15/04/2019

Napoleão: carinho e sofrimento

O lema do imperador de França Napoleão Bonaparte – coroado em 1804 – foi "La France avant tout" (ou, em português, "A França antes de tudo").

No entanto, talvez não tenha sido apenas a França a merecer o seu apreço.

De facto, três cartas de amor ‘dirigidas’, entre 1796 e 1804, por Napoleão à sua mulher Josefina, foram recentemente leiloadas e vendidas.

Ou seja, ao mesmo tempo que se mostrava, em privado, um ser afectuoso e carinhoso, exibia, para todo o mundo, um espírito belicoso e egocêntrico.

Não creio, de todo, que algumas das gravuras feitas no século XIX – por exemplo, uma delas mostrando Napoleão na companhia da Morte – tenham sido simplesmente sátiras a seu respeito: o Grande Armée de Napoleão – cujo lema era "Valeur et Discipline" (ou, em português, "Valor e Disciplina") – , apesar de sucessos fabulosos (do seu ponto de vista, claro) noutros locais, perdeu cerca de quinhentos mil soldados na chamada campanha da Rússia, em Novembro de 1812.

Quanto a Portugal: se é certo que este se livrou de integrar o reino da Lusitânia que Napoleão queria criar, também não o é menos que, como país aliado da Inglaterra – ‘alvo’ do Bloqueio Continental por parte de França –, Portugal sofreu três invasões pelo "Grande Armée" de Napoleão (que, recorde-se, nascera na Córsega em Agosto de 1769): a primeira, entre 1807 e 1808; a segunda em 1809; e a terceira, entre 1810 e 1811.

Em consequência, a família real optou por abandonar o país e refugiar-se no Brasil.

Ora, D. José António de Meneses e Sousa Coutinho, conhecido como "Principal Sousa", foi, para além de diácono da Igreja Patriarcal de Lisboa, membro da regência do reino de Portugal até Agosto de 1820.

E, para além disso, era também o dono da Quinta de São Pedro, em Almada.

E, ‘voltando’ a Napoleão: mas, e mesmo que o exílio na ilha de Santa Helena – na sequência da derrota, em Waterloo (na actual Bélgica), frente aos soldados ingleses em Junho de 1815 (e à muita chuva, por sinal), não tivesse sido suficiente para parar a sua sanha conquistadora, a própria Morte ter-se-ia encarregado de o fazer ‘através’ de um cancro no estômago em Maio de 1821…




Não creio, de todo, que uma gravura feita no século XIX mostrando Napoleão na companhia da Morte tenha sido simplesmente uma sátira a seu respeito: o Grande Armée de Napoleão, apesar de sucessos fabulosos (do seu ponto de vista, claro) noutros locais, perdeu cerca de quinhentos mil soldados na chamada campanha da Rússia, em Novembro de 1812.

 
Mas, e mesmo que o exílio na ilha de Santa Helena – na sequência da derrota, em Waterloo (na actual Bélgica), frente aos soldados ingleses em Junho de 1815 (e à muita chuva, por sinal), não tivesse sido suficiente para parar a sua sanha conquistadora, a própria Morte ter-se-ia encarregado de o fazer ‘através’ de um cancro no estômago em Maio de 1821...


O exército francês, comandado pelo antigo militar nascido na Córsega Napoleão Bonaparte, causou a morte, directa e indirectamente, a milhares de pessoas.


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Sabia que tinham sido erguidas linhas para defesa de Lisboa (e do próprio Reino) – as Linhas de Torres (que o governo português decidiu, e bem, apesar dos dois séculos passados, classificar como Monumento Nacional) .




Mas o que não sabia era que tinham também sido edificadas na margem Sul do rio Tejo duas linhas de defesa da capital do país de um ataque vindo pelo mar: uma linha, com cerca de sete quilómetros de extensão, situava-se entre Almada e a Costa de Caparica e a outra localizava-se junto a Setúbal.

13/04/2019

A Inquisição em Portugal – parte II

O historiador Jorge Martins referiu também, na entrevista radiofónica que citei, que "No caso da Inquisição, de facto, foi um erro histórico. Nós pagámos caro esse erro a vários níveis: a nível económico, financeiro, cultural, científico, mental e religioso".

No entanto, segundo os autores da "História da Inquisição Portuguesa (1536-1821)", de José Pedro Paiva e Giuseppe Marcocci, "A sua influência continua a sentir-se ainda hoje, em certas dimensões da vida institucional e até nos costumes e modos de ser e pensar".

Ora, se ainda hoje, quase dois séculos passados do fim da Inquisição, Portugal sofre consequências da repressão do Tribunal do Santo Ofício, quem quer que tivesse passado os olhos pela ‘entrada’ dedicada ao Renascimento em Portugal feita pelo "Dicionário de História de Portugal" (‘dirigido’ por Joel Serrão no início da década de 1990), poderia, ao invés, ter ficado com a ideia de que o movimento inquisitorial mais não havia sido do que um mero episódio da História portuguesa: "Durante largo tempo, o País tornar-se-á a plataforma entre a Europa e a África, o Oriente e o Brasil. Adquirem-se novos hábitos de vida, o luxo campeia. Período agitado por sua vez, o Renascimento, desde algumas dificuldades de política interna, a presença armada nas fortalezas do Norte de África e do Oriente, as diligências diplomáticas para a delimitação de territórios ultramarinos, o estabelecimento da Inquisição (…). O que caracteriza iniludivelmente o Renascimento em Portugal é o seu cosmopolitismo, com as consequências que daí advêm; cosmopolitismo em dupla direcção: em direcção à Europa, por um lado, em direcção ao ultramar, por outro lado".

Não foi essa, no entanto, a opinião que cresceu na minha mente.

De facto, como foi possível que, ao mesmo tempo que milhares de portugueses "lidavam", quotidianamente, com o exotismo proporcionado pelas suas viagens no Atlântico, no Índico e no Pacífico – ou seja, aquilo que o então presidente da República, Jorge Sampaio, lembrou no momento da inauguração da exposição mundial de Lisboa, a Expo’98, "Portugal fez do mar a via para se encontrar consigo, com os outros, com o mundo" –, tivesse ‘nascido’ um mecanismo comandado pela Coroa Portuguesa e pela Igreja Católica, a Inquisição, que explorou, da forma mais abjecta e primitiva que a imaginação poderia, certamente, permitir (através dos autos-de-fé, por exemplo) um dos piores sentimentos da espécie humana: a intolerância?

Não tenho, por isso, dúvidas de que a Inquisição – cujo lema era "Misericórdia e Justiça" – impediu sempre a ‘instalação’ em Portugal de um verdadeiro "humanismo global" (nas palavras de Vitorino Magalhães Godinho).

12/04/2019

A Inquisição em Portugal – parte I

Assinalou-se no passado 31 de Março, não no Museu Damião de Góis e das Vítimas da Inquisição, em Alenquer, mas em Lisboa, o Dia da Memória das Vítimas da Inquisição.

Em resultado de uma iniciativa da Assembleia da República – levada a efeito na sequência de uma petição –, tal Dia pretendeu, de facto, destacar a importância desse instrumento de repressão no curso da História de Portugal.

Ora, o historiador que esteve à frente do movimento que culminou na determinação do Dia da Memória das Vítimas da Inquisição, Jorge Martins, lembrou, aos microfones de uma estação de rádio (a TSF, ser ainda preciso alterar os manuais escolares no sentido de dar mais atenção a este período: "Foram 284 anos, dez meses e oito dias de Inquisição. Nos manuais escolares quanto tempo é que se dá ao estudo da Inquisição? A minha filha deu a Inquisição em cinco minutos no oitavo ano. Eu também sou professor de História e a Inquisição nunca mereceu a importância, porque tem uma questão negativa. Como é que se consciencializam as pessoas do nosso passado negativo se não se trata o assunto como deve ser?".

Tomo, no entanto, a liberdade de acrescentar: mais e, sobretudo (muito) melhor atenção.

Por isto: um livro de apoio escolar em relação à disciplina História A actualmente disponível no ‘mercado’ português refere, a páginas tantas, a "nacionalização da Inquisição" em 1769.

Ora, apesar de eu não ser alguém diplomado em História, estranhei esta informação e optei por perguntar acerca da sua pertinência científica a alguém ‘especialista’ na História da Inquisição em Portugal.

Que, muito simpaticamente, me esclareceu: "Não tem pés nem cabeça dizer-se que a Inquisição foi "nacionalizada" em nenhum momento. Os manuais de História tem imensos erros e passagens sem sentido histórico".


 
Dizer-se que a Inquisição (ou Santo Ofício) foi nacionalizada não faz qualquer 'sentido'.




Ou seja, como se não bastasse já o facto de um livro escolar – potencialmente capaz de ser consultado por milhares de alunos – conter um erro – grave, em minha opinião –, creio ser pertinente referir que este livro teve também revisão científica de um historiador (doutorado) e colaborador em "várias universidades e centros de investigação europeus e americanos"...



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Um outro manual escolar recentemente impresso que terá também tido uma "revisão científica" por parte de um especialista em História, salienta, por seu lado, que em 1769 foi a "Inquisição convertida em tribunal régio"…

Sinceramente espero, no entanto, que as palavras que adiante reproduzirei – escritas pelo professor Francisco Bethencourt em "Les Inquisitions Modernes" (publicado em 1992) – permitam ‘eliminar’ essa barbaridade histórica:

"A Inquisição, instituída em 1536 pelo papa [Paulo III] sob pressão de D. João III, afirmou-se com o duplo estatuto de tribunal eclesiástico e de tribunal da coroa. Tribunal eclesiástico, pois funcionou com poderes delegados pelo papa, teve como objectivo a perseguição das diversas formas de heresia e os seus juízes eram clérigos. O alargamento sucessivo da respectiva área de actuação do judaísmo, islamismo e luteranismo à bruxaria, à sodomia, à bigamia, ao comércio ilegal com o Norte de África e às proposições heréticas e blasfémias encontrou ‘respaldo’ no direito canónico. Tribunal da coroa pois a figura do inquisidor-geral era nomeada pelo papa sob proposta do rei e os membros do Conselho Geral eram por aquele nomeados após o rei ser consultado. Aliás, a coroa era regularmente informada sobre a actividade do Santo Ofício interferindo nas suas decisões e atribuiu explicitamente ao dito Conselho Geral o estatuto de conselho régio".


A Inquisição convertida em tribunal régio em 1769: mais uma barbaridade histórica...


11/04/2019

Ainda a falta de visão

Aqui escrevi há dias que me preocupava imenso com a "falta de visão" da esmagadora maioria dos líderes políticos, nacionais e estrangeiros, que nos regem.

Ou seja, não vejo que estes estejam a tomar medidas suficientemente ‘robustas’ para responder aos enormes desafios que o planeta Terra está a enfrentar e irá inexoravelmente continuar a enfrentar.

Invoco, por isso, apenas dois exemplos que me parecem ser bastante ‘claros’ (infelizmente) dessa incapacidade:

– O jornal inglês The Economist publicou, no fim de Março, um artigo na sua edição "online" - "Slower growth in ageing economies is not inevitable" em que ‘disse’ o seguinte: "Na Terra vivem actualmente, pela primeira vez na História, mais indivíduos com 65 ou mais anos de idade do que crianças com menos de 5 anos";

– Estima-se que a população mundial ascenda, em 2050, a cerca de 9,8 mil milhões (ou biliões) e que 70% destes (6,8 mil milhões, portanto) viverá em áreas urbanas.

De facto, por um lado, envelhecimento e, por outro, crescimento e (acelerada) urbanização da população da Terra.

Isto para nada dizer sobre o ‘combate’ às chamadas alterações climáticas...


10/04/2019

Fernão de Magalhães e reescrever a História

Ao saber, há poucos dias, que as autoridades portuguesas e as espanholas haviam apresentado o programa para celebrar os 500 anos da primeira circum-navegação ao planeta Terra (de que fazia parte uma viagem idêntica feita pelos navios-escola Sagres, português, e Elcano, espanhol) quase que se poderia não lembrar a polémica desencadeada em torno da viagem de Fernão de Magalhães.

Polémica porque as autoridades espanholas decidiram ignorar o contributo do navegador português na realização de tal empreendimento e, pelo contrário, enaltecer e “aumentar” a participação de um navegador espanhol: creio, de facto, que foi uma espécie de nacionalismo (xenófobo, claro) que levou a que as autoridades espanholas tenham decidido subvalorizar o papel de Magalhães na idealização, na preparação e na realização – em parte – da primeira circum-navegação feita ao globo terrestre – que, recordo, decorreu de 1519 a 1522 – preferindo “destacar” o papel do navegador espanhol Juan Sebastián Elcano…

Porque, na verdade, as palavras que melhor descrevem, em minha opinião, o contexto político, económico e cultural que envolveu a preparação desta viagem foram escritas pelo historiador português José Manuel Garcia: “A economia e a política espanholas proporcionaram a viagem mas com ciência portuguesa”.

Ou seja, Magalhães, desgostoso com o monarca português da época, D. Manuel I, propôs à Coroa espanhola de Carlos I efectuar tal viagem. Este aceitou e deu ao navegador português todo o apoio logístico e económico necessário. A morte do português, ocorrida durante a viagem, permitiu ao navegador espanhol Elcano completá-la.

Mas se repudio, de facto, as atitudes espanholas, também não subscrevo algumas posições defendidas por portugueses: por exemplo, o professor Joaquim Veríssimo Serrão escreveu, na sua “História de Portugal” (volume III…) que “Mas a viagem de Magalhães acabou por oferecer à Espanha um triunfo histórico que só a Portugal devia em justiça ter cabido.”.

Concluo declarando que fico, enfim, satisfeito por uma parte da História do mundo não ter sido, como alguns (muitos?) desejavam, revista nem alterada e só espero, sinceramente, que tais tentativas de o fazer não venham a ‘beliscar’ a candidatura à UNESCO da Rota de Magalhães.

09/04/2019

A batalha de La Lys


"A madrugada de 9 de Abril de 1918 despertou violenta na Flandres, onde as tropas portuguesas foram esmagadas por uma força alemã muito superior. A batalha de La Lys ficou marcada pela perda de milhares de homens entre mortos, feridos e prisioneiros.



Os alemães chamaram-lhe operação Georgete e o objetivo era romper as linhas aliadas, separar as forças britânicas das francesas e forçar uma mudança estratégica na frente ocidental. Na madrugada de 9 de Abril de 1918, oito divisões alemãs, com cerca de 100 mil homens e mais de mil peças de artilharia, avançaram sobre os 11 quilómetros onde estavam as forças portuguesas, constituídas por duas divisões e cerca de 20 mil homens. As forças portuguesas foram trucidadas, mas resistiram tempo suficiente para permitir aos aliados reforçar a e suster a ofensiva. Os portugueses perderam praticamente metade das suas forças, e ficaram reduzidas a pouco mais de uma divisão tendo registado cerca de 1300 mortos, 4600 feridos, 2000 desaparecidos e mais de sete mil prisioneiros.".









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"Corpo Expedicionário Português


Em 9 de Março de 1916, a Alemanha declarou guerra a Portugal. Cerca de dois meses depois, em 24 de Maio, foi ordenado o recrutamento de todos os cidadãos, sem exceção, com idade[s] entre 20 e 45 anos. O primeiro contingente do Corpo Expedicionário Português partiu para a frente europeia em 26 de Janeiro de 1917 e chegou a Brest em 7 de Fevereiro. Na época as tropas portuguesas já estavam a lutar nos territórios africanos de Angola e Moçambique. Desde a entrada de Portugal na guerra até à assinatura do Armistício, a 11 de Novembro de 1918, o país mobilizou cerca de 105.000 soldados e oficiais. Mais de 75.000 homens foram para a Flandres. E mais de 7.700 homens morreram nas várias frentes de batalha. Quase 50% destas mortes ocorreram em Moçambique e cerca de 35% em França.".



Fontes: http://ensina.rtp.pt/artigo/batalha-de-la-lys-documentario/ e exposição bibliográfica "Grande Guerra 1914-1918: um século depois", átrio da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, Novembro de 2018.

08/04/2019

Aproximação cultural

Não sei se o "campus" que a empresa chinesa de tecnologia Huawei está a construir em Dongguan (na China) tem alguma réplica de exemplares arquitectónicos existentes em Portugal.

É, efectivamente, verdadeiro o facto de a gigante chinesa ter já 127 hectares preenchidos com reproduções de elementos originalmente presentes em várias cidades europeias.

Ora, tendo em conta a crescente 'abertura' ao Ocidente europeu e norte-americano por parte da China e tendo também em conta a história de milhares de anos da civilização do Império do Meio, penso que tais cópias nada mais são do que parte de uma espécie de aproximação cultural ao 'Ocidente' branco...