02/01/2020

Calouste Gulbenkian

Quando morreu, em Lisboa, em Julho de 1955, o empresário e coleccionador que havia nascido na cidade turca de Istambul mas que tinha ‘raízes’ familiares – ou seja, étnicas e culturais – na Arménia, Calouste Gulbenkian, tinha dois pequenos papéis no bolso.

Um com duas frases do empresário norte-americano Henry Ford e o outro também com uma frase do filósofo romano Séneca.

Ora, as frases de Henry Ford eram estas: "Do your own work, mind your own business, and don’t engage in controversy – that’s the way to get along. And, above all else, keep away from lawyers, they’re bound to get you into trouble" (ou, em língua portuguesa, "Faz o teu próprio trabalho, cuida dos teus próprios assuntos e não te envolvas em conflitos – é a melhor forma de te dares bem. E, acima de tudo, afasta-te dos advogados, é provável que te metam em sarilhos"***).

E a de Séneca: "Vivez chaque jour comme si ce jour representait les limites de votre vie et rendez-le aussi agreable que possible parce qu’il contient la seule realite dont vous disposiez" (ou, em português, "Viva cada dia como se esse dia representasse os limites da sua vida e torne-o tão agradável quanto possível, porque ele contém a única realidade de que dispõe").

Assim, com esta ‘bagagem’ ética e moral, não admirará que o lema de Calouste Gulbenkian – como coleccionador, sim, mas não só – fosse "only the best is good enough for me" (ou, em português, "apenas o melhor é para mim suficiente").




*** Curiosamente, o sítio da Fundação Calouste Gulbenkian na "Internet" (https://gulbenkian.pt/) refere o seguinte: "Em testamento (1953) deixou importantes legados aos seus filhos, definiu pensões vitalícias para outros familiares e colaboradores, e estabeleceu a constituição de uma fundação internacional, com o seu nome, herdeira do remanescente da sua fortuna, com sede em Lisboa, presidida pelo seu advogado de confiança, Lord Radcliffe. A ele confiou a missão de agir em benefício de toda a "humanidade"".

31/12/2019

Gente e lixo

Séculos depois de o médico Garcia de Orta ter escrito – em "Colóquios dos Simples e Drogas da Índia" que "Digo que se sabe mais em um dia agora pelos portugueses, do que se sabia em 100 anos pelos romanos", parece-me oportuno lembrar alguns números que gostaria que não fossem esquecidos.

a) Todos os dias "há mais" cerca de 225.000 pessoas na Terra;

b) Todos os anos, cerca de 8 milhões de toneladas de plástico ‘inundam’ os oceanos do planeta;

e

c) Todos os anos, no mundo, cerca de 50 milhões de toneladas de "lixo electrónico" (telefones móveis, computadores portáteis e "tablets", por exemplo) são deitadas fora – acompanhadas dos respectivos ‘fumos’, muitos deles tóxicos.

30/12/2019

A casa de Richard Wagner

A construção da casa que o compositor alemão Richard Wagner foi habitar na década de 1870 foi patrocinada pelo rei Luís II da Baviera (que ficaria 'conhecido' como "Luis, o rei louco").

A construção, apenas. Não o lema que o autor acabou por colocar na frontaria da casa: "Hier wo mein Wähnen Frieden fand – Wahnfried – sei dieses Haus von mir benannt" ("Aqui, onde a minha Loucura encontrou a Paz – Wahnfried – é a minha Casa", em português).

De facto, a loucura e a paz de Wahnfried permitiram a Wagner compor algumas das peças mais brilhantes da História musical europeia do século XIX como o drama (musical) "Parsifal".

Composto em 1882, "Parsifal" estrear-se-ia em Portugal (no Teatro Nacional de São Carlos) em 1921.

28/12/2019

Mudança de nome

Muitos países africanos mantiveram, durante décadas, em uso corrente no seu sistema monetário o Franco CFA.

Fruto da colonização francesa, sobretudo.

No entanto, durante o passado fim-de-semana, nem mais, nem menos, do que oito desses países - Benim, Burkina Faso (o antigo Alto Volta), Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Mali, Níger, Senegal e Togo - acordaram com a França dar um novo nome a essa moeda: Eco.

Mas o Eco continuará, como o Franco CFA, a estar indexado ao Euro europeu.

Ou seja, mudança de nome mas ... pouco mais.

27/12/2019

Livros e homens

Há poucos dias, alguns funcionários de uma biblioteca – supus que pública – localizada na zona Noroeste da China, queimou, depois de uma ‘limpeza’, mais de meia centena de livros que considerou ilegais.

Ora, tal acto inquietou-me muito porque um livro é para mim preciosíssimo e, como tal, creio que era incapaz de o fazer de forma voluntária (não que tais funcionários o tivessem feito, bem entendido).

Mas também me inquietou porque me lembrei novamente das palavras que Heinrich Heine, poeta alemão do século XIX, escreveu (e que já citei aqui no blogue): "Quem começa por queimar livros, acaba por queimar homens".

26/12/2019

Os judeus e o Marquês de Pombal

O comendador Inácio Steinhardt lembrou já no seu livro "Raízes dos judeus em Portugal : entre godos e sarracenos" que quando "D. Afonso Henriques obteve o reconhecimento do seu reino independente, em 1143, já viviam judeus na Península há pelo menos um milénio".

Ora, o historiador e professor Charles Ralph Boxer, também no seu livro "O Império Marítimo Português 1415-1825" escreveu sobre a existência de "uma história muito conhecida segundo a qual D. José estava a considerar uma proposta da Inquisição no sentido de que todos os cristãos-novos [judeus convertidos ao cristianismo] do seu reino deveriam ser obrigados a usar chapéu branco como um sinal de que tinham sangue judeu. No dia seguinte, [o Marquês de] Pombal apareceu no gabinete real com três chapéus brancos, e explicou que tinha trazido um para o rei, outro para o inquisidor-mor e outro para si próprio".

De facto, segundo vários estudos genéticos que têm vindo a ser feitos, serão actualmente cerca de 20% (ou mesmo mais) dos portugueses aqueles que têm ascendência judaica.

Ou seja, atingindo uma percentagem talvez maior do que aquela existente, por assim dizer, em países como os Estados Unidos da América ou a Rússia, a muitos portugueses ‘dirá’ muito (desculpe-se-me a repetição) o lema de Israel – "ישראל" ("Israel", em português).


***


Quem quer que visite a igreja da Memória, em Lisboa, não deixará, decerto, de ficar impressionado com o facto de a urna que contém os restos mortais de Sebastião José de Carvalho e Melo – o Marquês de Pombal – ser tão pequena quando comparada com muitas daquelas que hoje conhecemos.

No fundo, como é que alguém que foi tão ‘grande’ em vida pôde, na morte, ‘habitar’ tão diminuta ‘caixa’?

Ora, talvez o(s) autor(es) daquilo que o Marquês de Pombal não teria deixado de considerar "uma tão grande afronta" tenha querido transmitir isso mesmo: na morte, todos somos iguais. Grandes e pequenos.






24/12/2019

A URSS e os talibãs

Soldados do exército da União Soviética invadiram no dia 24 de Dezembro de 1979 o território do Afeganistão para auxiliar o governo comunista que comandava o país na sua luta contra as guerrilhas de ‘inspiração’ muçulmana (que dariam ‘origem’ aos tristemente célebres talibãs…).