O jornal O Tempo publicou, "às portas" do século
XX, um texto escrito por José Maria Eça de Queiróz intitulado "Os
vencidos da vida".
"O
que de resto parece irritar o nosso caro Correio da Manhã é
que se chamem vencidos aqueles que para todos os efeitos
públicos parecem ser realmente vencedores. Mas (…) para um
homem ser vencido ou derrotado na vida depende, não da realidade
aparente a que chegou – mas do ideal íntimo a que aspirava. Se um
sujeito largou pela existência fora com o ideal supremo de ser
oficial de cabeleireiro, este benemérito é um vencedor, um
grande vencedor, desde que consegue ter nas mãos uma gaforina
e a tesoura para a tosquiar, embora atravesse pelo Chiado cabisbaixo
e de botas cambadas. Por outro lado, se um sujeito aí pelos vinte
anos, quando se escolhe uma carreira, decidiu ser um milionário, um
poeta sublime, um general invencível, um dominador de homens (ou
mulheres segundo as circunstâncias), e apesar de todos os esforços
e empurrões para diante, fica a meio caminho do milhão, do poema ou
do penacho – ele é para todos os efeitos um vencido, um morto da
vida, embora se pavoneie por essa Baixa amortalhado numa sobrecasaca
do Poole e conservando no chapéu o lustre da resignação".
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