14/05/2019

A universidade e a escravatura

A universidade britânica de Cambridge, uma das mais antigas e prestigiadas do país e cujo lema é "Hinc lucem et pocula sacra" ("Aqui recebemos a luz e o sagrado conhecimento", em português), comunicou já (no fim de Abril de 2019) que iria proceder à realização, durante dois anos, de um inquérito no sentido de perceber exactamente de que forma(s) contribuiu para, beneficiou do ou incentivou o tráfico de escravos no Atlântico (bem como para/de/ou outras formas do chamado trabalho forçado) durante a época colonial.

O vice-reitor da instituição, o professor Stephen Toope, declarou, ainda durante este anúncio, o seguinte:


"Não podemos mudar o passado mas não devemos, no entanto, esconder-nos dele. Espero que este processo ajude a Universidade a perceber o seu ‘papel’ durante esta fase negra da História humana".

Pretende-se, no fundo, trazer luz e conhecimento a essa ‘relação’.

De facto, escreveu o historiador e professor John Harold Plumb na Introdução do livro do também historiador e professor Charles Ralph Boxer "O Império Marítimo Português 1415-1825" (primeiramente publicado em 1969) o seguinte:


"Esses primeiros exploradores [Portugueses] hesitantes, assaltados pelo perigo e perseguidos pela morte, traçaram as grandes rotas comerciais, com barcos cada vez maiores, a abarrotar de gente e de mercadorias, que, através de tempestades e de calmarias, seguiam imponentemente o seu caminho até aos impérios orientais. Mas a sua empresa tinha despertado a Europa, e, um século após as suas descobertas, Holandeses e Ingleses ladravam-lhes aos calcanhares, sanguinários e vorazes".


E também: "Os Portugueses abriram a brecha através da qual se precipitaram os chacais, para se saciarem à vontade".


Acrescento, somente, que dada, de facto, a intervenção de Portugal na expansão do tráfico de seres humanos nessa "fase negra da História humana", penso que seria perfeitamente compreensível se as universidades portuguesas – a de Lisboa e a de Évora, sobretudo – seguissem esta mesmíssima lógica de querer perceber o seu ‘papel’ na escravatura.

E aproveito também para relembrar que, de acordo com um documento elaborado em conjunto com a Organização Internacional do Trabalho, a Walk Free Foundation revelou, através do "Global Slavery Index", de 2018, existirem então mais de 40 milhões de escravos em todo o mundo e, mais detalhadamente, 403 mil nos Estados Unidos da América ou 136 mil no Reino Unido, por exemplo.







Post scriptum: assinalaram-se ontem, dia 13 de Maio, cento e trinta e um anos (em 1888, portanto) da aprovação da Lei Áurea no Brasil abolindo a escravatura no país. Recordo, ainda, que o Brasil foi o último país do continente americano a abolir a escravatura.

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