18/04/2019

Portugal de outrora. E de agora também?

"Em qualquer aldeiazinha

achareis tal corrupção

qu'a mulher do escrivão

cuida que é uma rainha.

E também os lavradores

com suas más novidades

querem ter as vaidades

dos senhores.".




Fonte: Duarte da Gama no "Cancioneiro" de Garcia de Resende.

17/04/2019

O "crescimento civilizacional" e a poluição

Segundo várias análises (algumas 'oriundas' da Academia), há já alguns anos que o dinamismo do crescimento económico e populacional do mundo deixou, após vários séculos, de estar centrado no Hemisfério Norte (na Europa e na América do Norte, bem entendido) tendo passado, por sua vez, a concentrar-se no Hemisfério Sul (na América, na Ásia e em África).

Mas a 'amplitude' desta mudança não se pode 'medir' apenas em tempo: pode - e deve - ser perspectivada à luz de várias dimensões sendo uma delas a da qualidade do meio ambiente disponibilizado às 'suas' populações.

Nessa qualidade - ou não, claro - 'incluo' a poluição.

Se, de facto, a poluição 'acompanhou' o "crescimento civilizacional" da Europa e da América do Norte, ela não pôde também deixar de 'acompanhar' o "crescimento civilizacional" do restante mundo, por assim dizer.

Aqui lembro, pois, as cidades do mundo que, em 2018, e tendo em consideração os níveis das mais pequenas partículas (e, por isso mesmo, mais perigosas para a saúde humana) que se misturam com o oxigénio que todos respiramos - conhecidas por PM-2.5 -, foram consideradas as mais poluídas:

1 - Nova Deli, na Índia;

2 - Daca, no Bangladesh;

3 - Cabul, no Afeganistão;

4 - Manama, no Bahrein;

5 - Ulaanbaatar, na Mongólia;

6 - Cidade do Kuwait, no Kuwait;

7 - Katmandu, no Nepal;

8 - Pequim, na China;

9 - Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos;

e

10 - Jacarta, na Indonésia.

16/04/2019

A identidade étnica

O filósofo norte-americano William James afirmou, há muitos anos, que "quando duas pessoas se encontram há, na verdade, seis pessoas presentes: cada pessoa como se vê a si mesma, cada pessoa como a outra a vê e cada pessoa como realmente é".


Ora, creio que estando ainda em fase de ponderação pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) a inclusão, no próximo recenseamento populacional, de uma questão sobre a pertença étnica dos respondentes, penso que também a 'validade' científica das respostas obtidas deveria ser bastante ponderada e, enfim, relativizada, em virtude do facto de que elas dependerão sempre das características sociais, económicas e, sobretudo, psicológicas e culturais de quem as der.


Ou seja, de um ser humano. 


Não sendo eu um especialista, resta-me colocar questões: se eu,  português autóctone, me 'classificar' como branco - comparando-me com alguém com um fenótipo (a cor da pele) mais escuro do que o meu, por assim dizer -, continuará esta auto-classificação a ser cientificamente rigorosa se me comparar com alguém cujo 'tom' de pele é mais 'claro' do que o meu?


Ou existirão hipóteses de respostas do tipo "cor branca, grau 1", "cor branca, grau 2" ou "cor branca, grau 3", por exemplo? 


E "cor negra, grau 1", "cor negra, grau 2" ou "cor negra, grau 3", também por exemplo? 


E como responderia também alguém nascido na Ásia: "cor amarela, grau 1", "cor amarela, grau 2" ou "cor amarela, grau 3", ainda como exemplo?


Ou seja, não me parece que as limitações científicas fossem poucas...

15/04/2019

Napoleão: carinho e sofrimento

O lema do imperador de França Napoleão Bonaparte – coroado em 1804 – foi "La France avant tout" (ou, em português, "A França antes de tudo").

No entanto, talvez não tenha sido apenas a França a merecer o seu apreço.

De facto, três cartas de amor ‘dirigidas’, entre 1796 e 1804, por Napoleão à sua mulher Josefina, foram recentemente leiloadas e vendidas.

Ou seja, ao mesmo tempo que se mostrava, em privado, um ser afectuoso e carinhoso, exibia, para todo o mundo, um espírito belicoso e egocêntrico.

Não creio, de todo, que algumas das gravuras feitas no século XIX – por exemplo, uma delas mostrando Napoleão na companhia da Morte – tenham sido simplesmente sátiras a seu respeito: o Grande Armée de Napoleão – cujo lema era "Valeur et Discipline" (ou, em português, "Valor e Disciplina") – , apesar de sucessos fabulosos (do seu ponto de vista, claro) noutros locais, perdeu cerca de quinhentos mil soldados na chamada campanha da Rússia, em Novembro de 1812.

Quanto a Portugal: se é certo que este se livrou de integrar o reino da Lusitânia que Napoleão queria criar, também não o é menos que, como país aliado da Inglaterra – ‘alvo’ do Bloqueio Continental por parte de França –, Portugal sofreu três invasões pelo "Grande Armée" de Napoleão (que, recorde-se, nascera na Córsega em Agosto de 1769): a primeira, entre 1807 e 1808; a segunda em 1809; e a terceira, entre 1810 e 1811.

Em consequência, a família real optou por abandonar o país e refugiar-se no Brasil.

Ora, D. José António de Meneses e Sousa Coutinho, conhecido como "Principal Sousa", foi, para além de diácono da Igreja Patriarcal de Lisboa, membro da regência do reino de Portugal até Agosto de 1820.

E, para além disso, era também o dono da Quinta de São Pedro, em Almada.

E, ‘voltando’ a Napoleão: mas, e mesmo que o exílio na ilha de Santa Helena – na sequência da derrota, em Waterloo (na actual Bélgica), frente aos soldados ingleses em Junho de 1815 (e à muita chuva, por sinal), não tivesse sido suficiente para parar a sua sanha conquistadora, a própria Morte ter-se-ia encarregado de o fazer ‘através’ de um cancro no estômago em Maio de 1821…




Não creio, de todo, que uma gravura feita no século XIX mostrando Napoleão na companhia da Morte tenha sido simplesmente uma sátira a seu respeito: o Grande Armée de Napoleão, apesar de sucessos fabulosos (do seu ponto de vista, claro) noutros locais, perdeu cerca de quinhentos mil soldados na chamada campanha da Rússia, em Novembro de 1812.

 
Mas, e mesmo que o exílio na ilha de Santa Helena – na sequência da derrota, em Waterloo (na actual Bélgica), frente aos soldados ingleses em Junho de 1815 (e à muita chuva, por sinal), não tivesse sido suficiente para parar a sua sanha conquistadora, a própria Morte ter-se-ia encarregado de o fazer ‘através’ de um cancro no estômago em Maio de 1821...


O exército francês, comandado pelo antigo militar nascido na Córsega Napoleão Bonaparte, causou a morte, directa e indirectamente, a milhares de pessoas.


***


Sabia que tinham sido erguidas linhas para defesa de Lisboa (e do próprio Reino) – as Linhas de Torres (que o governo português decidiu, e bem, apesar dos dois séculos passados, classificar como Monumento Nacional) .




Mas o que não sabia era que tinham também sido edificadas na margem Sul do rio Tejo duas linhas de defesa da capital do país de um ataque vindo pelo mar: uma linha, com cerca de sete quilómetros de extensão, situava-se entre Almada e a Costa de Caparica e a outra localizava-se junto a Setúbal.

13/04/2019

A Inquisição em Portugal – parte II

O historiador Jorge Martins referiu também, na entrevista radiofónica que citei, que "No caso da Inquisição, de facto, foi um erro histórico. Nós pagámos caro esse erro a vários níveis: a nível económico, financeiro, cultural, científico, mental e religioso".

No entanto, segundo os autores da "História da Inquisição Portuguesa (1536-1821)", de José Pedro Paiva e Giuseppe Marcocci, "A sua influência continua a sentir-se ainda hoje, em certas dimensões da vida institucional e até nos costumes e modos de ser e pensar".

Ora, se ainda hoje, quase dois séculos passados do fim da Inquisição, Portugal sofre consequências da repressão do Tribunal do Santo Ofício, quem quer que tivesse passado os olhos pela ‘entrada’ dedicada ao Renascimento em Portugal feita pelo "Dicionário de História de Portugal" (‘dirigido’ por Joel Serrão no início da década de 1990), poderia, ao invés, ter ficado com a ideia de que o movimento inquisitorial mais não havia sido do que um mero episódio da História portuguesa: "Durante largo tempo, o País tornar-se-á a plataforma entre a Europa e a África, o Oriente e o Brasil. Adquirem-se novos hábitos de vida, o luxo campeia. Período agitado por sua vez, o Renascimento, desde algumas dificuldades de política interna, a presença armada nas fortalezas do Norte de África e do Oriente, as diligências diplomáticas para a delimitação de territórios ultramarinos, o estabelecimento da Inquisição (…). O que caracteriza iniludivelmente o Renascimento em Portugal é o seu cosmopolitismo, com as consequências que daí advêm; cosmopolitismo em dupla direcção: em direcção à Europa, por um lado, em direcção ao ultramar, por outro lado".

Não foi essa, no entanto, a opinião que cresceu na minha mente.

De facto, como foi possível que, ao mesmo tempo que milhares de portugueses "lidavam", quotidianamente, com o exotismo proporcionado pelas suas viagens no Atlântico, no Índico e no Pacífico – ou seja, aquilo que o então presidente da República, Jorge Sampaio, lembrou no momento da inauguração da exposição mundial de Lisboa, a Expo’98, "Portugal fez do mar a via para se encontrar consigo, com os outros, com o mundo" –, tivesse ‘nascido’ um mecanismo comandado pela Coroa Portuguesa e pela Igreja Católica, a Inquisição, que explorou, da forma mais abjecta e primitiva que a imaginação poderia, certamente, permitir (através dos autos-de-fé, por exemplo) um dos piores sentimentos da espécie humana: a intolerância?

Não tenho, por isso, dúvidas de que a Inquisição – cujo lema era "Misericórdia e Justiça" – impediu sempre a ‘instalação’ em Portugal de um verdadeiro "humanismo global" (nas palavras de Vitorino Magalhães Godinho).

12/04/2019

A Inquisição em Portugal – parte I

Assinalou-se no passado 31 de Março, não no Museu Damião de Góis e das Vítimas da Inquisição, em Alenquer, mas em Lisboa, o Dia da Memória das Vítimas da Inquisição.

Em resultado de uma iniciativa da Assembleia da República – levada a efeito na sequência de uma petição –, tal Dia pretendeu, de facto, destacar a importância desse instrumento de repressão no curso da História de Portugal.

Ora, o historiador que esteve à frente do movimento que culminou na determinação do Dia da Memória das Vítimas da Inquisição, Jorge Martins, lembrou, aos microfones de uma estação de rádio (a TSF, ser ainda preciso alterar os manuais escolares no sentido de dar mais atenção a este período: "Foram 284 anos, dez meses e oito dias de Inquisição. Nos manuais escolares quanto tempo é que se dá ao estudo da Inquisição? A minha filha deu a Inquisição em cinco minutos no oitavo ano. Eu também sou professor de História e a Inquisição nunca mereceu a importância, porque tem uma questão negativa. Como é que se consciencializam as pessoas do nosso passado negativo se não se trata o assunto como deve ser?".

Tomo, no entanto, a liberdade de acrescentar: mais e, sobretudo (muito) melhor atenção.

Por isto: um livro de apoio escolar em relação à disciplina História A actualmente disponível no ‘mercado’ português refere, a páginas tantas, a "nacionalização da Inquisição" em 1769.

Ora, apesar de eu não ser alguém diplomado em História, estranhei esta informação e optei por perguntar acerca da sua pertinência científica a alguém ‘especialista’ na História da Inquisição em Portugal.

Que, muito simpaticamente, me esclareceu: "Não tem pés nem cabeça dizer-se que a Inquisição foi "nacionalizada" em nenhum momento. Os manuais de História tem imensos erros e passagens sem sentido histórico".


 
Dizer-se que a Inquisição (ou Santo Ofício) foi nacionalizada não faz qualquer 'sentido'.




Ou seja, como se não bastasse já o facto de um livro escolar – potencialmente capaz de ser consultado por milhares de alunos – conter um erro – grave, em minha opinião –, creio ser pertinente referir que este livro teve também revisão científica de um historiador (doutorado) e colaborador em "várias universidades e centros de investigação europeus e americanos"...



***



Um outro manual escolar recentemente impresso que terá também tido uma "revisão científica" por parte de um especialista em História, salienta, por seu lado, que em 1769 foi a "Inquisição convertida em tribunal régio"…

Sinceramente espero, no entanto, que as palavras que adiante reproduzirei – escritas pelo professor Francisco Bethencourt em "Les Inquisitions Modernes" (publicado em 1992) – permitam ‘eliminar’ essa barbaridade histórica:

"A Inquisição, instituída em 1536 pelo papa [Paulo III] sob pressão de D. João III, afirmou-se com o duplo estatuto de tribunal eclesiástico e de tribunal da coroa. Tribunal eclesiástico, pois funcionou com poderes delegados pelo papa, teve como objectivo a perseguição das diversas formas de heresia e os seus juízes eram clérigos. O alargamento sucessivo da respectiva área de actuação do judaísmo, islamismo e luteranismo à bruxaria, à sodomia, à bigamia, ao comércio ilegal com o Norte de África e às proposições heréticas e blasfémias encontrou ‘respaldo’ no direito canónico. Tribunal da coroa pois a figura do inquisidor-geral era nomeada pelo papa sob proposta do rei e os membros do Conselho Geral eram por aquele nomeados após o rei ser consultado. Aliás, a coroa era regularmente informada sobre a actividade do Santo Ofício interferindo nas suas decisões e atribuiu explicitamente ao dito Conselho Geral o estatuto de conselho régio".


A Inquisição convertida em tribunal régio em 1769: mais uma barbaridade histórica...


11/04/2019

Ainda a falta de visão

Aqui escrevi há dias que me preocupava imenso com a "falta de visão" da esmagadora maioria dos líderes políticos, nacionais e estrangeiros, que nos regem.

Ou seja, não vejo que estes estejam a tomar medidas suficientemente ‘robustas’ para responder aos enormes desafios que o planeta Terra está a enfrentar e irá inexoravelmente continuar a enfrentar.

Invoco, por isso, apenas dois exemplos que me parecem ser bastante ‘claros’ (infelizmente) dessa incapacidade:

– O jornal inglês The Economist publicou, no fim de Março, um artigo na sua edição "online" - "Slower growth in ageing economies is not inevitable" em que ‘disse’ o seguinte: "Na Terra vivem actualmente, pela primeira vez na História, mais indivíduos com 65 ou mais anos de idade do que crianças com menos de 5 anos";

– Estima-se que a população mundial ascenda, em 2050, a cerca de 9,8 mil milhões (ou biliões) e que 70% destes (6,8 mil milhões, portanto) viverá em áreas urbanas.

De facto, por um lado, envelhecimento e, por outro, crescimento e (acelerada) urbanização da população da Terra.

Isto para nada dizer sobre o ‘combate’ às chamadas alterações climáticas...