Recordo-me
de, há alguns anos, ter visto, na plataforma YouTube, um
determinado episódio (não me lembro de qual) de um documentário
que havia já passado num canal televisivo do Brasil.
"Além
Mar" era o seu ‘nome’.
Nesse
episódio que vi, uma das pessoas – o escritor e jornalista
português Miguel Sousa Tavares –, fez a seguinte declaração: "Nós
devemos perguntar por que é que povos – alguns deles na Ásia, em
Malaca e tudo – que já não vêem portugueses há 300 ou há 400
anos (…), guardaram uma imagem tão forte e ainda estão apegados a
algumas coisas que têm que ver com o mundo português"…
De
facto, Malaca localiza-se na região do sudeste da Ásia e faz parte
de um país, a Malásia.
Quando,
em 1511, o comandante português Afonso de Albuquerque e os seus
homens conquistaram "a opulenta
Malaca" (como
a apelidaria, mais tarde, Luís Vaz de Camões) estavam, muito
provavelmente, bem longe de imaginar que, passados quinhentos anos,
ainda ali pudessem viver pessoas que tinham orgulho no nome de
Portugal e honrassem, sempre que lhes era possível, os seus
antepassados portugueses e as suas tradições, os seus costumes
religiosos e a sua língua porque não queriam que, simplesmente,
desaparecessem na chamada espuma dos dias.
Ora,
os portugueses que primeiro se fixaram em Malaca eram, naturalmente,
em pequeno número e iam servir na fortaleza entretanto mandada
construir por Afonso de Albuquerque e na armada portuguesa durante um
determinado período de tempo findo o qual partiam para outra
qualquer parte do então império português.
Todavia,
ao longo do século XVI, pouco a pouco, alguns daqueles foram-se
fixando em Malaca após casarem com mulheres locais (depois de
convertidas ao cristianismo...).
Eis
as origens dos luso-descendentes de Malaca.
Mas,
logo em 1641, cerca de cento e trinta anos após terem entrado em
Malaca como conquistadores, os portugueses foram expulsos pelos
holandeses.
A
ocupação holandesa foi severa para com os vestígios da presença
portuguesa: as igrejas foram destruídas ou transformadas em
dependências militares, a velha torre de menagem (a fortaleza já
referida), actualmente apelidada de "A
Famosa", foi transformada em armazém e o culto
católico foi proibido.
Impuseram-se,
desse modo, sérias restrições à identidade dessas pessoas.
É,
no entanto, importante recordar que os holandeses decidiram também
fazer de Batávia (a actual Jacarta, capital da Indonésia) o
‘centro’ da sua vasta rede comercial na região do sudeste
asiático deixando, assim, para Malaca o papel de protecção à
navegação no estreito com o mesmo nome.
Votados,
por isso, a um certo desprezo social, os descendentes dos portugueses
não desistiram, porém, da tarefa de preservar a sua cultura e,
enfim, a sua identidade.
Compreenderam
que a sua luta só poderia ser bem sucedida se fundissem a sua
cultura com outras culturas autóctones (incorporando alguns
elementos, por exemplo) e contribuíssem, desse modo, para um
enriquecimento da sua própria identidade.
No
entanto, em 1795, na Europa, as tropas de Napoleão Bonaparte
invadiram a Holanda e a Inglaterra, receosa de que os franceses se
apropriassem de possessões holandesas na Ásia – entre as quais
Malaca e Batávia –, assumiram, eles próprios, o controlo directo
de várias dessas terras.
Entretanto,
terminadas as chamadas guerras napoleónicas, os holandeses
regressaram a Batávia em 1816 e a Malaca em 1818.
Ainda
assim, poucos anos após o seu regresso, em 1824, a Holanda e a
Inglaterra firmaram um tratado essencialmente destinado a evitar a
expansão de outras potências europeias – a França,
particularmente – na região do sudeste da Ásia.
Uma
das consequências imediatas desse tratado foi a retirada definitiva
dos holandeses de Malaca.
Terminou assim, na vida de Malaca, mais um
ciclo.
Deste
modo, como sempre acontece na vida, logo outro se iniciou.
Importará dizer, em relação aos luso-descendentes – os portugueses de
Malaca – que a administração inglesa também os não favoreceu
em relação a outros povos da península malaia.
Circulava,
de resto, entre as gentes cristãs, por exemplo, a firme convicção
de que só se se falasse a língua inglesa se teria alguma hipótese
de "entrar" no mundo anglo-malaio da administração colonial.
Na
verdade, a língua portuguesa não foi oficialmente ensinada desde o
fim da ocupação portuguesa de Malaca. O papiá cristang
(como é também conhecido este crioulo, uma mistura de português e
de malaio) foi apreendido pelas crianças através dos seus pais que,
por sua vez, o passaram aos filhos e assim sucessivamente: o político
e autor malaio Bernard Santa Maria – ele próprio um
luso-descendente – ilustrou bem, numa frase apenas, a intolerância
com que os católicos portugueses de Malaca foram tratados, quer
pelos holandeses, quer pelos ingleses: "Não
fomos às escolas holandesas porque eram calvinistas, nem às
inglesas porque eram metodistas, e por isso não tivemos educação
até hoje".
Foi,
no entanto, durante a administração inglesa que foi construído o
bairro português em Malaca: de facto, por volta de 1930, os
padres católicos da cidade convenceram as autoridades a edificar,
nos arredores da cidade, junto ao mar, um espaço e respectivas
infra-estruturas que pudessem congregar uma etnia um tanto ou quanto
dispersa pela península malaia facilitando, assim, a preservação
da cultura e, até, a integridade étnica dos luso-descendentes.
E
foi só a partir da década de 1950 que, com o apoio dos padres
católicos da missão portuguesa, foram criados alguns grupos
folclóricos (como o "the
portuguese culture group") com canções e com danças
próprias ao estilo do verificado em Portugal (ou seja, ‘copiadas’)
e incentivadas outras tradições (essas sim, locais e muito antigas)
como as "mata-cantiga"
(cantigas ao desafio).
Como
tem, também, vindo a acontecer em muitas outras partes do mundo,
tais tradições têm merecido cada vez mais atenção por parte das
autoridades locais devido ao papel desempenhado no turismo local.
Por
exemplo, o jornalista português Joaquim Vieira, numa peça escrita,
há já alguns anos, sobre o bairro e as suas gentes, escreveu: "sendo o turismo uma das
prioridades e Malaca a principal atracção turística da Malásia,
os portugueses [de Malaca, claro está] –
uma espécie em vias de extinção – transformaram-se numa atracção
de jardim zoológico. O governo construiu no bairro português uma "praça portuguesa" com "restaurantes portugueses" anunciando "comida portuguesa" e onde se realizam espectáculos de "folclore
português". O local é ponto de passagem obrigatória dos
visitantes que passam por Malaca, embora a probabilidade de haver
alguma coisa de português em tudo isto seja tão grande como a de
encontrar um esquimó no Equador".
Em
1984, o papiá cristang foi declarado, pela própria UNESCO,
como estando em risco de extinção.
João Pedro de Campos Guimarães
e José Maria Cabral Ferreira escreveram no seu livro "Bairro Português de Malaca" o seguinte: "Uma língua contém e
define um modo de ser e de ver o mundo. Enquanto dura, um certo tipo
de personalidade existe: com o seu desaparecimento é um certo homem
que morre. A língua tem relação intrínseca com todos os elementos
que integram e dão rosto a uma cultura; ela é um dos pilares sobre
que assenta a pertença de um grupo: se falo tal língua, encontro-me
com os que a falam, distingo-me e distancio-me dos que não falam".
Assim,
não terá sido grande a surpresa o facto de que, por volta de 2003,
nenhuma criança residente no bairro conseguisse falar correntemente
papiá cristang (recordo que o Bairro Português de Malaca
tem, hoje, 11.2 hectares e cerca de 1200 pessoas a lá viver).
Ou
seja, o que pretendo, finalmente, notar é que existe, ainda hoje,
uma comunidade que se reclama ‘herdeira’ da cultura portuguesa –
malaio-portuguesa – mas não uma comunidade malaio-holandesa ou uma
malaio-inglesa ainda que a presença de holandeses e ingleses tenha
durado cerca de cento e sessenta anos cada. Uma comunidade em que,
por exemplo, citando o já referido episódio do documentário
brasileiro "Além Mar", "o
culto dos santos católicos manteve-se vivo por todos esses séculos
mesmo cercado pelo islamismo da Malásia" ou, como
sublinhou um artigo assinado pelo escritor e viajante Gonçalo
Cadilhe em fins de Março de 2011, "Em
Malaca, cruzamento de povos dos mares, uma pequena comunidade
católica resiste à uniformização religiosa e cultural imposta
pela maioria muçulmana que governa a Malásia".
Creio,
por isso, estar mais do que na altura, por assim dizer, de, em Malaca
como em muitas outras latitudes (algumas das quais já aqui
aludidas), as autoridades portuguesas, sem se deixarem perturbar e
condicionar por qualquer sentimento saudosista, neo-imperialista ou
neo-colonialista que queira e possa revelar-se, possam compreender o
sentido genuíno de uma frase proferida pelo Professor Agostinho da
Silva – "E hoje o que Portugal
poderia fazer o favor de perceber é que um dos corpos que ele é
está aqui entre o Minho e o Algarve! Outro corpo que ele é está,
por exemplo, no Brasil. O outro corpo que ele é, está, vamos pôr,
em Moçambique. E talvez outro corpo que ele é está em Malaca, ou
em Macau ou em Timor!" e o de uma outra registada
pelo jurista e político Guilherme d’Oliveira Martins (então o
presidente do Centro Nacional de Cultura) num artigo publicado
em Novembro de 2011 – "sentimos
que a comunidade que deixámos no longínquo século XVII precisa
mais do nosso conhecimento e do nosso apoio. É isso que todos nos
pedem e não podemos deixar de corresponder" e agir.
Espero
que a recente visita do secretário de Estado das Comunidades a
Malaca vá neste sentido.
***
De
facto, tendo conseguido sobreviver ao Tempo e à segregação, activa
e passiva, das administrações holandesa, inglesa e malaia, é
possível que algumas das cerca de 1200 pessoas que hoje vivem no
Bairro Português de Malaca integrem o exército da Malásia.
Que
tem como lema "Gagah Setia" ("Forte e Leal", em português).
Ora,
também os portugueses de Malaca têm sido sempre fortes e
leais.