Recordo-me
de já aqui ter citado uma declaração de um responsável do Turismo
de Macau a propósito de um certo (quase total, na verdade…) desprezo de
Portugal em relação ao território.
E
também me recordo de ter lembrado o desconhecimento de Portugal (e
as suas acções, claro) no Japão e no próprio Oriente.
No entanto, parece-me
ser igualmente revelador que, por exemplo, a primeira "História de
Moçambique" (abrangendo, ainda assim, não mais do que cinco
séculos, desde o XV até ao ano de 1995) tenha sido escrita por um
académico de nacionalidade...britânica: Malyn Newitt.
Creio
que tais factos exigem, pois, algumas reflexões.
Primeira:
não me parece, de todo, que Portugal – ou melhor, as autoridades
políticas portuguesas, mais ou menos recentes – não tenham vindo
a agir dolosamente (isto é, com culpa) no sentido de provocar e
ampliar uma espécie de distanciamento cultural em relação a
países e, enfim, a regiões com os quais se cruzou no passado. Ou
seja, têm tido, sim, de facto, uma culpa activa.
Na
verdade, como escrevi já em relação a uma reportagem que vi, há
pouco menos de dois anos, com o título Esmeralda Perdida (da
série "Linha da Frente" emitida pelo canal 1 da RTP) que
procurou perceber como é que as autoridades portuguesas – o Estado
– estavam a proteger uma parte do património histórico e cultural
de Portugal – aquela que se encontrava submersa e que havia sido
trazida à luz do dia em águas territoriais estrangeiras: tendo efectivamente
aprendido, então, que "Portugal
assinou a Convenção da UNESCO [sigla
inglesa para designar a United Nations Educational, Scientific and
Cultural Organization, a
organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a
cultura] para
a Protecção do Património Cultural Subaquático e está obrigado a
cooperar com os outros países", percebi,
também, que nem sempre (quase nunca?) assim
se passa pois "A
posição do MNE [sigla
para identificar
o
Ministério dos Negócios
Estrangeiros português] é
a de Portugal não reivindicar
espólios". Porquê? Penso
que por incompreensão do quão é importante proteger o património
histórico e cultural português e por uma razão que considero ser
particularmente grave: uma espécie de negação de um determinado
período da História de
Portugal. Ou seja, uma
disfunção comportamental ("complexo de culpa", por assim dizer)
que origina o repúdio
e a vergonha
por
um período da História em que Portugal se superiorizou – neste 'caso' específico, nos
mares, bem entendido, pela primeira e única vez – a
outras nações do globo.
Segunda:
esta culpa activa tem, em minha opinião, de ser ‘repartida’
entre a Política e a Academia. Invoco a Academia porque não creio
ser admissível – nem aceitável… – que, por exemplo, nas
situações que acima mencionei, esta (e a ‘massa intelectual’ e crítica que supostamente a caracteriza) não se mobilize para
preservar ‘pedaços’ da História de Portugal ainda que estejam
submersos e no estrangeiro e que, também, apesar de Portugal e
Moçambique partilharem uma ‘relação’ de séculos (a
colonização e, depois, a descolonização e a independência do
país africano)*, tenha sido um académico estrangeiro o primeiro a
escrever uma "História de Moçambique".
Quando se assinala o Dia Internacional da Família, gostaria que também a "família" de Portugal pudesse crescer e ficar, assim, mais "robusta"...
*O
então porta-voz daquele que era (e é) um dos maiores políticos de
Moçambique, a Resistência
Nacional Moçambicana
(a Renamo), António
Muchanga,
fez
no final de Maio de 2014, a uma estação de rádio portuguesa, uma
declaração: "Para
a Renamo, Portugal já foi eleito como o primeiro país fora de
África que deveria nos ajudar a resolver os problemas, como sempre.
Portugal conhece melhor o território moçambicano. Portugal tem
relações históricas seculares com o povo moçambicano, tem a mesma
língua, a mesma cultura, que a maior parte dos povos de Moçambique".