13/03/2019

"O Naufrágio das Civilizações"

Tem, no dia de hoje, a sua data de lançamento o novo livro do escritor franco-libanês Amin Maalouf "Le Naufrage des Civilizations" (ou, em português, "O Colapso das Civilizações").

Nele, o autor - membro da Academia Francesa desde 2011 (criada, por sinal, em 1635 pelo primeiro-ministro do rei Luis XIII, o Cardeal Richelieu, para preservar a língua francesa) - que consagrou toda a sua obra à tentativa de aproximação das civilizações do mundo, analisa as consequências do "choque das civilizações" proposto, há anos, pelo cientista político norte-americano Samuel Huntington.

Espero que este livro contribua para reflectirmos séria e profundamente sobre o actual estado da existência humana e ajude a 'salvar-nos' daquilo que a socióloga norte-americana de ascendência norueguesa designou em tempos de "exaustão temporal" ("se se está mentalmente exausto o tempo todo no presente, não há energia disponível para imaginar o futuro", explicou).



Post scriptum: tal como espero que a exposição que o Museu Judaico de Londres inaugurará no próximo dia 19 - "Judeus, Dinheiro, Mito" (tradução portuguesa) - ajude os visitantes a adquirir um maior e melhor conhecimento do que significou, ao longo do tempo, ser-se Judeu. Em Inglaterra, pelo menos, pois, por exemplo, no Portugal dos séculos XII, XIII, XIV e XV, sobretudo, eram judeus quem 'compunha' a esmagadora maioria (dos poucos) que sabiam ler e escrever...

12/03/2019

"In varietate concordia"?

Apesar de conter em si mesmo uma das características fundamentais da Democracia – o compreender-se e aceitar-se a chamada diversidade (étnica, de opinião, por exemplo) –, terá imensas dúvidas quem quer que se interrogue, em Portugal, como em quase trinta países, sobre o facto do lema da União Europeia – "In varietate concordia" ("Unidos na diversidade", em português) – poder ter sido inicialmente concebido a pensar na retórica (e na violência física que, não raras vezes, a tem acompanhado) do anti-semitismo, da chamada extrema-direita e do "populismo".

Ora, esse "quem quer que se interrogue" poderia mesmo convocar o pessoal político que governa actualmente a Europa para a/o ajudar a compreender melhor essa questão.


Isto no sentido figurado, claro.


Mas não é no sentido figurado que podem ser entendidas as conclusões de um dos mais recentes estudos do Eurobarómetro - o número 90, "Public opinion in the European Union": não são muitos os cidadãos europeus satisfeitos com a governação da União Europeia.


Embora a 'leitura' adoptada no boletim refira, compreensivelmente, que "mais de quatro em cada dez cidadãos europeus confiam na União Europeia" – e que mais de um terço destes confia no 'seu' governo e no 'seu' Parlamento nacionais –, pode fazer-se uma outra 'leitura'.


Que é esta: 48% dos mais de 500 milhões de cidadãos que vivem no seio da União Europeia não confiam, pura e simplesmente, nas instituições governativas da União (desde logo, a Comissão) e 65% não se revêem nem na equipa governativa do seu país, nem nos deputados (e no trabalho que fazem) nacionais.


De facto, uma maioria importantíssima de cidadãos europeus está completamente 'afastada' da política – nacional e europeia – e vive, se bem que preocupada (com a Imigração, com o Terrorismo e com a Economia, por exemplo), apesar da política e dos agentes políticos.


Perante tão avassaladores números – ou melhor, perante tão avassaladoras realidades 'ilustradas' por números –, "In varietate concordia"?

11/03/2019

O Terrorismo na Europa

Assinala-se hoje, 11 de Março, o Dia Europeu pelas Vítimas do Terrorismo.

Instituído pelo Conselho Europeu em 2004 na sequência dos trágicos atentados em estações ferroviárias na capital espanhola, este pretende lembrar todos aqueles que, na Europa, perderam a vida na sequência de ataques de índole terrorista e, ao mesmo tempo, alertar a consciência da chamada opinião pública para a necessidade de combater o Terrorismo e para a importância de promover a defesa dos direitos humanos.

Creio ser, por isso mesmo, o momento adequado para lembrar um facto.

Que é este: o lema da República francesa é "Liberté, Égalité, Fraternité" ("Liberdade, Igualdade, Fraternidade", em português) e surgiu como símbolo dos ideais da Revolução de 1789.

No entanto, esse símbolo político parece não ter durado muito.

Ainda que as palavras "Liberté" e "Égalité" figurassem na redacção do artigo primeiro da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão elaborada nesse mesmo ano de 1789, apenas a Constituição de 1848 o veio consagrar – e à II República – e, depois, as Constituições de 1946 e de 1958 sendo actualmente património do Estado francês e lema dos valores e princípios da República.

Mas o movimento revolucionário que eliminou o regime de monarquia absoluta de França não trouxe somente declarações ‘pomposas’ e princípios eticamente inabaláveis. Ele deu origem a um outro movimento que seria, ao longo do tempo, usado para fazer reivindicações por via mais ou menos violenta – e a que Portugal, exceptuando um determinado período da sua História (o pós-25 de Abril, nomeadamente), tem vindo a conseguir escapar: o Terrorismo.

De facto, diz o epitáfio de inscrito na campa que 'acolhe' os restos mortais de Maximilien de Robespierre o seguinte: "Passante, não chores a minha morte porque se eu vivesse tu morrerias" (em língua francesa, no original).

Na verdade, Robespierre, à cabeça de um governo revolucionário a partir de Outubro de 1793, foi o responsável máximo pela perseguição a dezenas de milhares de suspeitos de organizarem e/ou participarem em actividades consideradas ‘contra-revolucionárias’ – e a sua condenação e posterior execução – tendo o período que, então, se iniciou ficado conhecido como Terror.

De resto, como escreveu o articulista António Guerreiro na coluna que assina, semanalmente, no suplemento Ípsilon (do jornal Público) publicado em meados de Junho de 2016 - "Estação Meteorológica" - "Os estudiosos da história do terrorismo situam o início na época do Terror da Revolução Francesa [que tinha como lema Liberdade, Igualdade, Fraternidade]. É aí, como terrorismo de Estado, que nasce o terror moderno e o termo "terrorismo".".

Assim, é o Estado (francês e, claro, europeu) o "pai" do Terrorismo…

Acrescento, apenas, que me entristece e me preocupa bastante o facto de que os líderes políticos europeus (e não só, evidentemente), não percebam (ou será que não querem perceber?) algo que até nem acho que seja assim tão difícil perceber: que qualquer ideário xenófobo e extremista (como o defendido – e executado – pelo Estado Islâmico, por exemplo) tem procurado e procurará sempre tornar-se "um refúgio para jovens frustrados com a ausência de perspectivas de futuro" preenchendo, assim, uma espécie de vazio originado pelo fracasso dos modelos de socialização propostos (impostos…) pelos sistemas de organização social, económica e cultural tradicionais.

09/03/2019

Conversar o resto dos meus dias

Diz a ‘montra’ da loja interativa de turismo de Penafiel, citando o escritor José Saramago, o seguinte:



"E simplesmente descubro que seria perfeito poder reunir em um só lugar, sem diferença de países, de raças, de credos e de línguas, todos quantos me lêem, e passar o resto dos meus dias a conversar com eles".



Eu, mero leitor do escritor (o qual me chegou a autografar um livro – "Ensaio sobre a Lucidez" – e me deu um aperto de mão…), escolho, naturalmente, uma outra abordagem: a de que seria um imenso privilégio poder passar o tempo que me resta de vida a conversar com José Saramago e com outras personalidades cuja vida terrena, pelo contrário, cessou já.



Nomeio somente duas: o rei português D. Duarte, o Rei-Filósofo (autor, por exemplo, do livro "Leal Conselheiro") que viveu entre os séculos XIV e XV, e o escritor também português Eça de Queirós (autor, entre muitos outros escritos, de "Os Maias") cuja vivência remonta, ‘apenas’, ao século XIX.



A maior virtude daquilo que deixaram escrito é, em minha opinião, a sua actualidade - no tempo em que viveram e no futuro (o tempo presente).



Feliz e infelizmente.

08/03/2019

O Cabo Espichel

Muito antes de Portugal ter definidas politicamente as suas fronteiras continentais (e, claro, também muito antes de estar situado numa unidade territorial e administrativa – o concelho – com o nome Sesimbra), já os perigos e as virtudes do que se viria a designar de Cabo Espichel eram por muitos conhecidos.


De facto, o "Cabo Espichel foi um ponto de perigo das rotas marítimas da antiguidade, sendo assinalado em roteiros do século VI a.C e IV d.C como "Akra Barbarion" e "lugum Cempsicum". No século XVIII é construído um farol que facilitava a navegação junto ao cabo, e que ainda está em serviço. A localização estratégica do promontório do Espichel levou à construção do forte de Nossa Senhora do Cabo, terminado em 1672, mas que em meados do século XIX é abandonado, entrando em ruína".


Ora, à excepção da igreja de Nossa Senhora do Cabo (construída entre 1701 e 1707) e da Ermida da Memória (cuja data de construção remonta ao século XV), em ruínas (ou quase) encontram-se hoje as restantes edificações no Cabo Espichel: a Casa da Ópera (construída em 1770) e a Casa da Água (também erigida em 1770) bem como o Aqueduto.


Que imensa tristeza sinto.

07/03/2019

A mudança da hora

Foi o próprio Benjamin Franklin – um dos ‘pais’ fundadores dos Estados Unidos da América – quem, na segunda metade do século XVIII, propôs a mudança da hora.

Isto é, mexer-se nos ponteiros dos relógios duas vezes em cada ano: antes do Inverno e antes do Verão.

O objectivo era economizar energia (trazida, à época, por velas).

Se, no entanto, tal poupança era, em si mesma, completamente legitima, não foi senão muito recentemente que esta mudança horária conseguiu ser consensual pois, por exemplo, foi apenas nos últimos anos do século XX que tal medida passou a ser unânime na Europa.

Mas não por muito tempo já que o país do mundo com maior dimensão territorial, a Rússia, abandonou, em 2011, a mudança horária argumentando que a mesma, através da ausência de luz solar em determinados períodos do dia, havia, entretanto, sido a causadora de milhares de mortes anualmente (através de acidentes rodoviários, problemas de saúde e suicídios, sobretudo).

Quais as cenas dos próximos capítulos?

06/03/2019

"Se ele entrar, eu saio"

O futebol adquire, muitas vezes, a capacidade de alcançar outras dimensões que em muito transcendem a desportiva.

De facto, Mohamed Salah, jogador egípcio de uma das mais importantes equipas do principal escalão do campeonato inglês de futebol - a do Liverpool -, terá ameaçado abandonar o clube caso este viesse a assinar contrato com um jogador de nacionalidade israelita.

Efectivamente, creio ser claríssima a oposição política e ideológica (e étnica?) de um jogador árabe a um colega judeu.

Receio que o exemplo de intolerância mostrado por este 'caso' específico possa, também ele, "saltar" a fronteira desportiva e acicatar, ainda mais, um conflito que já dura há décadas (ou há centenas de anos?) e sem fim à vista.