22/01/2020

A ASEAN e o fim da terra

O lema da Associação de Países do Sudeste Asiático (ASEAN) é "One Vision, One Identity, One Community" (ou, em português, "Uma Visão, Uma Identidade, Uma Comunidade").

Esta associação conta actualmente com dez Estados-membros: Malásia, Indonésia, Filipinas, Laos, Brunei Darussalam, Vietname, Tailândia, Camboja, Singapura e Birmânia.

Ora, a Coreia do Sul, embora não integre o contingente dos países membros da ASEAN, é um importantíssimo parceiro desta associação, quer no que respeita ao ‘volume’ das trocas comerciais, quer no que se refere ao montante dos investimentos que tem vindo a realizar no seu seio, até porque é a quarta maior economia asiática.

Terá sido, efectivamente, um primeiro contacto caracterizado por "Uma Visão, Uma Identidade, Uma Comunidade" o que definiu o encontro do português João Mendes – o primeiro europeu a pisar solo coreano –, em 15 de Junho de 1504.

E também terá ouvido a palavra "Tomal": significando fim da terra, assentava como uma luva à Coreia (e igualmente a Portugal, claro).

21/01/2020

A Grécia e a metrópole


O território de Atenas ocupou toda a península da Ática.


Ou seja, cerca de 2650 quilómetros quadrados.


Tal dimensão tornou-a na maior das Cidades-Estados da Grécia.


Mas a sua grandeza não foi apenas territorial.


De facto, Atenas conseguiu tornar-se na mais importante das "pólis" gregas porque a sua organização política – e social – foi 'seguida' por muitos outros Estados: muitos dos próprios Atenienses teriam consciência da influência que a 'sua' Cidade exercia sobre outras Cidades do 'mundo' grego: Péricles, um dos 'grandes' políticos de Atenas, chegou a afirmar num dos seus discursos ser “a nossa Cidade a escola da Grécia”.


A Atenas dos séculos V e IV a.C. logrou também tornar-se no maior centro de Cultura (na Europa, claro).


Não terá sido, de resto, mera 'obra' do acaso que Keramikos, em Atenas precisamente, tenha sido já considerada a mais extensa necrópole da Antiguidade grega já que terá sido 'utilizada' entre 3000 anos a.C. e o sexto século depois do (suposto) nascimento de Jesus Cristo.


Ora, se é um facto que nunca a colonização grega chegou ao território que hoje se designa Portugal, o mesmo não se poderá dizer de algumas palavras.


Como a palavra metrópole, por exemplo.

Sendo o lema que a Grécia viria a escolher muitos séculos depois do apogeu de Atenas "Ελευθερία ή θάνατος" ("Liberdade ou Morte", em português), foi com toda a liberdade que esta palavra – formada, por sua vez, pelas palavras mêter=mãe + pólis=cidade – acompanhou Portugal em grande parte da sua História.




20/01/2020

Eça de Queiróz, os portugueses e Portugal

Na missiva que escreveu, a partir de Inglaterra (de Bristol, mais concretamente), a Fialho de Almeida em Agosto de 1888, observou José Maria Eça de Queiróz o seguinte:


"Assim diz V. que os meus personagens são copiados uns dos outros. Mas, querido amigo, uma obra que pretende ser a reprodução duma sociedade uniforme, nivelada, chata, sem relevo, e sem saliências (como a nossa incontestavelmente é) – como queria V., a menos que eu falseasse a pintura, que os meus tipos tivessem o destaque, a dissemelhança, a forte e crespa individualidade, a possante e destacante pessoalidade, que podem ter, e têm, os tipos duma vigorosa civilização como a de Paris ou de Londres? V. distingue os homens de Lisboa uns dos outros? V., nos rapazes do Chiado, acha outras diferenças que não sejam o nome e o feitio do nariz? Em Portugal há só um homem que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir: sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto – sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. E é o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos".

18/01/2020

A Ordem da Jarreteira

A Ordem da Jarreteira (ou "The Order of the Garter") é a mais ‘alta’ condecoração da cavalaria do Reino Unido.

Fundada pelo rei Eduardo III de Inglaterra em 1348, apenas a/o monarca do país pôde (e pode) atribuir tal condecoração e somente a personalidades que se tenham destacado pelos serviços prestados à Coroa.

Embora a Ordem da Jarreteira tenha como lema "Honi soit qui mal y pense" (ou, em português, "Envergonhe-se quem vê nisto malícia"), não foi por vergonha, nem por maldade, que o primeiro português a ser agraciado por tal condecoração tenha sido D. João I (fruto do seu casamento com a inglesa Phillipa of Lancaster – ou Filipa de Lencastre) e que o último tenha sido o rei D. Manuel II (que acabou por se exilar em Londres).


17/01/2020

Gulliver e Portugal

O escritor irlandês Jonathan Swift publicou na primeira metade do século XVIII um livro cuja narrativa o faz figurar actualmente como um dos grandes romances da literatura inglesa: "As Viagens de Gulliver".

Pela imaginação e a pena de Swift surgiram, então, as ilhas de Lilliput e de Blefusco.

Ora, o lema dos habitantes desta última era "Rapio Et Abfugio" (ou, em português, "Roubai E Fugi").

No entanto, não foi preciso roubar, nem fugir, para fazer de Portugal – Lisboa (a "Baixa Pombalina") e Mafra (o hoje denominado "Palácio Nacional de Mafra"), por exemplo – o cenário, quase trezentos anos depois de ter sido escrito, d’"As Viagens de Gulliver".

16/01/2020

O espanhol mal falado

Quando o Papa Francisco – o primeiro pontífice jesuíta e também o primeiro com origem no continente americano (Argentina) – se reuniu, em meados de Junho de 2013, com o português José Manuel Durão Barroso, então o presidente da Comissão Europeia, e lhe disse que o português era um "espanhol mal falado" é bem possível que se tenha lembrado do lema do seu pontificado: "Miserando atque eligendo" (ou, em português português bem falado, "Olhou-o com misericórdia e escolheu-o").

Mas o que poderia ainda não saber era que pouco menos de seis anos depois de proferir esse juízo linguístico iria também declarar publicamente que era "preciso ir limpando o Vaticano porque é um Estado que não está a salvo dos pecados e vergonhas de outras sociedades".

15/01/2020

Ribeiro Sanches e a Felicidade

Não foi para a cidade russa de Perm – cujo lema actual é "Счастье не за горами" ("A Felicidade está ao virar da esquina", em português) – mas para Moscovo que o médico e filósofo português (estudara em Coimbra e em Salamanca) António Nunes Ribeiro Sanches se dirigiu, em 1731, a convite da própria imperatriz Ana Ivanovna, sobrinha do também ele imperador russo Pedro, o Grande.

Convite que não foi ‘directo’: foi, de facto, o ‘grande’ professor e médico holandês Herman Boerhaave (na Universidade e na cidade de Leiden) quem indicou Sanches para desempenhar funções junto da soberana russa.

Ora, sendo filho de cristãos-novos (nascido em 1699 em Penamacor, Castelo Branco), fugiu à Inquisição em Portugal e, depois de percorrer alguns dos "centros de cultura" de então, pensou que seria na Rússia que encontraria, finalmente, a felicidade ao virar da esquina: foi, sucessivamente, médico-chefe, médico do exército imperial e médico da Corte.

Mas, perante um novo imperador (Ivan VI) e, principalmente, por ser vítima de intrigas, acabou por sair da Rússia em 1747 dirigindo-se a Paris onde acabaria por falecer mais de trinta anos depois.

Um verdadeiro Aasvero do seu tempo, portanto.