13/04/2019

A Inquisição em Portugal – parte II

O historiador Jorge Martins referiu também, na entrevista radiofónica que citei, que "No caso da Inquisição, de facto, foi um erro histórico. Nós pagámos caro esse erro a vários níveis: a nível económico, financeiro, cultural, científico, mental e religioso".

No entanto, segundo os autores da "História da Inquisição Portuguesa (1536-1821)", de José Pedro Paiva e Giuseppe Marcocci, "A sua influência continua a sentir-se ainda hoje, em certas dimensões da vida institucional e até nos costumes e modos de ser e pensar".

Ora, se ainda hoje, quase dois séculos passados do fim da Inquisição, Portugal sofre consequências da repressão do Tribunal do Santo Ofício, quem quer que tivesse passado os olhos pela ‘entrada’ dedicada ao Renascimento em Portugal feita pelo "Dicionário de História de Portugal" (‘dirigido’ por Joel Serrão no início da década de 1990), poderia, ao invés, ter ficado com a ideia de que o movimento inquisitorial mais não havia sido do que um mero episódio da História portuguesa: "Durante largo tempo, o País tornar-se-á a plataforma entre a Europa e a África, o Oriente e o Brasil. Adquirem-se novos hábitos de vida, o luxo campeia. Período agitado por sua vez, o Renascimento, desde algumas dificuldades de política interna, a presença armada nas fortalezas do Norte de África e do Oriente, as diligências diplomáticas para a delimitação de territórios ultramarinos, o estabelecimento da Inquisição (…). O que caracteriza iniludivelmente o Renascimento em Portugal é o seu cosmopolitismo, com as consequências que daí advêm; cosmopolitismo em dupla direcção: em direcção à Europa, por um lado, em direcção ao ultramar, por outro lado".

Não foi essa, no entanto, a opinião que cresceu na minha mente.

De facto, como foi possível que, ao mesmo tempo que milhares de portugueses "lidavam", quotidianamente, com o exotismo proporcionado pelas suas viagens no Atlântico, no Índico e no Pacífico – ou seja, aquilo que o então presidente da República, Jorge Sampaio, lembrou no momento da inauguração da exposição mundial de Lisboa, a Expo’98, "Portugal fez do mar a via para se encontrar consigo, com os outros, com o mundo" –, tivesse ‘nascido’ um mecanismo comandado pela Coroa Portuguesa e pela Igreja Católica, a Inquisição, que explorou, da forma mais abjecta e primitiva que a imaginação poderia, certamente, permitir (através dos autos-de-fé, por exemplo) um dos piores sentimentos da espécie humana: a intolerância?

Não tenho, por isso, dúvidas de que a Inquisição – cujo lema era "Misericórdia e Justiça" – impediu sempre a ‘instalação’ em Portugal de um verdadeiro "humanismo global" (nas palavras de Vitorino Magalhães Godinho).

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