03/05/2019

"Os portugueses vistos..."

Ainda ontem aqui citei duas personalidades que, por razões certamente diferentes e separadas por alguns anos de distância, confluíram no ‘diagnóstico’: a ‘imagem’ de Portugal era, então, muito ‘pobre’ e difusa na Ásia.

Mas seria muitíssimo interessante para mim perceber, hoje, em 2019, que estereótipos e generalizações existem sobre os portugueses por esse mundo fora.

Lembro, de qualquer modo – e apesar de ser evidente que as ‘visões’ a seguir transcritas estavam, como não poderia, talvez, deixar de ser , imbuídas de um conjunto de estereótipos e generalizações criados e ampliados pelo facto de aqueles portugueses serem dominadores e conquistadores – um excerto de um compêndio escolar de História que utilizei quando era estudante do ensino secundário:


Os Portugueses vistos…

...pelos Africanos
Um dia sobre o mar surgiu um grande barco. Tinha asas brancas e brilhantes como facas ao sol. Homens brancos saíram da água dizendo palavras que ninguém compreendia. Os nossos antepassados tomaram medo e pensaram que eram «vumbi», almas do outro mundo. Conseguiram fazê-los regressar ao mar disparando nuvens de flechas. Mas os «vumbi» começaram a cuspir fogo com um barulho de trovão…

Tradução oral africana, in F. Braudel, Civilização Material…, III.


...pelos Chineses
Pode dizer-se que o objectivo primeiro da vinda dos Fu-lang-chi [os Portugueses] para a China foi o comércio (…).
As gentes Fu-lang-chi são altas e têm grandes narizes. Os olhos são como os do gato e a forma da boca como a da águia. O pêlo cresce-lhes até nas costas das mãos e as suas barbas são vermelhas. Amam o comércio e, apoiados no seu poder militar, têm o hábito de invadir e oprimir os países mais pequenos. Vão a qualquer sítio onde haja lucro (…) Usam roupas limpas e bonitas...Sempre que surge uma disputa, apontam para o céu e juram dizer a verdade.

História dos Ming (adaptado).


...e pelos Japoneses
Estes homens [os Portugueses] são comerciantes (…). Bebem em copo sem o oferecerem aos outros. Comem com os dedos (1) e não com pauzinhos como nós (…). São gente que passa a vida viajando de aqui para além, sem morada certa, e trocam os produtos que possuem pelos que não têm, mas no fundo não são má gente.

Crónica Teppo-Ki (adaptado).

(1) No século XVI, os Europeus ainda só raramente usavam o garfo..

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