27/12/2019

Livros e homens

Há poucos dias, alguns funcionários de uma biblioteca – supus que pública – localizada na zona Noroeste da China, queimou, depois de uma ‘limpeza’, mais de meia centena de livros que considerou ilegais.

Ora, tal acto inquietou-me muito porque um livro é para mim preciosíssimo e, como tal, creio que era incapaz de o fazer de forma voluntária (não que tais funcionários o tivessem feito, bem entendido).

Mas também me inquietou porque me lembrei novamente das palavras que Heinrich Heine, poeta alemão do século XIX, escreveu (e que já citei aqui no blogue): "Quem começa por queimar livros, acaba por queimar homens".

26/12/2019

Os judeus e o Marquês de Pombal

O comendador Inácio Steinhardt lembrou já no seu livro "Raízes dos judeus em Portugal : entre godos e sarracenos" que quando "D. Afonso Henriques obteve o reconhecimento do seu reino independente, em 1143, já viviam judeus na Península há pelo menos um milénio".

Ora, o historiador e professor Charles Ralph Boxer, também no seu livro "O Império Marítimo Português 1415-1825" escreveu sobre a existência de "uma história muito conhecida segundo a qual D. José estava a considerar uma proposta da Inquisição no sentido de que todos os cristãos-novos [judeus convertidos ao cristianismo] do seu reino deveriam ser obrigados a usar chapéu branco como um sinal de que tinham sangue judeu. No dia seguinte, [o Marquês de] Pombal apareceu no gabinete real com três chapéus brancos, e explicou que tinha trazido um para o rei, outro para o inquisidor-mor e outro para si próprio".

De facto, segundo vários estudos genéticos que têm vindo a ser feitos, serão actualmente cerca de 20% (ou mesmo mais) dos portugueses aqueles que têm ascendência judaica.

Ou seja, atingindo uma percentagem talvez maior do que aquela existente, por assim dizer, em países como os Estados Unidos da América ou a Rússia, a muitos portugueses ‘dirá’ muito (desculpe-se-me a repetição) o lema de Israel – "ישראל" ("Israel", em português).


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Quem quer que visite a igreja da Memória, em Lisboa, não deixará, decerto, de ficar impressionado com o facto de a urna que contém os restos mortais de Sebastião José de Carvalho e Melo – o Marquês de Pombal – ser tão pequena quando comparada com muitas daquelas que hoje conhecemos.

No fundo, como é que alguém que foi tão ‘grande’ em vida pôde, na morte, ‘habitar’ tão diminuta ‘caixa’?

Ora, talvez o(s) autor(es) daquilo que o Marquês de Pombal não teria deixado de considerar "uma tão grande afronta" tenha querido transmitir isso mesmo: na morte, todos somos iguais. Grandes e pequenos.






24/12/2019

A URSS e os talibãs

Soldados do exército da União Soviética invadiram no dia 24 de Dezembro de 1979 o território do Afeganistão para auxiliar o governo comunista que comandava o país na sua luta contra as guerrilhas de ‘inspiração’ muçulmana (que dariam ‘origem’ aos tristemente célebres talibãs…).

23/12/2019

Angola, Cabinda e Simulambuco

O lema da República de Angola é "Virtus Unita Fortior" ("A Unidade Dá Força", em português).

No entanto, nem todos em Angola parecem concordar com essa unidade.

De facto, com uma pequeníssima frase descreve a Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC) a relação identitária, cultural e, de certo modo, "espiritual", que pensa existir entre a região e o país que, política e administrativamente, a controla: "Cabinda não é Angola!".

Criada no início de Agosto de 1963, a FLEC continua, actualmente, a reivindicar a independência de Cabinda.

Talvez, por isso mesmo, seja pertinente invocar o conteúdo integral de um comunicado que o porta-voz do movimento – que alguns consideram ser separatista –, Jean Claude Nzita, endereçou às redacções de vários órgãos noticiosos em 1 de Fevereiro de 2016 e que está disponível na "Internet".



"Na ocasião da celebração do 131º aniversário do Tratado Luso-Cabindês de Simulambuco, assinado a 1 de Fevereiro de 1885 e validado durante a Confere[ê]ncia de Berlim, a FLEC recorda, ao Governo Português que o Tratado de Simulambuco é um compromisso ainda vivo, e reafirmado em Simulambuco pelo presidente português Craveiro Lopes, que estabelece princípios de reciprocidade e o dever de Portugal obrar [zelar] pela protecção, liberdade, autodeterminação e soberania do povo de Cabinda que continua a respeitar o Tratado e a reclamar os seus direitos ao abrigo do Direito Internacional.


Portugal honrou os seus deveres [para] com o povo de Timor-Leste mas Portugal traiu o povo de Cabinda, ignorando o Tratado de Simulambuco, tentou vender a soberania do povo de Cabinda que aceitou a sua protecção, Portugal também tentou suprimir Cabinda simulando a sua integração no território de Angola, mas Portugal não consegui[u] extinguir [a] Identidade do Povo de Cabinda nem o seu desejo de independência.


1 de Fevereiro é também o Dia da Identidade do povo de Cabinda o alicerce da nação e unidade cabindesa e continuidade da força da nossa razão e luta.


Portugal continua a trair Cabinda e o seu povo, mas Cabinda não trai Portugal. A FLEC manifesta o seu contentamento por Portugal poder exercer democraticamente os valores da democracia que estão vedados a Cabinda, por isso felicita a vitória eleitoral do Dr. Marcelo Rebelo de Sousa e deseja que a sua presidência seja marcada pela coragem e reparação dos erros passados do país que vai presidir reconhecendo os direitos legítimos de Cabinda em nome dos laços que unem as duas nações que permanecem lavrados no Tratado de Simulambuco.


A FLEC acredita que o Dr. Marcelo Rebelo de Sousa irá marcar com dignidade a sua presidência terminando corajosamente o processo de descolonização portuguesa inacabado reconhecendo os direitos e legitima soberania à última colónia lusófona, Cabinda.




A Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC)"




Existindo, aliás, uma descontinuidade territorial entre aquelas que são as fronteiras políticas e geográficas de Angola e aquelas do território de Cabinda, recorde-se que as instâncias políticas portuguesas (respaldadas pelos textos constitucionais) assumiram, até 25 de Abril de 1974, a soberania e a independência de Cabinda. Posição política diferente foi, no entanto, aquela que se verificou, em 1975, na chamada Conferência de Alvor na qual a região de Cabinda foi integrada no território de Angola.


Recorde-se, também, que Cabinda é, nos dias de hoje, uma das províncias de Angola que maior extração e exploração de petróleo proporciona.

21/12/2019

Terrorismo aéreo

Carregado de passageiros, um avião que partiu de um dos vários aeroportos da capital inglesa com destino a Nova Iorque explodiu exactamente quando sobrevoava a localidade escocesa de Lockerbie.

Todos os ocupantes e mais onze pessoas que se encontravam no solo morreram.

21 de Dezembro de 1988.

20/12/2019

"A Pátria Honrai Que A Pátria Vos Contempla"

Foi no ano de 1513 que os navegadores portugueses chegaram à terra que haveria de se chamar Macau.

Desconfiados, os chineses acabaram por erguer uma fronteira entre o território ‘dos’ portugueses e a China: a Porta do Cerco.

Ora, séculos depois, num restauro, foi-lhe incorporado o lema da Marinha Portuguesa – "A Pátria Honrai Que A Pátria Vos Contempla".

Mas, na verdade, se se passarem os olhos pelo livro do jornalista José Pedro Castanheira "Os 5 dias que abalaram Macau" talvez se consiga descobrir que "Macau sempre tinha sido olhado pela capital do império com menos atenção, desinteresse e indiferença".

E se se procurarem outros documentos escritos na época da mudança oficial de soberania (que aconteceu em 20 de Dezembro de 1999) – como peças jornalísticas, por exemplo – talvez se descubram ‘pérolas’ como a de um assessor do então governo (ainda português) de Macau referir que o território havia sido, até há poucos anos, um deserto absoluto de desinteresse por parte de Portugal. Ou o subdirector dos Serviços de Turismo de Macau – um português natural de Macau – declarar, em Maio de 2004, que Portugal nunca tivera a noção exacta do que era Macau pelo que não cumpria o seu papel perante a história.

No entanto, indiferente a tanta indiferença, a Porta do Cerco ainda hoje existe e consta, até, da lista de Património Mundial da UNESCO.

19/12/2019

Açores e Schultz Xavier

O governo regional dos Açores irá, brevemente, ‘servir-se’ de um navio da Marinha portuguesa para criar, junto a uma das suas ilhas, um recife artificial para fomentar, desde logo, o turismo de mar e, também, claro, a criação de melhores condições para o desenvolvimento da vida marinha (que, por sua vez, favorecerá esse mesmo turismo de mar…).

Ora, o navio será o "Schultz Xavier".

Júlio Zeferino Schultz Xavier nasceu em 1850 e foi um oficial da Armada portuguesa.