22/02/2020

O Homem ou a vã ambição

"A inclinação mais natural, mais viva, e que mais fortes e profundas raízes tem lançado na natureza humana é o desejo ou apetite da glória".




António Vieira (1608-1697), padre e escritor português

21/02/2020

Paris e André de Gouveia

Saber ler e escrever era, na chamada Idade Média europeia, privilégio de poucos: o único grupo social com acesso à Cultura era o clero.

No entanto, a partir do século XII, e a pouco e pouco, as coisas foram mudando: a crescente complexificação da actividade social, económica e cultural das cidades implicava a necessidade de saber cada vez mais.

Assim surgiram as Universidades.

A primeira surgiu em Itália mas depressa se espalharam por praticamente todos os países da Europa.

A de Paris, por exemplo.

Que cresceu, naturalmente.

De facto, se a França é o país mais visitado do mundo, a Universidade de Paris acolhe hoje cerca de cento e vinte mil estudantes: não terá sido por mero acaso que o lema daquela tenha sido, até há não muitos anos, "Hic et Ubique Terrarum" (ou, em português, "Aqui e em Todo O Lado Na Terra").

Hoje, o lema já não é o mesmo mas o conceito é: "Hic et Ubique Mundi" ("Aqui e em Todo O Lado No Universo", em português).

Ora, foi de Portugal, precisamente, que, no século XVI, o então estudante André de Gouveia se dirigiu para Paris para aí prosseguir os seus estudos.

Para se tornar, anos depois, no reitor da Universidade de Paris.

Mas, cinco séculos passados, não é apenas o seu nome que a Casa de Portugal que se situa no "campus" da Cidade Universitária Internacional de Paris evoca – Casa de Portugal André de Gouveia.

É, também, o seu exemplo.

20/02/2020

A liberdade dos Açores

Actualmente, a Região Autónoma dos Açores é uma das sete regiões ultraperiféricas da União Europeia.
Ora, uma das razões por que uma região é considerada ultraperiférica tem a ver com a sua dependência económica de uma pequena quantidade de produtos.
A região – que se localiza a cerca de 1600 quilómetros do continente português** e tem como lema "Antes morrer livres que em paz sujeitos" –, livre e em paz, mas pobre, estará cada vez mais nas mãos do Turismo para que se possa desenvolver económica, social e culturalmente.



** E a cerca de 2454 quilómetros do continente americano (do Canadá).

19/02/2020

Descubra as diferenças

Talvez não seja assim tão difícil qualificar a artista peruana Daniela Ortiz com uma das palavras que compõem o lema do seu país: "Firme y feliz por la Unión" ("Firme e feliz pela União", em português).

A palavra firme, claro.

Ora, a exposição "O ABC da Europa Racista" que esteve patente, já em 2019, na Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea, em Almada, foi assim descrita por uma espécie de folheto explicativo:


"A obra de Daniela Ortiz (Perú, 1985) debruça-se sobre a continuada presença na estrutura da sociedade contemporânea (especialmente na europeia) de um sistema colonialista sobre as políticas racistas e de controlo migratório no espaço europeu.
Ortiz apresenta-se como uma voz radical que critica abertamente a dimensão histórica e contemporânea do racismo e do colonialismo, e que usa o espaço do museu como lugar para desvendar, tornar visível e condenar um sistema que perpetua estas duas realidades".

18/02/2020

O destruidor fiel

O lema do estado alemão da Baviera antes do termo da I Guerra Mundial era "In Treue fest" (ou, em português, "Firme na Lealdade").

Embora não tenha a (absoluta) certeza se era este ou não o lema na Alemanha na "segunda metade" do século XVI, o livro que o historiador Joel Harrington na Universidade de Vanderbilt (no estado norte-americano Tennessee) publicou há cerca de seis anos sobre a vida de um carrasco de profissão, Frantz Schmidt, oriundo desse estado germânico, não hesitou em classificá-lo de fiel: "The Faithful Executioner: Life and Death, Honor and Shame in the Turbulent Sixteenth Century" (livro não traduzido em português).

Ora, a exposição "Instrumentos Europeus de Tortura e Pena Capital – Desde a Idade Média até ao Século XIX" que o Palácio das Galveias, em Lisboa, acolheu no fim da década de 1990 permitiu aos visitantes perceberem melhor uma dimensão dessa firmeza e dessa lealdade e terá também permitido, sobretudo, colocarem uma só questão a si próprios: como é que o espírito humano pode inventar instrumentos para, fisicamente, torturar o Outro e, espiritualmente, destrui-lo inteiramente?

De facto, como escreveu o astrofísico canadiano Hubert Reeves no seu "Malicorne": "No pequeno Homo Sapiens tudo é excessivo. Nele, intimamente misturados, estão o sublime e o horrível. Há nele, em potência, Wolfgang Amadeus Mozart e Adolf Hitler".

15/02/2020

A educação

"Educação é aquilo que a maior parte das pessoas recebe, muitas transmitem e poucas possuem".



Karl Kraus (1874-1936), escritor austríaco

14/02/2020

Liberdade, justiça e a escravatura

O lema actual da República do Gana é "Freedom and Justice" ("Liberdade e Justiça", em português).

Ora, não foi em liberdade e, muito menos, com justiça que um par de seres humanos se uniu matrimonialmente em A-dos-Cunhados há já alguns séculos.

Leia-se, de facto, o respectivo assento que então foi registado na igreja local:


"Aos dezasete dias do mes de Maio de mil e setecentos e quarenta e dois annos nesta Igr.ª de Nossa S.ra da Lus do lugar Dos Cunhados Tr.º da villa de Torres Vedras [A-dos-Cunhados, localidade pertencente ao concelho de Torres Vedras, distrito de Lisboa]: Em minha prezença, e das testemunhas abaixo assignadas se cazarão por palavras de prezente in facie Ecclesia = Joseph dos Santos homen preto n.al da Costa da Mina filho de pais gentios baptizado nesta Freg.ª aonde se dezobrigou: e Maria dos Anjos molher preta n.al de Angola filha de pais gentios baptizada na mesma cid.e; e se dezobrigou nesta Igr.ª ambos escravos de xxx xxxx do Cazal da Serpigeira desta Freg.ª e m.os em caza dot.º seu S.or: os quais admitti a çelebrarem o dito sacram.to do matrimonio, por ordem, que fica em meu poder, do D.or xxx xxx xxxx providor dos cazamtos: guardando, em tudo o mais aforma do Sagrado Concilio Tridentino, e Constituiçois deste Arcebispado: testemunhas, que prezentes estavão xxx xxxx Senhor dos ditos cazados e xxxx xx xxxx filho de xxxx xx xxxxx ambos desta Freg.ª de que fis este assento que assignei dia, mês e era ut s.ª


O Cura xxxx xxxx
[e respectivas testemunhas]"


Na verdade, a Costa da Mina é hoje ‘casa’ de uma das mais antigas fortificações com origem europeia no continente africano já que foi construída pelos portugueses em 1482: como refere, de resto, a página da UNESCO, "a parte velha da cidade de Elmina é, provavelmente, o exacto ponto onde foi estabelecido o primeiro ponto de contacto entre Europeus e Africanos [ao Sul do deserto Saara]".

No entanto, rapidamente esse contacto enveredou pelo caminho da transacção comercial.

Em que os ‘objectos’ comprados e vendidos eram pessoas.

Assim, segundo algumas estimativas, entre dez e vinte e oito milhões de africanos foram transportados através do oceano Atlântico entre os séculos XV e XIX para a América (do Sul, Central e do Norte).