07/05/2019

O fim do nazismo

O general alemão Wilhelm Keitel assinou no dia 7 de Maio de 1945 a rendição incondicional da Alemanha nacional-socialista no quartel-general do norte-americano também general Dwight Eisenhower, em Reims (na França).

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 A Alemanha teve de render-se duas vezes: a primeira perante os Aliados em Reims, precisamente e a segunda perante a União Soviética que exigiu a consagração da sua própria vitória contra o nazismo no dia 9 de Maio, em Berlim (capital alemã).

06/05/2019

Contributos para uma história da espionagem

Costuma dizer-se que algumas actividades são tão antigas quanto o Homem.

Ora, a espionagem é uma delas.

É claro que também ela tem, como o Homem, vindo a tornar-se mais complexa nas suas características exteriores embora o 'intuito' tenha sido sempre o mesmo: obter informações de forma mais ou menos legal.

Se, durante muito tempo, foi essencial recorrer-se a pessoas para espiar outras pessoas e organizações, uma das 'tendências ' que se tem vindo a verificar é uma "tecnologificação" da espionagem acompanhando, naturalmente, a dependência, crescente, da Electrónica nas várias dimensões da existência humana (na Comunicação, por exemplo).

Recordo, de facto, o sistema "ECHELON".

Implementado pelos governos dos Estados Unidos da América, do Canadá, do Reino Unido, da Austrália e da Nova Zelândia no início da década de 1970 para monitorizar as manobras militares e os contactos diplomáticos da então União Soviética (e seus aliados), o sistema ECHELON foi-se tornando, sobretudo depois do fim desta, num meio para alcançar o controlo massivo das comunicações desde logo privadas registadas em todo o mundo.





Post scriptum: foi revelado há não muitos anos que as GAFA - as letras iniciais das empresas Google (a mesma que 'acolhe' o domínio blogspot...), Apple, Facebook e Amazon - estavam ao serviço do governo norte-americano no sentido de espiar todas as comunicações electrónicas feitas no planeta. Pergunto, de resto, o seguinte: se se tomar tudo isto em consideração não se poderão qualificar como hipócritas as acusações de que a empresa chinesa de telecomunicações Huawei pretende instalar uma espécie de rede de espionagem electrónica?













04/05/2019

Shakespeare e Saramago

O pai daquele que viria a tornar-se num dos mais populares poetas ingleses – William Shakespeare – obteve, no final do século XVI, autorização para usar um brasão.


Tal significava, desde logo, uma ascensão social: passava-se a ser uma família nobre.


Assim, era-se autorizado a exibir o brasão à entrada da casa onde se vivia e a gravá-lo na respectiva mobília.


Ora, o lema da família Shakespeare foi "Non Sans Droit" ("Não Sem Direito", em português).


William Shakespeare nasceu em Abril de 1564 e faleceu em Abril de 1616 e todos os anos a pequena cidade britânica de Stratford-upon-Avon recebe não apenas o Festival Literário mas também milhões de turistas que querem calcorrear as ruas e os locais que um dos mais famosos (se não mesmo o mais famoso...) escritores de língua inglesa terá percorrido.

Já em Portugal, por exemplo, concluiu-se já que "Mafra continua sem atrair turismo literário por manter fora da visita ao palácio e à vila a abordagem a José Saramago e à sua obra, 20 anos depois da atribuição do Nobel da Literatura".

03/05/2019

"Os portugueses vistos..."

Ainda ontem aqui citei duas personalidades que, por razões certamente diferentes e separadas por alguns anos de distância, confluíram no ‘diagnóstico’: a ‘imagem’ de Portugal era, então, muito ‘pobre’ e difusa na Ásia.

Mas seria muitíssimo interessante para mim perceber, hoje, em 2019, que estereótipos e generalizações existem sobre os portugueses por esse mundo fora.

Lembro, de qualquer modo – e apesar de ser evidente que as ‘visões’ a seguir transcritas estavam, como não poderia, talvez, deixar de ser , imbuídas de um conjunto de estereótipos e generalizações criados e ampliados pelo facto de aqueles portugueses serem dominadores e conquistadores – um excerto de um compêndio escolar de História que utilizei quando era estudante do ensino secundário:


Os Portugueses vistos…

...pelos Africanos
Um dia sobre o mar surgiu um grande barco. Tinha asas brancas e brilhantes como facas ao sol. Homens brancos saíram da água dizendo palavras que ninguém compreendia. Os nossos antepassados tomaram medo e pensaram que eram «vumbi», almas do outro mundo. Conseguiram fazê-los regressar ao mar disparando nuvens de flechas. Mas os «vumbi» começaram a cuspir fogo com um barulho de trovão…

Tradução oral africana, in F. Braudel, Civilização Material…, III.


...pelos Chineses
Pode dizer-se que o objectivo primeiro da vinda dos Fu-lang-chi [os Portugueses] para a China foi o comércio (…).
As gentes Fu-lang-chi são altas e têm grandes narizes. Os olhos são como os do gato e a forma da boca como a da águia. O pêlo cresce-lhes até nas costas das mãos e as suas barbas são vermelhas. Amam o comércio e, apoiados no seu poder militar, têm o hábito de invadir e oprimir os países mais pequenos. Vão a qualquer sítio onde haja lucro (…) Usam roupas limpas e bonitas...Sempre que surge uma disputa, apontam para o céu e juram dizer a verdade.

História dos Ming (adaptado).


...e pelos Japoneses
Estes homens [os Portugueses] são comerciantes (…). Bebem em copo sem o oferecerem aos outros. Comem com os dedos (1) e não com pauzinhos como nós (…). São gente que passa a vida viajando de aqui para além, sem morada certa, e trocam os produtos que possuem pelos que não têm, mas no fundo não são má gente.

Crónica Teppo-Ki (adaptado).

(1) No século XVI, os Europeus ainda só raramente usavam o garfo..

02/05/2019

Uma nova era

O Japão iniciou ontem uma nova 'etapa' da sua história com a era Reiwa do centésimo vigésimo sexto (126) imperador do país, Naruhito.


Espero, sinceramente, que esta nova era no País do Sol Nascente traga também, no que a Portugal diz respeito, um novo impulso às relações culturais até pelo facto do próprio Naruhito ser historiador .


Lembro, de facto, algumas linhas que o escritor e investigador Joaquim Magalhães de Castro - creio que 'baseado', precisamente, no Oriente - escreveu no livro "Oriente Distante" (publicado em 2012): "Quatrocentos e cinquenta anos após a chegada ao Japão da nossa Nau do Trato, o karafune (barco negro), o que é que se sabia dos usos e costumes desse povo à beira-mar esquecido que, um dia, lhes trouxe o teppu, vulgo, espingarda, que, segundo alguns historiadores, teria contribuído decisivamente para o estabelecimento do Japão como estado moderno? Nada. Ou quase nada. Se fizéssemos a pergunta a um japonês comum, a resposta era um inevitável castera. Ou seja, castela, o abastardamento do pão-de-ló aqui introduzido pelos marinheiros quinhentistas, e que depressa se transformaria no doce favorito dos japoneses. Para além disso, talvez os nomes Rosa Mota, Amália Rodrigues ou de qualquer ocasional jogador de futebol acendessem uma luzinha na mente dos cidadãos mais inclinados para o que chegava de fora desse país asiático, que, embora se fartasse de construir pontes de cultura com o resto do mundo, permanecia teimosamente uma ilha, acima de tudo. E pronto. Arquivados ficariam no esquecimento séculos de contactos entre os namban jin e os autóctones das ilhas do Sol Nascente.".





Post scriptum: D. Duarte Pio, pretendente ao trono português – citado pelo jornal Diário de Notícias no segundo dia de Dezembro de 1986 –, revelou, na cerimónia comemorativa do Dia da Restauração da Independência que havia tido lugar no dia anterior numa das salas do lisboeta Castelo de São Jorge que, no decurso da sua recente visita ao Extremo Oriente, havia sentido existirem ainda, para com Portugal, sentimentos de prestígio e reconhecimento na região apesar da "actual quase ausência de expressão cultural e económica portuguesa nessas paragens".

30/04/2019

O 'peso' da História e o dos 'heróis'

Um artigo de opinião com o título "Hong Kong, like India, needs to remember the truth about british colonialism" que a edição "online" do jornal South China Morning Post publicou há alguns anos afirmou, por exemplo, existirem "em Moscovo, dois memoriais, construídos pelo Estado, em honra dos milhões de vítimas de Stalin, incluindo um "museu do Gulag". No entanto, em Washington como em Londres, não existem quaisquer monumentos dedicados aos horrores da escravatura e às crueldades do colonialismo.". 

Ora, penso que lembrar o conteúdo deste artigo de opinião é duplamente oportuno.

Por isto:


a) o domínio político da Índia pelo Reino Unido durou de 1757 até 1947. Ora, em 13 de Abril de 1919 – e numa altura em que Winston Churchill ocupava o cargo de secretário de Estado da guerra –, um chefe militar britânico ordenou aos militares que comandava que disparassem sobre uma multidão que se encontrava reunida pacificamente assassinando, desse modo, centenas de pessoas. No entanto, tal chefe militar acabou mesmo por receber, anos depois, honras de Estado no seu funeral ‘apagando-se’ assim as suas responsabilidades - e as da própria potência colonizadora e seus agentes políticos - naquele que é ainda hoje lembrado como o "massacre de Amritsar";


b) E já em 1943, em plena II Guerra Mundial, o estado de Bengala viu morrer cerca de três milhões de pessoas. Assassinadas pois, já que morreram de fome quando, segundo um estudo publicado no jornal Geophysical Research Letters em Fevereiro passado, a comida disponível na Índia foi 'exportada' para a metrópole colonizadora para auxiliar nos esforços de combate à tirania do Eixo... Ora, que ´titulo’ se atribui a alguém que mata pessoas? Assassino e, eventualmente, genocida, certo? (lembro também que Winston Churchill foi o primeiro-ministro do Reino Unido entre 1940 e 1945).


Recordo, apenas, que nunca as autoridades britânicas pediram formalmente desculpa pelo sucedido em 1919 (e suponho que também nunca o tenham feito em relação ao genocídio de 1943).





Post scriptum: afirmo também, uma vez mais, a necessidade de que em Portugal, para honrar uma dimensão negativa da sua História - e honrar igualmente a memória dos muitos milhões de seres humanos que colonizou e escravizou -, embora de forma muito tardia, claro, se edifiquem núcleos museológicos e educativos e que, sobretudo, tal se 'fale' seriamente na Escola.

29/04/2019

Macau e o desprezo de Portugal

Ainda não há muito tempo me referi ao facto de um determinado manual escolar actualmente "em vigor" em Portugal não ser cientificamente rigoroso no que à Inquisição se referia.

Não querendo, efectivamente, generalizar essa ‘insuficiência’ aos manuais escolares ‘dedicados’ à História ou sequer aos manuais escolares de apoio a outras disciplinas, pretendo invocar o que parece ter sido um perfeito exemplo dessa ‘insuficiência’ que ‘recebi’, enquanto estudante do então ensino preparatório (no 6.º ano de escolaridade, se não estou em erro), em relação a Macau.

Ora, o manual escolar que me serviu de apoio no início da década de 1990 na disciplina de História ‘forneceu’ um mapa em que se indicavam os principais locais de fixação e de comércio dos portu-


Veja-se, por exemplo, a localização geográfica de Macau...

-gueses na costa oriental africana e no Oriente (na Ásia, pois) à data da morte do rei D. Manuel I, em 1521. Penso, até, que a falta de rigor com que assinalou a localização geográfica de Macau poderá ter contribuído para a crítica que, em 2004, o então subdirector dos Serviços de Turismo daquele território chinês teceu: Portugal nunca teve a exacta noção do que era Macau.

Creio, de resto, que só este desconhecimento podia – e pode – explicar o facto de em Portugal alguns invocarem palavras como compreensão e entendimento para descreverem a relação secular entre portugueses e chineses em Macau: a verdade é que, em quase cinco séculos de presença portuguesa em Macau, portugueses – e chineses, claro – raramente se ‘cruzaram’ com os modos de ser e estar do Outro uma vez que, salvo raríssimas excepções, nem sequer tinham aprendido a cumprimentar-se nas suas línguas ‘maternas’.