ainda hoje mantém) foi "Live Free or Die" (ou, em língua portuguesa, "Vive Livre ou Morre").

Ora, terá também sido de forma livre que uma reunião camarária realizada em 1824 numa determinada localidade daquele que é um dos cinquenta estados dos Estados Unidos da América decidiu atribuir a si própria o nome Lisbon em homenagem à cidade que é a capital de Portugal.

Tal como tinha sido, certamente, em liberdade que New Hampshire havia declarado a sua independência face à Inglaterra. Tanta liberdade que havia mesmo sido a primeira colónia inglesa na América do Norte a fazê-lo.

Foram, no entanto, alguns anos antes de tal adopção e alguns anos depois de tal declaração de independência e da mudança de nome que o presidente do país Thomas Woodrow Wilson (eleito pelo Partido Democrata) havia escrito as seguintes palavras no seu livro "The New Freedom" (publicado em 1913, já depois de se ter tornado no 28.º presidente dos Estados Unidos da América):


"Tornámo-nos num dos governos pior governados e completamente dominados e controlados do mundo civilizado. Não mais um governo baseado na livre opinião, em convicções e no voto da maioria dos cidadãos mas, na verdade, um governo formado pelas opiniões de pequenos grupos de homens e por eles condicionado".


Wilson tinha nascido no estado da Virginia (em 1856) e o lema deste é actualmente "Sic Semper Tyrannis" ("Assim Sempre aos Tiranos", em português).



Post scriptum: Os Estados Unidos da América declararam, efectivamente, a independência no dia 2 de Julho de 1776. Mas o texto da Declaração apenas acabaria por ser aprovado dois dias depois – isto é, no dia 4 de Julho. No entanto, a sua ratificação (e, portanto, o reconhecimento oficial) somente foi autenticada no dia 2 de Agosto.





03/07/2019

História para venda

O lema "Sic Parvis Magna" (ou, em português, "De Pequeno Se Fez Grande") foi atribuído ao corsário Francis Drake pela própria rainha inglesa Isabel para aludir ao seu humilde ‘começo’ de vida.

Assim, o corsário ao serviço da Coroa inglesa e que se tornaria enquanto tal no segundo homem, depois do português Fernão de Magalhães, a fazer a circum-navegação do globo terrestre, e um dos principais obreiros da derrota infligida à Invencível Armada espanhola, obteve o reconhecimento maior.

Mas, muitos séculos após a sua morte, talvez a sua memória não fique maior se nos lembrarmos que, há cerca de um ano, no Reino Unido evidentemente, foi 'colocada' para venda...uma ilha: a ilha de Drake.

Portando o apelido do famoso navegador e corsário inglês Francis Drake, assim se chamava a ilha britânica (localizada no Sudoeste de Inglaterra) que então se encontrava para venda.

Ou, como dizem por esses lados, "for sale".

Assim, desde que desembolsasse perto de sete milhões de euros, qualquer pessoa poderia adquirir um pouco da história do país já que esta ilha (com uma dimensão pouco maior do que dois hectares) havia sido um importante bastião (fortificada no século XVII) na defesa da costa britânica.

‘Converteu-se’, mais tarde, numa prisão de Estado.

Ora, admito a minha perplexidade ao ler aquela ‘notícia’.

Que não era tributária, no entanto, do facto de ser uma novidade na Europa (ou no mundo…).

Tal deveu-se, na verdade, ao facto de que, em minha opinião evidentemente, tal venda extravasava a simples venda de património físico: era, sim, a venda de uma parte da História de um país. E de pessoas.

Compreendo que, numa época em que tudo parece ter um preço e, assim, se pode vender e comprar (como escreveu o sociólogo norte-americano Immanuel Wallerstein, "A razão de ser do capitalismo é a eterna acumulação de capital"), a alienação de património histórico e cultural mais não seja do que uma venda de um bem como qualquer outro.

Percebo mas desprezo este tipo de atitude pelo que não abdico de pensar que o mundo precisa urgentemente de verdadeiros líderes que, por serem isto mesmo, respeitem a História como um dos ‘pilares’ identitários essenciais do ser humano.

02/07/2019

A Torre de Penegate

Eis as palavras que podem ser lidas junto à Torre de Penegate que se ‘localiza’ em Vila Verde, Braga:


"A Torre de Penegate foi erguida no século XIV para serventia de Mem Rodrigues de Vasconcelos, alcaide-mor do Castelo de Guimarães, com licença régia especial de D. Dinis. É um belo exemplar de casa-torre medieval, com boa estrutura defensiva e localização privilegiada. Pensa-se, contudo, que a atual Torre foi edificada sobre uma primitiva, do século XI, residência de D. Egas Pais de Penegate, valido do Conde D. Henrique de Borgonha".


A Torre de Penegate.


01/07/2019

"Pão e Circo"

Quem quer que actualmente visite a cidade italiana de Roma deparar-se-á, não raramente, com a sigla SPQR.

O que talvez não saiba é que tal sigla significa "Senatus Populusque Romanus" (ou, em português, "O Senado E O Povo Romano").

E que tal lema estava inscrito nos estandartes das legiões romanas uma vez que era a designação oficial do Império Romano.

Ora, talvez também não viva alguém no actual 'mundo ocidental' que duvide seriamente da importância de Roma e do Império Romano no 'nascimento' daquele.

Nem que pense que a 'marca' Romana só aqui esteja hoje presente sob a forma de vestígios ou fragmentos arqueológicos.

Mas quão de facto eram importantes o Senado Romano e o Povo Romano?

Escreveu Cássio de Aertium na sua "Primeira Carta a Donácio" o seguinte:






"Escrevo-te de África, para onde o nosso imperador Trajano me enviou, a fim de organizar a captura das feras. É preciso manter distraídos os inúmeros desempregados de Roma para evitar desordens e revoltas, mesmo que todos estes animais nos custem muito caro. O povo reclama continuamente espectáculos cada vez mais insólitos. Já se viram panteras puxando um carro, elefantes ajoelhando-se para escrever com a tromba, na areia do Circo Máximo, o nome do imperador, gladiadores combatendo contra leões.".






***






Ora, sugiro somente que se substituam as palavras e os conceitos próprios da realidade Romana de há dois mil anos - como gladiadores, combates com animais e Império, por exemplo - por palavras e conceitos de hoje, por assim dizer - como futebol, entretenimento televisivo, soldados, guerras e Democracia, por exemplo.






29/06/2019

Os grandes e os pequenos

"se levantaram os povos noutros lugares, sendo grande a oposição entre os grandes e os pequenos, aos quais (...) chamavam naquele tempo arraia-miúda. Os pequenos, depois que ganharam coragem e se juntavam entre eles, chamavam, aos grandes, traidores (...) que seguiam o partido dos Castelhanos para darem o reino a quem não pertencia. E ninguém, por grande que fosse, se atrevia a contradizê-los, nem a falar coisa nenhuma, porque sabia que, se falasse, tinha logo morte má, sem ninguém lhe poder valer. Era maravilha ver que tanta coragem lhes dava Deus e tanta cobardia aos outros que os castelos que os antigos reis não conseguiam tomar pela força das armas, apesar de os cercarem durante muito tempo, os povos miúdos, mal armados e sem capitão, com os ventres ao sol, os tomavam pela força em menos de meio dia".

Fonte: "Crónica de D. João I" de Fernão Lopes.